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4/12/2016

História Universal da Pulhice Humana


HISTÓRIA UNIVERSAL DA PULHICE HUMANA, Vilhena
E-Primatur, 17,90€
Editor: Hugo Xavier
Capa: José Vilhena / Design: Paper Talk
Produção: Papelmunde

Às coisas que são boas convém não mudar, para não estragar. Foi assim que se re-publicou a “História Universal da Pulhice Humana – edição completa, integral e nunca censurada dos três volume originais: Pré-história / O Egipto / Os Judeus”. Versão facsimilada, procurou manter a mancha e layout originais dos livros ilustrados, incluindo uma mesma opção similar de papel, com aquele contraste e sujidade típicos, mas obtendo uma qualidade surpreendente em termos de opacidade.

De um ponto de vista editorial, nada há a registar, pois a obra surge-nos como Vilhena a pôs no mundo, sendo de apreciar o cuidado da E-Primatur com as guardas ilustradas e o facto de ter optado por coligir a obra em cartonado com transfil e fitilho, algo inesperado numa obra de Vilhena, mas que calculo que o próprio teria gostado de fazer, se assim lhe tivesse sido permitido.

Pessoalmente gostaria que a autobiografia, a introdução e as folhas de rosto tivessem mantido uma linha gráfica similar ao resto do livro, optando-se pela mesma fonte, apesar de compreender que a editora terá pretendido manter o seu registo habitual e fazer a diferença entre facsímile e conteúdos novos de forma clara e inteligível.

A produção não tem problemas a registar, excepto um ligeiríssimo desacerto na guilhotinagem da guarda (algo que deverá apenas ocorrer em alguns dos livros), o que é mesmo uma coisa de picuinhas e não interessa a ninguém.

Acima de tudo, este livro presta um serviço público a uma das mais interessantes personagens do século XX português, um autor, ilustrador, e editor com todas as letras a que tem direito, que influenciou toda uma estética de humor e de ilustração e que vê, neste livro, uma muito, mas mesmo muito justa homenagem.

Deixo igualmente a nota que esta é uma crítica especial. Desde logo porque critico uma obra de um colega não só de profissão, mas também de blog, o que fará com que ele possa ir lá apagar o post caso não goste, para além de me colocar a jeito para vir ele criticar os meus.

Nuno Seabra Lopes, editor e consultor editorial

11/13/2015

Crítica Editorial

Desta feita o crítico sou eu.

Ou melhor, a partir desta data, e com uma periodicidade na pior das hipóteses quinzenal, farei uma coluna de crítica de livros do ponto de vista editorial. Nada de falar sobre autores e enredos, coisas do âmbito da crítica literária: eu, é mais livros.

Mas acima de tudo, criticar edição não é dizer que se sabe fazer melhor. Como editor percebo melhor do que ninguém as contingências da profissão e as dificuldades dos colegas (excesso de trabalho, hierarquia de relações com outros departamentos e autores, etc., etc.) que concorrem para que, por vezes, algumas coisas corram menos bem. Todos erram, eu também erro.

No entanto, editar é uma arte maior que merece a atenção de uma crítica especializada, e ao analisarmos o trabalho efectuado estamos a informar o público e a ajudar a criar critérios que definam o que é um bom trabalho editorial. Estamos, igualmente, a dignificar uma profissão que não merece ficar escondida por detrás do trabalho do autor.

Assim sendo, do editing à revisão, da tradução à ilustração, dos materiais à produção, passando pelo design e pela estratégia comercial e de promoção, tudo deverá ser alvo de um olhar atento.

Por fim, refira-se que uma crítica tem sempre algo de opinião e visão do próprio. Aquilo que eu observo como um defeito pode, por vezes, ser analisado de forma contrária e até comprovada com mais certeza, pelo que o contraditório é sempre interessante. Afinal, nada é mais científico do que a crítica, a economia e a meteorologia.

Espero que gostem.
Nuno Seabra Lopes

10/17/2013

Críticas de sábado à tarde

Fonte: procurei e não encontrei... Quem souber que me indique

No passado fim-de-semana surgiu, em vários facebooks da comunidade ligada aos livros, uma enorme controvérsia causada pelos textos publicados no suplemento Atual, do Expresso, onde, a grosso modo, se fazia a lista dos autores sub- e sobrevalorizados. No entanto, a controvérsia não surgiu tanto em torno das escolhas, mas sim em torno da legitimidade da crítica em tecer tais opiniões.

Argumentava-se a questão da autoridade, referindo-se o facto de alguns críticos serem também escritores, além de acusações de parcialidade ou de fazerem a avaliação para-literária do caráter dos autores.

Controvérsias à parte, vivemos numa fase complicada em termos de mediação. A desvalorização dos críticos, editores, professores, pais, etc., em detrimento da valorização excessiva de meios de popularidade tem levado à perda da opinião com valor, feita por quem sabe mais e melhor do que nós sobre determinado assunto (independentemente de estar correto ou concordarmos com ele). A desvalorização da crítica atual é feita à semelhança da desvalorização de toda a restante mediação, acusando-a da incapacidade de entenderem o que «os leitores» gostam, ou o mercado quer, de ter uma visão que, ao invés de ser vista como mais desenvolvida do que a nossa, é vista como elitista, e tendo objetivos diversos por detrás.

Preconceitos, boatos, acusações de falta de caráter feitos a torto e a direito, abrangendo todos os críticos que tenham a leviandade de criticar. Que os há mais desonestos, provavelmente, como em todo o lado, mas a utilização desse argumentário leva somente à destruição da autoridade de um elo importantíssimo da cadeia do livro: a mediação literária. Quanto mais complexo e indistinto for o campo de ação, quanto mais assente em gostos e opiniões, mais necessária é a opinião esclarecida de forma a fornecer uma série de indícios que nos permitam desenvolver a nossa própria visão crítica da obra.

Que a crítica quase morreu todos sabemos. Que até as faculdades temem fazê-la, também, quanto mais a imprensa, sempre ocupada em cumprir calendários de divulgação de atualidades do comércio livreiro, sujeitos a pressões laborais tremendas e sem espaço e tempo para desenvolver a arte da crítica. Mas apesar de a qualidade não ser a mesma do tempo do João Gaspar Simões, não significa que não devamos respeitar a crítica que ainda existe. Apesar de tudo, não sendo extraordinária, sempre sabe um pouco mais do que a generalidade das pessoas sobre aquele assunto.

Vivemos num tempo onde todos dão opinião e ninguém a ouve. Vivemos num tempo cacofónico onde poucos conseguem reconhecer a qualidade de uma opinião, e onde a popularidade ou a capacidade de expressão para as massas é mais importante na avaliação de uma opinião, do que o conhecimento ou a pertinência. As crianças já não respeitam os professores, por que na Internet dizem outra coisa, e já não respeitam os pais porque nos Morangos com Açúcar eles fazem de outra forma, também já não ligam às opiniões dos bibliotecários porque no Facebook disseram que fixe, fixe, era o autor X, e acusam os pais de parcialidade, de só pensarem neles; os professores de serem preguiçosos e ignorantes, de não perceberem nada de nada, etc.

Independentemente de concordar ou não com o que a crítica diz – existe uma hierarquia de credibilidade e alguma capacidade crítica nossa –, respeito-a e espero que a mesma seja isenta e honesta, mesmo quando feita por alguém que tem outras funções na vida (nomeadamente a escrita), e tento perceber se a opinião de caráter é, para mim, fundamental na apreciação da obra (são diferentes teorias da crítica; a título de exemplo, é totalmente diferente ler Kafka antes e depois das recentes biografias, que o apresentam como um homem satírico, que lia os seus textos aos amigos acompanhados de fortes gargalhadas). Que os escritores e seus seguidores fiquem chateados também é perfeitamente legítimo, mas não o é desrespeitarem a opinião válida só por ela lhes ser contrária. Se não gostam nem concordam, é humano.

Neste mercado em que o escritor virou figura pública, onde a imagem, a juventude, a novidade e a capacidade de intervir são fundamentais, a escrita passou para um plano secundário, e o que conta é a popularidade do autor; logo, a sua capacidade de convencer mais gente a ler a obra.

Contrariamente ao que se julga a popularidade não traz legitimidade que os coloque acima da crítica. E a massa de leitores sabe somente na sua própria mediana medida, assim como o mercado só sabe na medida do retorno dos produtos. Uma avaliação literária não é uma avaliação comercial nem indica ser aquela uma boa aposta de aceitação pela generalidade do público, quanto mais nossa, mas dá indicações se o que o escritor traz é novo, se tem qualidades técnicas, voz própria, se nos faz evoluir em termos humanos. E é importante a crítica dar indícios que permitam diferenciar a qualidade da popularidade. Pessoalmente só tenho de agradecer por, de entre todos aqueles textos, ter havidos alguns que me fizeram pensar.

Nuno Seabra Lopes

9/18/2013

Ilídio de Matos †


Quem me conhece sabe que sou avesso a velórios, como se nos tivéssemos enganado na morada e ido visitar alguém aonde ele não está. Da mesma forma sou avesso a obituários ou elogios fúnebres. Mas não sou avesso às pessoas, e tenho-lhes muitas vezes uma dívida de gratidão que só a consigo pagar expressando aquilo que eles, em vida, foram.


Ilídio de Matos era um homem singular. Com a cordialidade dos tempos em que trabalhou para os organismos sérios e cinzentos do Estado, tinha também a jovialidade de um homem vivido e habituado a lidar com os editores-sem-email-e-telemóvel. Ou seja, dos tempos em que a relação era verdadeiramente próxima e não só composta por uns sorrisos numas festas de fim-de-tarde no pavilhão A, um copo no Frankfurter Hof, umas fotos do «pet» enviados por email. Homem habituado à relação pessoal, aos círculos pequenos onde todos se conhecem, representava não só editoras de vários países, mas também um modo de ser que a cada ano que passa definitivamente se faz delete. Tem a certeza? Sim. E assim vamos.

Se por um lado era visível que o Ilídio estava já bastante idoso. Por outro lado, e apesar de ter envelhecido rapidamente nos últimos anos, ainda era um homem cheio de vivacidade e de histórias para contar. Um repositório da memória que falta a um setor que só regista memórias de outras coisas mas não de si. E tinha também a vantagem adicional de morar a 50 metros de mim, e de me permitir que cerca de uma vez por ano pudesse almoçar com ele no restaurante da vizinhança.

Mas este ano já sei que não haverá almoço (sim, eu sei que esta é uma metáfora pirosa que muitos utilizam como forma de criar empatia..., mas faz sentido, para mim). E sei também que muitas das histórias que ele não contou acabaram de desaparecer, que chegamos a meio do livro e o texto impresso se esvaneceu, que tudo acabou sem que tivéssemos a oportunidade de saber um fim. E os leitores sabem da aflição que isso cria a quem tem o vício do texto, e a quem tem o vício das pessoas.

Que as histórias te sejam leves, Ilídio.

Nuno Seabra Lopes

9/04/2013

Como um gestor a olhar para um livro


Em conversa com o meu amigo e editor Vasco Silva referíamos a dificuldade que a gestão corrente tem em perceber as particularidades da gestão cultural, mormente editorial. Para quem trabalha no setor há algum tempo isso parece óbvio, mas para a maioria das pessoas essa afirmação é de tal forma abstrata que me parece necessário explicitá-la.

Como em tudo, é somente uma questão de valor. Mais propriamente uma questão de equilíbrio entre valores tangíveis e intangíveis. Trabalha-se com um produto de experiência, cuja apreensão de valor, vantagens de usufruto e satisfação dependem de mais variáveis do que a de um refrigerante ou outro objeto de grande consumo.

E quando falo de valores intangíveis, refiro-me ao que é imaterial – pouco metal sonante – mas que se transforma em riqueza indiretamente: como o valor de marca, a arquitetura e reputação empresarial (junto de fornecedores, clientes intermédios, etc.), por exemplo. Se o investimento for só no próximo produto, que deverá em 1 ou 2 anos ter um retorno de X , não se estará a acrescentar nada à empresa para além do tão necessário capital financeiro.

Não julguemos que o dinheiro compra tudo: aqui não compra. Porque só com um catálogo bem feito e pensado se conseguem obter determinadas vantagens no mercado, como a reputação e a «boa vontade» suficiente para obter críticas jornalísticas favoráveis, obter o hands-on know-how e as patentes que nos irão posicionar na frente do mercado especializado, ter a marca que todas as cadeias de livraria necessitam de ter por exigência de reputação do cliente, as parcerias necessárias para diluir custos de investimento, a arquitetura relacional para conseguir fazer ou comprar este ou aquele produto mais rentável, ou até os activos estratégicos que permitirão vender a empresa um qualquer grupo nacional ou internacional (que o diga a Assírio & Alvim, a Sextante, a Dom Quixote, a Caminho, a Teorema e tantas outras editoras que acabaram por ser compradas pelos Grupos Editoriais portugueses pelo seu catálogo e valor de marca).
Se tudo isso soa a dinheiro, infelizmente soa também a «médio e a longo prazo».

O equilíbrio é, então, necessário. Devemos conhecer o nosso mercado para saber até onde podemos investir no futuro da empresa, e até onde conseguimos de rentabilizar o capital investido com resultados a mais curto prazo. O dinheiro é preciso, mas o futuro também, e um gestor não cultural não está muito habituado a pensar em prazos alargados, não se conforma com a necessidade de investir em intangíveis quando tem tantas dívidas para pagar e pensa que, com dinheiro, tudo se resolve, como acontece muitas vezes nos produtos de grande consumo.

E depois, cada mercado editorial tem equilíbrios diferentes, trabalhando para públicos com exigências diferenciadas. Quem trabalha em poesia, em ensaio universitário ou no livro escolar sabe que não pode brincar com os intangíveis, quem aposta em cavalos mais comerciais, para públicos menos atentos e mais impulsivos, intangível é uma «coisa que não lhes assiste».

O problema do gestor comercial que trabalha com produtos culturais é que necessita de tempo e de abertura de espírito para passar a saber em que é que deve apostar e quanto para conseguir ganhar este jogo. Em edição, como em tudo, o futuro também depende do próximo produto, mas, paradoxalmente, dependerá ainda mais do passado: da marca e do fundo editorial perene que, bem geridos, se vão tornando no capital mais importante e que definirá se a editora sobreviverá.

Nuno Seabra Lopes

7/19/2013

RIP S.Cos. CCXIII


Dizem que o livro é para todos, mas só alguns fazem dele parte como o dia. Gente que ama, que cuida, que lê, que dá as mãos às capas, gente para quem o pensamento escrito tem a realidade das emoções tácitas, expressas no seio do casal.

Daí que não me venham com tretas e dizer que a Feira é a festa de celebração do livro. Tal como numa família, é no dia-a-dia que a festa se faz, que a relação se constrói; é nos altos e baixos, nas conversas e dúvidas, é no pó e na confusão do tempo que temos de gastar. No fundo, é na solidão e na conversa com as personagens, os amigos ou os livreiros que sentimos, de repente, que amamos os livros.

E é nas bibliotecas e nas livrarias que se celebram os livros, é aí que diariamente se comunga o sabor das páginas, as histórias que entretecem e enternecem os leitores; o resto são farturas, fanfarras, sol e passeatas por entre esta coisa gira que todos chamam Livro. No fundo, uma bela tarde de namoro de início de verão.

Daí que me enfurece que se mate uma familiar casa centenária de livros na Garrett, mesmo que outra nasça para aplacar; jovem e bendita em local impossível de amar, local de passagem, flirt de aeroporto, onde em 5 minutos se escolhe um livro que não seja pesado, que dê para despachar num voo de umas horas.

Bem sei que o tempo não está para as famílias, que quem ama não tem tempo para pagar a renda, mas é triste ver perder este mundo palpável que faz de nós humanos, para um tempo fugaz de coisas que nos perdem.

É triste saber que a loja que na Garrett surgirá não será criada durar 10 anos, quando mais 100. É triste saber que os lugares históricos viram só fachada: palácios com franchises dentro e música de elevador. Num mundo de aparência e ilusão nem o espaço da literatura salvam para dar consistência à vida.

Nuno Seabra Lopes

7/05/2013

Inovação


Lobster book, por Robert The

Palavra bonita, sem dúvida, recheada de exemplos interessantes de como a inovação salvou uma empresa, catapultou outra ou mudou um mercado. De facto, a inovação foi e é ainda o euromilhões das empresas, se jogares podes ganhar um prémio incrível mas, a maior parte das vezes, perdes dinheiro.

Não quero com isso condenar a inovação, que é essencial em mercados e produtos em rápida mudança e onde a obsolescência é ponto primordial. Se fizesse telemóveis ou carros sabia que mais importante do que o que hoje vendo é o que tenho amanhã para vender.

E nos livros?

A obsolescência dos livros é complexa de definir. Por um lado, o mercado apoia-se na venda da novidade e dos livros de grande rotação, mas lá porque o livro não vende ou saiu há mais de 6 meses não significa que está obsolescente. Uma nova roupagem, um novo canal e o produto até parece que é novo, aliás, é novo, se o mote não for de atualidade. A inovação no campo editorial também não é relevante, algumas mudanças no tema, um acabamento mais na moda, lacinhos em vez de penas e outras picuinhices que nada significam em termos concretos.

O que é então a inovação no mundo dos livros?

O digital? Claramente o digital irá mudar as regras do jogo, mas só da parte digital do jogo, provavelmente. Será um ramo distinto que irá influenciar as empresas, mas que não irá obrigá-la a modificar por aí além em termos de produto impresso. Ou seja, abre-se um novo campo, com um produto de comportamento distinto e que, para fins deste texto, podemos arrumar numa gaveta autónoma.

Num produto de baixo investimento como o livro impresso, que inovação concreta se pode fazer que não seja extremamente fácil de copiar no dia seguinte? Pior, que inovação tem ocorrido que tenha sido de facto inovadora e tenha mudado o mercado do livro? O livro de bolso, criado há mais de 80 anos?, a categoria da auto-ajuda, com quase 50 anos?

Não sendo um velho do Restelo, acho que o impacto da inovação varia tremendamente de mercado para mercado e para os livros existem coisas mais importantes do que a inovação para se conseguir «ganhar» o leitor. A adequação e a qualidade, por exemplo.

Mas se calhar alguém está a ler este texto e a ter a ideia genial que me fará mudar de opinião rapidamente.

Nuno Seabra Lopes

6/26/2013

Fazer livros é brincar com o efémero.

Gianluca Foglia

Não sejamos chatos. Os livros não são eternos e para perdurar nos tempos é necessário que o vento sopre e a areia passe pelo buraco da fechadura. Afinal, nem Homero era Homero... e a gravação na pedra é mais perene do que no papel ou no servidor.

Se pouco ou nada irá ficar para a geologia, que durante os nossos tempos algo fique é ainda assim importante; chegar ao fim do dia, do ano, da respiração e ter a sensação que ainda estamos presentes no mundo, de que algo foi feito para quem cá está – a dádiva egoísta do homem.

E tudo isso para falar de trabalho...
Num mercado literário destruído pelo vício da cópia – não a pirata, mas a económica: a da busca abstrusa pelo best seller com base no que funcionou – perde-se o espaço do livro e da criação.

Publica-se para o sucesso do mês seguinte, procura-se o fenómeno do Top (assim, com maiúscula, para significar) a custo da perenidade, cria-se o livro de que ninguém se lembrará no dia seguinte. Tal como as bandas de uma só música, proliferam hoje autores de um só livro ou coleção que são, para os editores, o sucesso do efémero, a certeza de que este ano as contas estão pagas. No próximo livro as vendas quebraram a um terço e, dentro de 10 anos, ninguém do mercado quererá saber deles, tão focados estaremos no sucesso seguinte.

Matam-se os velhos pelos novos, o potencial pela certeza.

No entanto, toda a gente sabe que um autor faz-se (quase sempre) ao contrário. Começa pela diferença e, pelo seu trabalho, vai convencendo leitores a partir do cerne, mudando-lhes a casca, introduzindo-se ou «infetando», como diz Lobo Antunes.

Gianlucca Foglia não acha ser possível continuar a editar nesta corrida permanente, que a atenção terá de regressar ao autor, aquele que é capaz de manter vendas permanentes e salvaguardar o futuro do livro e da edição. Apostar na certeza lenta, em vez da lotaria que, quase sempre, falha e, no caminho, destrói o mercado.

E eu acho que ele é das únicas pessoas que atualmente está a falar sobre o futuro da edição. O resto são fait-divers digitais.

A propósito das palavras de Gianlucca Foglia, diretor editorial da italiana Feltrinelli, na sessão A edição: passado, presente, que futuro?, organizado pela Fundação José Saramago/ Casa dos Bicos.

Nuno Seabra Lopes

6/12/2013

DRM’s , ou como se poderia dizer, Digital Restelo Men’s


Se há algo que temos a certeza é que a ganância é muita e faz parte do negócio.

Se ela serve para garantir que conseguem rentabilizar um investimento muito avultado e cheio de risco, ou um futuro de milhões na conta bancária e adversários falidos, pouco importa, o que sabemos é que as estratégias de desenvolvimento de ereaders/ebooks por parte dos principais retalhistas internacionais assentam em ecossistemas fechados e fortemente protegidos, que impedem em larga medida a importação e exportação (ou a leitura) de ficheiros de outros ecossistemas nos seus, ou dos seus noutros ecossistemas.

Não se trata de DRM para proteção dos direitos de autor e combate à pirataria, muitas vezes sobre essas proteções existem muitas outras encriptações que visam tão-somente impedir que o leitor possa, de facto, usufruir do seu ebooks noutro leitor que não o da sua empresa.

Para além disso, afastam de vez o retalho que, mesmo que quisesse vender ebooks, não o poderá fazer sem o seu controlo. Detendo o produto – muitas vezes desde a origem, englobando imprints próprias −, o leitor (leia-se, o interface tecnológico de mediação da leitura) e o canal de distribuição e venda, garantem o monopólio total. Se o futuro é digital não tem de ser, no entanto, um futuro fechado no mundo Amazon ou Apple.

Aliás, se não queremos ver surgir uma «justificação moral» para a pirataria, é bom que não o seja.

Tão importante como os desenvolvimentos e implementação do EPUB3 e respetiva interoperabilidade, importa também perceber como queremos manter uma estrutura de produção e retalho saudável, capaz de responder em concorrência a diferentes públicos e necessidades, adotar e desenvolver estratégias diferentes e permitir a entrada de agentes de inovação. Uma estrutura que permita o input dos agentes locais e não uma estrutura massificada interessada em responder tão-somente aos «grandes públicos» e escravizar, em todo o restante mercado, os agentes que possam complementar esse seu mercado.

Neste mercado de forte desenvolvimento estamos cada vez mais nas mãos de agentes que não se interessam no desenvolvimento em prol do leitor, mas somente na medida da capacidade que têm de gerar riqueza com ela. Ao fecharem os seus sistemas comportam-se como velhos digitais do Restelo, com medo que um mercado honesto, aberto e simples para o leitor possa ditar o fim das suas hegemonias.

Nuno Seabra Lopes

6/04/2013

Preparados para o digital?

Imagem do The Supreme Architect sobre original de Hiroshige

Enquanto por cá não sabemos mais adivinhamos, em Espanha fazem-se Estudos e descobre-se que não, que não estão nada preparados para o digital.

O estudo realizado pela Laboratorio del Livro, da Anatomía de la Edición, procurava responder a algumas questões básicas descortinadas no documento La gran transformación. Panorama del sector del libro en España 2012-2015. Para isso recorreram ao método de inquérito qualitativo (a agentes do setor do livro: editores, livreiros, bibliotecários, autores, distribuidores, especialistas de digital e de direitos de autor e investigadores), contando com mais de 100 respostas.

Analisas e debatidas as respostas dentro do centro de investigação surge agora um relatório preliminar onde percebe que:


  • Grande desconcerto e desassossego em relação ao futuro;
  • Falta de aposta no mundo digital;
  • Grandes limitações técnicas e tecnológicas para venda em rede;
  • Falta de recursos para investir na mudança do modelo de negócio;
  • Falta de investigação sobre o leitor digital, 
      entre várias outras coisas.

Uma das mais curiosas observações foi ver que entre os diversos especialista e face à pergunta: O consumidor não pede livros electrónicos, somente obtiveram respostas conclusivas de menos de 25% das pessoas. Ou seja, a maior parte dos «especialistas» não faz a mínima ideia se os leitores querem ou não livros eletrónicos.

Numa fase em que o digital cresce em investimento, mas pára em crescimento, as dúvidas avolumam-se sobre o futuro do digital e o receio de avançar numa fase de total incerteza aparenta ser total.

5/17/2013

e-crítica

Instalação do Festival Literário de Sidney, do blog Justin Hill Author

Há alguns anos Miguel Real dizia claramente que a crítica estava morta, pois não havia já coragem para criticar, sob risco de errar clamorosamente. Aquilo que hoje é, amanhã deixa de o ser e a nossa visão torna-se apenas errada, reacionária, ou absurda.

A «Recherche» proustiana foi destroçada (em avaliação editorial para a NRF) pelo André Gide e vários outros casos fazem a história da crítica «ao lado», da incapacidade de ver e compreender algo que outros mais tarde o farão. Ocasional? Por vezes, também. Mas a crítica, por mais recursos e conhecimentos que se chamem à colação, será sempre um ato pessoal, uma opinião, uma visão impregnada de todas as virtudes, defeitos e características de quem o faz, da sua relação ou não com o fazedor ou a geração, grupo, proveniência, características, associações ou qualquer outra questão comezinha que possa intervir na avaliação exclusiva da obra.

Não há provas cegas de literatura (exceto em brincadeiras e com textos já conhecidos), nem as mesmas fazem sentido num campo interpretativo tão vasto como o da literatura. Ler é pessoal, é um percurso individual que nos molda o gosto. Depende da nossa vida, dos factos que nos afetam mais profundamente, dos temas e necessidades que tecem a nossa vida. Mas dão elementos importantes que ajudam à formulação de pontos mais ou menos pertinentes na história da escrita.

Com a morte da crítica abriu-se o espaço à pluralidade, à avaliação independente dos textos por estratos (onde todos são críticos e criadores), e muitos elementos de qualidade não são tidos em conta. Para uns o enredo pode não ser inovador, mas ele nunca leu nada igual e gosta, para outro o estilo pode ser genial, apesar de estar só a imitar outro escritor mais competente que nunca terá lido, por exemplo. Nada disso importa no novo mundo, na infoesfera. A qualidade é definida pela popularidade de quem fala, pela influência que essa pessoa tem no seu círc[ul]o particular. A pertinência morreu.

Provar que determinado texto é bom passa hoje pela presença constante em eventos e locais que «afirmem a popularidade», que «reforcem a influência», pela presença comunicacional e aumento da plataforma. À morte da crítica, se X aparece nos jornais, vai a festivais e encontros literários é automaticamente considerado bom − apesar de em nenhum lado se ter dito que o era, ou porquê −, entrando num circuito que agora também se apoia nele para se promover, no mesmo circuito de influência e popularidade.

A par com a morte da pertinência, dá-se a o surgimento de outros elementos acessórios típicos dos fenómenos de popularidade. A questão da novidade, do novo, do jovem, face ao conhecido, já visto e, independentemente da qualidade, sem capacidade de trazer o hype necessário a estes fenómenos. Chama-se a curiosidade e o desconhecido como espaço em potência para o crescimento. Se cresce muito, entra para o circuito, se não cresce, nada se perdeu, entrando na voragem dos dias.

Entre jovens e menos jovem existem grandes o pequenos escritores, será através da nossa competência de leitores que teremos de separar o trigo do joio.

Nuno Seabra Lopes

5/09/2013

83.ª Feira do Livro de Lisboa


Na sequência do post anterior, e tendo tido já conhecimento das características e alterações da próxima Feira do Livro de Lisboa, venho complementar com as perspetivas atuais para a 83.ª Feira do Livro.

De entre as alterações apresentadas refiro o fim da programação «oficial» da APEL. Se, por um lado, se lamenta a perda de uma programação isenta, que aborde os eventos por si e não numa perspetiva comercial de venda de determinado produto, por outro lado a Feira ganhou um novo parceiro que vem, este ano e em certa medida – bastante restrita no tempo −, complementar essa parte da programação. Trata-se do British Council que propôs à APEL ser palco de uma extensão da Conferência Mundial de Escritores de Edimburgo, organizada pelo Festival Internacional do Livro de Edimburgo, a realizar-se em Lisboa no dia 25 de Maio, na Feira do Livro. Em simultâneo o British Council promove uma outra ação a realizar-se em diversos locais da cidade de Lisboa na noite de 24 de Maio, denominada Noite da Literatura Europeia − organizada pela EUNIC, que é a Associação da União Europeia dos Institutos Nacionais de Cultura, na qual figura o Instituto Camões −, com a leitura e a apresentação de escritores europeus em diversos pontos emblemáticos da cidade, como a Mãe d’Agua ou o Convento do Carmo, e que de alguma forma integra a programação da Feira do Livro de Lisboa.

Relativamente à programação, serão mais de 600 as atividades programadas, às quais se devem associar mais de 100 outras ações organizadas pelas Bibliotecas Municipais de Lisboa e outros serviços educativos de equipamentos camarários. Uma média de 40 eventos por dia, a concentrarem-se em particular nos fins-de-semana e feriado (10 de Junho).

De entre as boas notícias refiro também o aumento substancial da praça infantil, que terá uma importância acrescida, tanto que as várias editoras infantis irão deslocar as suas atividades para dentro deste espaço. Várias, mas não todas, de entre os grupos editoriais ou editoras de média ou grande dimensão nem uma aceitou «perder» este público, restando um aplauso às várias pequenas editoras que parecem ser as únicas a entender o verdadeiro espírito de abertura da Feira.

Também se destaca o surgimento de duas áreas novas de lounge, onde se pode simplesmente descansar ou ler, uma boa notícia para quem quer fugir do bulício e repousar, e onde se espera que não haja qualquer tipo de atividade promocional ou evento para além de servirem bebidas, gelados e afins.

Em maré de poupança também surgiu a boa ideia de recorrer ao voluntariado. Para tal abriram inscrições aqui (voluntariado@feiradolivrodelisboa.pt), sendo esta uma ótima oportunidade para quem não estando a trabalhar, possa ganhar experiência e interagir num ambiente culturalmente relevante como o da Feira do Livro.

Agora só resta esperar pelo dia 23 de Maio para podermos regressar ao Parque Eduardo VII, agora novamente com o horário alargado e complexo de há 3 anos atrás.

Nuno Seabra Lopes

5/08/2013

O Ruído da Feira do Livro

Fonte: Online24

Quando, há alguns anos atrás, a APEL quis reformular a Feira do Livro de Lisboa (e Porto), pude participar ativamente nesse processo e ver muitas das minhas ideias e projetos implementados no novo e atual modelo. Entre eles destaco o projeto de animação, que incluía a abertura das «Praças», como locais de multiplicação de atividades de animação e de descanso, reforçando a perspetiva de lazer do espaço e aumentando o tempo de permanência no local, entre vários outros motivos.

Ideias à parte, presumi e fiz cálculos para que houvesse uma apropriação dos espaços pelos editores, o que levaria ao aumento acentuado das ações de animação. Vejo agora que presumi errado, por defeito.

Se por um lado isso aconteceu, por outro lado não contei que a existência do conceito permitiria a sua apropriação para implementação em áreas «privadas» suficientemente largas para o efeito. Exemplos como a percursora Praça LeYa foram surgindo, algumas até abusivamente, como o famoso túnel da Babel, que isolava completamente o cliente do espaço da Feira − levando demasiado além o conceito de retenção do cliente e indo contra o princípio aberto e associativo do evento. Sendo que este processo foi politicamente impossível de travar numa estrutura representativa como a APEL.

O resultado está à vista. De uma falta crónica de animação passamos à confusão absoluta, com demasiada gente retida em pequenos espaços durante os picos de visitação, dezenas de ações em simultâneo e um excessivo ruído, gerando aceleração do processo de visita, ansiedade e cansaço.

Isso não seria totalmente mau (pois reflete mais, mais longa e repetição da visitação) se não acarretasse outras alterações. A principal alteração é a falta de capacidade para o processo normal de venda, e a maior dificuldade de concentração para «ver» os livros e escolher sossegadamente levou à alteração das características do resultado do processo de venda.

A grande alteração é a seleção por critérios diretos, o que leva quase exclusivamente à compra por impulso (impulso de preço, de notoriedade, ou do chamado valor reconhecido simples). Ou seja, a Feira do Livro torna-se assim num grande espaço de venda de poucos títulos (comunicacionalmente falando, em termos de retenção da atenção) – aproximando-se do modelo dos hipermercados − e perde o seu valor de espaço de fundos o que, por sua vez, leva ao apuramento da seleção de livros por esse mesmo critério por parte dos editores.

A falta de regulação da «confusão» reinante no espaço da Feira do Livro levou inevitavelmente à alteração do perfil comercial da Feira.

Se estava à espera que isso ocorresse? Não. Se estou contente? Definitivamente, não.

Se vamos a tempo de mudar? Talvez, também, não, pois a capacidade política da APEL em implementar medidas de restrição (comunicacional/ comercial) aos seus associados é nula face aos interesses e objetivos da mesma. Não compete à APEL zelar por um perfil mais «cultural» da Feira em prejuízo dos interesses económicos dos associados, mas será ela a grande prejudicada da próxima vez que alegar os motivos culturais como motivo para o financiamento público, como se percebeu recentemente com a Câmara Municipal do Porto.

Nuno Seabra Lopes

5/06/2013

Amazon Publishing, pleased to rip you off



No meio editorial europeu não se fala de outra coisa. Em Espanha o tom tem subido significativamente e a Amazon torna-se, dia para dia, na «Besta Negra» da edição mundial.

De plataforma muito bem-sucedida de venda de livros, a Amazon tem crescido para onde consegue, e o dinheiro o permite.

E-readers à parte, o que aqui hoje me traz é a recente estratégia de aquisição de conteúdos por parte da Amazon que, face à maior dificuldade em conseguir entrar na Europa, passou a atacá-la de outras formas.

De que forma? Imaginem que são editores e que há anos publicam os vossos principais autores com maior ou menor sucesso. Imaginem agora como ficariam se a Amazon fosse ter diretamente com os melhores autores e lhes «pagassem» para isolarem os direitos digitais e  passarem para a Amazon o direito de vender os «nossos livros» em todo o mundo, incluindo no nosso país, na versão Kindle. Ficavam contentes?

Não sendo esta ação (reter os direitos digitais para publicação autónoma) uma novidade, já o «Chacal» – o famoso agente Andrew Wiley – o fez, ao menos ele era o agente dos escritores e estava descontente com as estratégias digitais dos editores. Não sendo ilegal, o que a Amazon está a fazer ultrapassa todos os limites da ética.

Nuno Seabra Lopes

4/24/2013

Cuidado, atenção, é permitido olhar para o lado: perigo de explosão

Random house, inc. (para nos irmos preparando para o futuro...)

Na véspera do 25 Abril, nada melhor do que falar deste assunto.

Se aparentemente não estamos casados, a verdade é que a união económica com Espanha é «de facto». Crise lá é crise cá e tudo o que por aquela casa se passa tem inevitavelmente passado para cá, com tudo o que de ventos e coisa e tal os nossos avós disseram.

Tudo isto para falar das recentes revoluções ocorridas no mundo editorial espanhol, onde os problemas da dívida (neste caso não pública, mas privada) têm levado a uma nova «refundação» da estrutura de concentração dos grupos editoriais em Espanha.

Depois da Bertelsmann (recém-fundida com a Penguin para criar o maior grupo do mundo) ter adquirido a parte da Mondadori no negócio hispano-falante, chegou a vez do desmembrar o grupo Prisa /Santillana, a braços com mais de 3.000 milhões de euros de dívida a curto prazo. O resultado foi a venda do braço de edições gerais (infantojuvenil excluído) ao gigante alemão. Alfaguara, Objectiva (do Top 5 brasileiro), Aguillar e restantes marcas passam agora para a alçada da já enorme Random House que passará a ser, também, o novo gigante da literatura no mercado hispano-falante, a par com a Planeta.

Problemas internos à parte (como ficarão as editoras gerais do grupo Santillana em Portugal [Objectiva, Alfaguarra, Suma de Letras], onde a RH já não tem estrutura montada?), este poderá ser um aviso à navegação.

Com a crise a caminhar assim, até quando é que estruturas como o Grupo LeYa resistirão à nova investida dos mega-grupos (ou dos seus antecessores, os fundos de investimento)? Com um pé cá e outro no Brasil, este poderá ser apenas uma aperitivo para quem queira concentrar as edições gerais do mundo ibero-americano, tanto que a LeYa já representa em Portugal muitos dos autores desse grupo.

Nuno Seabra Lopes

4/22/2013

5 Livros que Mudaram a Edição

Se acham que vou falar dos livros do José António Saraiva, da Bíblia de Gutenberg ou das 95 teses de João Calvino estão muito enganados. No seu tempo estes livros mudaram o mundo e, também, a edição, mas nada que se compare com estás pérolas editoriais, responsáveis pela mais recentes mudanças no mundo da edição. Senão vejamos:

Série Harry Potter
Se achavam que os mais jovens não eram capazes de ler livros sem imagens e com mais de 50 páginas, estavam enganados. Numa geração plenamente envolvida nas tecnologias a série Harry Potter provou que esta categoria tinha um potencial assombroso, tornando-se também um dos maiores sucessos de cross platform publishing, liderando uma série de outros livros que viraram mega-produções cinematográficas (não falo de livros que viraram filmes, mas livros e filmes nascidos de um mesmo projeto).

A Cabana (The Shack)
Se Tristam Shandy e vários outros livros posteriores foram publicados em auto-edição (com sucesso), isso não significou que alguma coisa tivesse mudado. Nem mudou quando Eragon saiu primeiro em auto-edição, antes de ser publicado pela Knopf. Mas quando o livro canadiano de auto-edição A Cabana, de William P. Young chegou ao top do NYT com mais de um milhão de livros vendidos, as coisas mudaram e percebeu-se que não era obrigatório ter-se uma editora para alcançar o sucesso.

A Sangue Frio (In Cold Blod)
Truman Capote tinha consciência de estar a fazer algo de novo quando decidiu usar técnicas narrativas para contar uma história real, fruto de um longo trabalho jornalístico. O modelo, que mistura competência de escrita e realidade, tinha tudo para ser um sucesso. No fundo, nada é mais incrível do que a realidade.

Dádivas do Mar (Gifts from the Sea)
Se a auto-ajuda é o que é, muito se deve a Anne Morrow Lindbergh, heroína da América, esposa do herói Charles Lindbergh e mãe do mais famoso bebé raptado e assassinado da história da América. Com esse currículo, Anne estava no lugar ideal para, junto à praia, pensar na vida e criar o primeiro grande sucesso de auto-ajuda na história da edição.

His Family
Se hoje ninguém sabe quem foi Ernest C. Poole, é porque alguma justiça se fez no mundo. Vencedor do Pulitzer no ano de 1918, mostrou ao mundo que a qualidade e a originalidade não são argumentos para se ter sucesso ou ganhar prémios importantes. Tendo derrotado autores como John dos Passos, Hemingway, Faulkner, Fitzgerald ou Miller, Poole simplesmente plagiava o estilo de autores consagrados, criando narrativas «simples» de ler e agradáveis ao público (habituados a mais do mesmo). Desde então, o fenómeno nunca mais parou.

E não, o 50 Sombras de Grey ainda não tem espaço para figurar neste grupo.

Nuno Seabra Lopes

4/18/2013

E Pur si Muove!


Começando como um desígnio de Manuel Medeiros – plenamente apoiado por alguns amigos de notória proactividade – o Encontro Livreiro de Setúbal conta já com 4 sessões anuais, um prémio carreira, um blogue ativo e uma extensão por terras transmontanas. Mas o que é, de facto, o Encontro Livreiro? Por que caminhos segue e quais os objetivos presentes neste Encontro anual de amigos do livro?

Tendo estado presente em todos exceto no primeiro, tenho visto o desenrolar desta iniciativa, escutado as diversas intervenções e acompanhado o contexto em que se move.

Em primeiro lugar, realço o facto de a ação não se arrogar mais do que ser um encontro de amigos, um lugar de convívio entre pessoas com interesses comuns, onde se propicia o diálogo e a troca de experiência e de ideias. A par deste conceito, têm sido desenvolvidas algumas dessas ideias, como a instituição do Prémio Livreiro da Esperança, ou a parceria com a Fundação José Saramago para a celebração do dia 30 de novembro, dia da Livraria e (agora) do Livreiro.

Desenvolvendo-se num ambiente que declara não acreditar na Associação existente para os auxiliar e representar (a quase totalidade deles afirma não pertencer ou querer pertencer à APEL), claramente acreditam no livre espírito associativo. Associativo na medida em que compreendem que juntando-se conseguirão obter pequenas vantagens (informativas, arquiteturais, estratégicas) para melhorar a sua prática profissional e descobrir novas formas de reinventar a profissão.

Tal como referiu António Alves, da Traga-Mundos (o livreiro transmontano presente), só pelas pequenas coisas (descoberta de autores locais, estratégias de colocação e informação de procura de produtos, realização de ações comuns com distribuição de custos, etc.) já compensa.

O próprio discurso dos Encontros tem alterado ao longo dos anos. De primeiros anos onde a catarse das condições de mercado só era interrompida pelos votos de amor ao livro, as intervenções foram ficando mais claras, avançando-se ideias e discutindo-as, ganhando em propósito e dando ao Encontro mais lastro, mais capacidade para implementar ações e mobilizar pessoas, ou seja, para crescer.

Como alguém escreveu (que não Galileu, que Manuel Medeiros ainda é o mais idoso de todos os participantes – mesmo não tendo podido estar presencialmente) no livro de presenças do Encontro, E pur si muove!, e no  entanto move-se. E move-se no sentido em que Manuel Medeiros sempre quis: que as pessoas conversassem e as ideias surgissem, e as ações fossem implementadas.

Neste Encontro já não há utopias, conhecem o estado do setor e a progressiva extinção da profissão (a par de todas as outras profissões de mediação), mas conhecem também os valores que representam e os ideais que querem e devem ser preservados, procurando entender novas formas de o fazer. Conhecem ambientes diversos (mais urbanos ou setentrionais, mais ou menos abastados), e preocupações distintas. Mas sabem também que se a profissão de livreiro terá pouco futuro (atualmente já quase não existe), haverá sempre futuro para o «Livreiro», alguém que ama e conhece os livros e tem a capacidade de auxiliar os outros a encontrar aquilo que procuram, fazendo disso a sua profissão. E se em algum sítio deste país se procura esse caminho, é aqui.

Texto originalmente publicado no blogue do Encontro Livreiro.

Nuno Seabra Lopes

4/01/2013

Protagonistas da Edição: Fernando Guedes


Sei que serei sempre suspeito ao falar deste livro, por ser fundador e antigo coproprietário da empresa que o encomendou e editou. No entanto, desde há bastante tempo que leio e faço a crítica aos livros que saem neste setor e, como não tive implicação direta na criação do mesmo, acho que devo também falar − da forma mais isenta possível − sobre esta obra.

O projeto, existente na empresa desde há longa data (cuja ideia passou por várias fases, entre elas a de entrevistas vídeo só a editores), só se pôde concretizar mais recentemente em boa parte pela conjugação de interesses da Booktailors e da jornalista e crítica literária Sara Figueiredo Costa, amante da «arte negra» tipográfica e devota do mundo profissional da edição, em particular no seu aspeto mais tradicional.

Nessa sequência, e integrada num posicionamento claro da parte da Booktailors, foi publicado recentemente o primeiro livro de uma série de «livros-entrevistas» dedicados aos Protagonistas da Edição, não só aos editores (publishers), como este livro poderia transmitir, mas também aos editores (editors), tradutores e vários outros agentes que compõem este mundo da edição.

O primeiro volume foi dedicado a Fernando Guedes. Se, por um lado, a escolha de Fernando Guedes não poderia ser mais consensual − é um editor «gigante» cuja carreira e importância histórica ultrapassam as fronteiras nacionais, e a mais proeminente figura viva da história da edição portuguesa −, por outro lado a sua execução não é tão simples quanto se pensaria à partida. Por um lado, Fernando Guedes é um ativo autobiógrafo, historiador do livro e da edição em Portugal, tendo na sua biobibliografia mais do que uma obra onde conta a sua história e o seu percurso, a par com a história da edição e comercialização do livro em Portugal, e à qual se deve associar uma outra obra comemorativa por alturas dos 40 anos da Editorial Verbo, onde surgem os restantes elementos em falta da empresa por ele cofundada e gerida. Outro dos elementos a ter em conta é a proverbial reserva de Fernando Guedes em deixar publicar qualquer texto que possa, de alguma forma, apresentá-lo politicamente de forma menos correta, sendo que qualquer «desvio» dos temas e assuntos convenientemente demarcados teriam como resultado a impossibilidade de publicação do livro.

Face aos constrangimentos referidos e à elevada quantidade de informação já disponível sobre o «protagonista», resta a pergunta: o que se pode e/ou sobra contar?

Antes de entrar na especificidade da obra, devo referir-me à coleção. Se Fernando Guedes tem muita biobibliografia, o mesmo não se passa com a quase totalidade do setor, cuja falta de informação é contrastante. Nessa perspetiva, esta coleção é mais do que bem-vinda, é mesmo essencial para preservar a memória deste tempo fugaz para, em conjugação com outras obras de cariz mais científico e historiográfico, auxiliar à criação de uma imagem mais completa do que foi ser editor em Portugal ao longo do século XX. Em termos de design, não sendo especialista nada tenho a apontar; design sóbrio, fazendo lembrar o velho trabalho tipográfico, tem uma leitura higiénica e surge complementada por algumas fotografias – apesar de serem todas na mesma toada e não acrescentando tanto quanto se esperaria −, impressas em bom papel. Do ponto de vista editorial, parece-me irrepreensível, notando-se o cuidado tido com o livro em termos de paginação e de revisão.

Ao layout dos conteúdos deve-se evidenciar que para além do texto central, houve o cuidado de incluir alguns extratextos importantes como uma tabela cronológica e um perfil resumido. Menos evidente surge a necessidade de um índice remissivo numa obra desta (pequena) dimensão, que só se explica pela falta de um índice por onde se possa seguir a ordem dos assuntos abordados. Relativamente ao texto deste primeiro volume, o mesmo foi feito mantendo os traços da relação entrevistador/entrevistado, estando Sara Figueiredo Costa presente não só nas perguntas que surgem, mas também em algumas respostas e na forma como se desenrola a conversa. Torna-se assim o texto mais dinâmico, mais empático, «em jeito» de conversa privada tida à mesa da Sociedade de Geografia (que também surge referenciada como espaço da conversa). Esse modelo permite fazer-se uma leitura calma e escorreita, mas transmite também uma sensação ligeira de «conversa de circunstância», sem o diálogo ou o cruzamento de informações que permita aprofundar as questões abordadas.

Das respostas dadas por Fernando Guedes, destaco a lucidez e capacidade de observação que o Editor mantém, capaz de perceber de uma forma nada «quadrada» − como a dada altura se caracteriza – a evolução e atual conjuntura da edição em Portugal. Também destaco a humildade com que partilha todas as suas aventuras com quem com ele esteve presente e, sem desmerecer o trabalho tido, a «sorte» com que foi podendo desenvolvê-las.

Nesta «conversa» em forma de livro, lamenta-se a pequena extensão da obra, que permite só aflorar brevemente os diversos temas – por vezes dedicando-lhes só quatro ou cinco linhas −, sem espaço para muitas histórias (apresenta apenas uma realmente original sobre de José Gomes Ferreira, e explica com mais alguns detalhes a prisão de Fernando Guedes por alturas do PREC), não acrescentando mais ao que já está publicado nas obras autobiográficas do autor. Quero no entanto referir que este modelo me parece igualmente válido pois, apesar de tudo, permitirá, num prazo relativamente curto, abranger um elevado número de «protagonistas», elencando-os para memória futura e deixando os elementos de base que permitirão que outros possam desenvolver obras mais aprofundadas.

Os próximos títulos, dedicados a Carlos da Veiga Ferreira (histórico editor da Teorema) e Guilhermina Gomes (alma e editora da Círculo de Leitores) já não deverão padecer desse problema pois, e tal como acima referi, pouco ou nada existe publicado sobre outros protagonistas, nomeadamente os agora referidos, e alguns deles são proverbiais não pela sua reserva, mas pela sua coragem em afirmar publicamente tudo aquilo que sabem.

Considero então este como o pontapé de saída – com classe – de uma coleção que poderá contribuir para a divulgação da vida e obra de «Protagonistas» que, cada um à sua maneira, representam uma geração e uma forma de trabalhar e dedicar a sua vida aos livros que hoje já dificilmente encontramos.

Nuno Seabra Lopes

3/26/2013

Paulo de Cantos


 (uma Linotype a fabricar a legenda do livro) 

Fui hoje muito agradavelmente surpreendido ao saber da publicação da obra O livr-o-mem – Paulo d’ Cantos n’ Palma d’ Mão, pelo Ateliê Bárbara Says.

O professor, designer e editor, praticamente desconhecido até à data, foi uma das mais criativas figuras do design editorial português do Estado Novo, dotado de uma mente surrealista, conviveu com figuras como Fernando Pessoa e Mário Cesariny, em nada lhes devendo em termos de capacidade artística.

Com uma obra vasta e dispersa, abrangendo todo o tipo de temáticas, Paulo de Cantos surge agora aos olhos do público pelo trabalho extraordinário de António Silveira Gomes e Cláudia Restelo, do Ateliê B. Says, através de um livro que é, aparentemente, também uma obra de arte (estou a aguardar a entrega...).

Livro recolha dos trabalhos do professor, parcialmente impresso em tipografia (recurso a zincografias reais e com legendas compostas em Linotype), este é um livro a todos os níveis imperdível para todos aqueles que gostam de design editorial ou da história da edição em Portugal.

Lançado na passada sexta-feira podem optar pela versão regular ou pela especial, de 100 exemplares numerados com um zincogravura original. O preço é convidativo (27,00€) e pode ser comprado em Lisboa na Sá da Costa e na Stet ou, em todo o país, pelo sítio www.cantos.barbarasays.com.

Vejam também a reportagem e vídeo feitos por Raquel Martins e Joana Bourgard para o Público.

Nuno Seabra Lopes

3/20/2013

IV Encontro Livreiro


É já no próximo dia 7 de Abril, da parte da tarde, na Livraria Culsete, em Setúbal, que se irá realizar o IV Encontro Livreiro. Projeto da alma do livreiro Manuel Medeiros, organizado pela esposa Fátima Medeiros, pelo Luís Guerra e outros amigos, este evento tem crescido de ano para ano, apresentando desenvolvimentos de destaque – como a homenagem e entrega do prémio Livreiro da Esperança – e tem-se revelado como o único fórum para o desabafo e a discussão de todas as questões relacionadas com as livrarias independentes.

Pessoalmente, tenho a felicidade de ter podido sempre estar presente e, entre amigos, procurar, em conformidade com o espírito do encontro, participar com a minha visão e comentário.

É com agrado que vejo como, ao longo dessas sessões, tem aumentado o interesse das pessoas, levando a que algumas delas se desloquem centenas de quilómetros para poderem participar, trazendo para a conversa realidades livreiras bastante distintas e, por isso mesmo, muito relevantes e exemplificativas da realidade do país.

Como ao início referi, é já no próximo dia 7 de Abril e eu conto lá estar, e conto também encontrar os amigos de todos os anos e conhecer novas pessoas. Estarei lá, em especial, para ouvir, para aprender com quem diariamente lida com uma atividade em mudança e em crise, para aprender com a experiência de quem tem muito para ensinar.

Espero que possam vir, também.

Nuno Seabra Lopes