5/30/2014

América, América!


Acabei de ler recentemente Another Life de Michael Korda, uma leitura que tinha iniciado há muitos anos e interrompi para priorizar outras leituras.

Korda foi, para quem não saiba, editor chefe da Simon & Schuster durante largas dezenas de anos. Era-o ainda em 2000 quando publicou este livro. Mas é muito mais do que isso: Korda é também o autor de um romance best-seller (baseado na vida da sua tia, a actriz Merle Oberon), de biografias de grandes personalidades e mesmo de um livro de auto-ajuda que bateu vários recordes de vendas; como tal este é um editor/autor que conhece os dois lados da barricada.

Em Another Life, Korda escreve as suas memórias como só um bom editor pode fazer: apagando-se. As suas memórias são os retratos dos seus autores, dos seus colegas editores, dos gestores das editoras, das mudanças na organização das editoras e grupos editoriais e das evoluções do mercado.

Neste volume podem encontrar-se algumas das melhores anedotas (verídicas, na sua maior parte) sobre o meio editorial norte-americano mas também, num registo mais sério, a história da casa Simon & Schuster, uma das mais importantes dos Estados Unidos; considerações simples mas brilhantes na sua simplicidade sobre o trabalho editorial, as suas dificuldades e prazeres - considerações essas que me apeteceria transcrever linha por linha, palavra a palavra neste blogue não fosse o facto de que acabaria por transcrever largas dezenas de páginas; uma narração factual das transformações da indústria do livro nos EUA - sem ceder à tentação (ou impossibilitado de o fazer) de aplicar juízos valorativos (como o fez, por exemplo, André Schiffrin no seu O negócio dos livros); e uma descrição detalhada do funcionamento do mundo editorial norte-americano desde as funções mais básicas (Korda entrou no mundo da edição primeiro como leitor e posteriormente como assistente editorial, vulgo servo) às estratégias de gestão e políticas estruturais.

Não vou entrar em grandes detalhes: este é um livro muito importante para quem trabalha na área do livro seja para editores, autores ou livreiros, comerciais ou quaisquer outros, mas é também uma obra essencial para perceber o mundo de diferenças que existe na edição de livros nos EUA e a que se faz por cá.

A importância do "editing" de todos os livros publicados, por mais ou menos literários que sejam, chocaria a maior parte dos autores portugueses que se escandalizam quando o editor sugere trocar uma vírgula ou cortar uma frase. E, verdade seja dita, despoja as obras de credibilidade artística. Por outro lado, o livro explica-nos perfeitamente o porquê da lógica ecléctica e da falta de identidade das editoras americanas cujos catálogos podem e geralmente misturam obras literárias com auto-ajuda, biografias de vedetas ou importantes ensaios sócio-políticos com livros de dieta ou espiritualidade new-age, etc. Korda que reflecte, até no ecletismo da sua produção literária, o meio em que trabalha, acaba de forma indirecta por nos explicar que o público norte-americano é muito diferente do europeu - até do britânico (e como!).

O curioso, e permitam-me agora que me afaste do livro de Michael Korda (sem nunca o perder de vista), é que nós por cá, com séculos de uma indústria do livro a mais do que os norte-americanos, olhamos para eles como uma bitola do que o futuro nos reserva.

Deveria bastar-nos o facto de os norte-americanos terem números fiáveis sobre o seu mercado para percebermos que as diferenças são inultrapassáveis. Mesmo nos mercados mais organizados a nível europeu, os editores e os bons gestores de editoras sabem o valor relativo dos números e a sua imprecisão no que toca à nossa indústria em particular. Não vou referir a crónica ausência de números fiáveis em Portugal pois essa deve-se a motivos muito diferentes que, em parte, já foram abordados nas primeiras entradas deste blogue.

É, chegado a este ponto, que vejo os riscos tremendos que corremos ao seguir modelos que foram pensados para públicos com uma realidade socio-cultural diferente da nossa. Lembra-me o calor horroroso que os alunos da minha geração sentiam em várias escolas modelo construídas em Portugal sobre modelos arquitectónicos escandinavos concebidos para aproveitar as poucas horas de sol desses países. E no entanto esses modelos arquitectónicos tinham sido importados porque faziam parte de um dos melhores sistemas educativos do mundo - curiosamente nunca se aproveitaram as boas lições das filosofias de ensino escandinavo que defendiam o ensino "criativo" ao invés do "expositivo".

Claro que enquanto as estratégias das empresas da área do livro forem geridas por gestores e directores gerais formados com cursos também eles "gerais" de gestão (e não seguindo a recomendação da UNESCO para a criação de gestores com formação específica para as indústrias culturais) continuaremos a seguir modelos norte-americanos e a cair em erros de "casting" tremendos porque os gestores para gerir têm de ter números e os números que existem são, das duas uma, números americanos que reflectem outra realidade e outro público com outros hábitos de compra, ou números europeus que não fazem sentido nem apresentam comportamentos lógicos (e portanto previsíveis) do público precisamente porque os consumidores de produtos culturais são por natureza idiossincráticos, imprevisíveis e erráticos e o segredo, para os conhecer, é estar entre eles, é ser um deles.

Mesmo em relação ao público americano Korda admite essa realidade mas não se debruça sobre ela (provavelmente, repito, porque não lhe é possível fazê-lo dado a sua posição dentro da indústria do livro), mesmo ele admite a incerteza dos números e a imprevisibilidade dos sucessos literários. Acima de tudo, Korda admite a grande distância que vai de quem trabalha nas editoras para o leitor e apesar de tocar nesse aspecto não o problematiza, dando-o como adquirido. Nós por cá já ultrapassamos essa batalha que decorreu com o advento da literatura popular de finais do século XVIII, meados do século XIX - uma época em que praticamente não existiam sequer gráficas no território dos actuais EUA, quanto mais editoras... É preciso perceber isto, é vital termos perspectiva histórica da indústria do livro para não continuarmos a perpetuar erros.

Como em todas as indústrias com muitos anos de existência, é fundamental que quem dita as suas estratégias de crescimento ou mesmo de manutenção, saiba o que aconteceu no mercado há 50, 100, 200 anos. Esse sim, é o conhecimento que permite tornar o negócio, as suas mutações e a especificidade do seu público, categorizáveis e mais previsíveis.

2/21/2014

Nubico – O serviço de subscrição de e-books espanhol


Acaba de ser lançada em Espanha uma nova plataforma de subscrição de e-books, a Nubico, acompanhando assim a onda deste tipo de serviços que tem surgido no último ano (a Oyster e a Entitle são alguns exemplos).

A Nubico resulta da aliança entre dois gigantes da edição e das telecomunicações, o Circulo de Lectores (Planeta e Bertelsmann), e a Telefonica, respetivamente. O Circulo de Lectores já tinha o seu próprio serviço de subscrição, a Booquo, em que por € 9,99 por mês, os leitores tinham acesso ilimitado a e-books, bem como a conteúdo extra, contacto com autores, numa experiência de comunidade como um clube do livro, como é, aliás, esperado de um clube do livro.

É cada vez mais significativo o crescimento destas plataformas no mercado editorial e livreiro, embora os e-books na Europa continuem à taxa mais alta (exceto em França e no Luxemburgo que cortaram na taxa à revelia da UE), o que faz com que muitas editoras, especialmente em Portugal, com o IVA a 23%, se mostrem relutantes em entrar na onda. Só os grandes grupos terão capacidade para arriscar. A equiparação dos e-books aos livros impressos é uma discussão em curso e que requer ainda maior reflexão, pois poder-se-á comparar de facto um livro eletrónico, que oferece cada vez mais conteúdos multimédia além do conteúdo literário, a um livro encadernado?

Contudo, não se pode ignorar a expansão das plataformas de subscrição. Demorará muito até que em Portugal comecem a surgir serviços semelhantes? Os portugueses são, sem sombra de dúvida, adeptos das novas tecnologias e, portanto, a possibilidade de tal vir a acontecer a médio prazo suscitará, com certeza, um debate interessante sobre a sua real viabilidade para o nosso mercado.

Catarina Araújo

2/18/2014

5.º Encontro Livreiro


É já no final de Março, mais propriamente a 30 de Março, o último domingo desse mês, que se realiza do já habitual Encontro Livreiro.

Tal como das vezes anteriores, estamos todos convidados a nos deslocarmos à Livraria Culsete, em Setúbal, para discutir o mundo do livro, tanto na perspectiva dos livreiros como na de todos os interessados pelo livro.

 Para mais informações sigam o blogue do movimento Encontro Livreiro.

1/06/2014

A crítica não vende


1. Há uns tempos, um jovem crítico já não tão jovem mas que é crítico desde jovem disse uma daquelas frases engraçadas que os jovens críticos dizem e que têm graça enquanto são jovens mas já não tanta quando são ex-jovens: «A crítica não vende.» Se tivesse um pim! a seguir poderia ser uma almadanegreirada, e bem gira, dita assim parece lapalissada mas nem isso é: é nada. E, embora o crítico Pedro Mexia seja uma pessoa inteligente q.b. e etc., e também poeta e ficcionista e dramaturgo com obra publicada, a frase é penosa. Passa por sensata, por boutade, por evidência, mas não é: é infeliz, e tanto mais infeliz quando vem de uma figura tão mediática como o Pedro. Ah, o que eu sonhei vir um dia acusar alguém deste terrível crime, o mediatismo – eu, que durante anos a fio fui acusado e penalizado «dans les salons» por padecer dele. O Pedro toca actualmente tanto quanto sei – da forma mais importante, a paga – os três navios almirantes da indústria mediática, TVI, Expresso, TSF. Esta frase disse-a ele no simpático mas menos escutado Canal Q, mas suspeito que a terá repetido alhures.

Fiquei banzado. «A crítica não vende»? Bem sei que a expressão pode ser tida como mero exagero. Uma outra forma de dizer «vende pouco». Mas entre «pouco» e «nada» vai um abismo. O abismo do desinvestimento, da desresponsabilização, do encolher de ombros. Se o sentido fosse (não era) o de «vender pouco», o mesmo poderá ser dito da colocação do livro em livrarias alternativas ao Continente, de entrevistas na rádio, de anúncios no JL, etc.

Ora a pergunta é: então o que vende será… o leitor não saber sequer que o livro existe? Não haver crítica ou qualquer outro tipo de recepção fará com que os leitores potenciais cheguem mais depressa (mais depressa e em força) ao livro?

2. Há anos, um editor disse-me com ar petulante: «Não acredito em lançamentos.» Hoje uso amiúde essa frase de Rui Pena Pires, da Celta, como exemplo de boutade errada. Uma pessoa sensata não acredita em lançamentos como única forma de atrair leitores. Mas…não lançar será melhor do que lançar? Pessoalmente, também eu não acredito em lançamentos – quando o investimento é superior ao benefício. Uma apresentação no Lux sem imprensa é dinheiro deitado ao Tejo. Mas, por exemplo, no caso da poesia ou das edições de autor, o lançamento é quase a única oportunidade de congregar leitores, além de uma forma barata de explicar aos amigos que eles é que devem comprar, não o autor e/ou editor a oferecer!

3. no passado 27 de Dezembro o crítico Eduardo Pitta postou no Facebook a recensão que fez na revista Sábado a um livro de um poeta que desconhecia e agora, graças ao post, já não desconheço. De Porfírio Silva diz Pitta que é «o melhor livro de poesia» que leu em 2013. Logo começou uma mini-polémica, e bem simpática, acerca da escolha, se era boa, se era má, então e o Herberto, etc., e assim por diante. O livro foi, literalmente, colocado no mapa. Algumas pessoas disseram «vou comprar». Os cínicos dirão: «Sim, agora prometem, depois esquecem.» Mas isso acontece com tudo, inclusive os bilhetes que fiquei de arranjar aos meus filhos para o Wrestling no ex-Pavilhão ex-público ex-Atlântico! O facto é: graças à crítica de Eduardo Pitta – e à sua reprodução no Facebook, aqui agora com bonita polémica, coisa de que a cofínica Sábado está isenta – um livro que literalmente provavelmente quase de certezamente ia ser aniquilado no «mercado» tem agora algumas chances de sobreviver. E nasceu um poeta. Parece ser um senhor já de meia-idade mas, para «le petit monde littéraire», nasceu.

Se isto não é vender, onde é que está a vossa venda, senhores?

Ah, já sei: nos olhos, cabeça a minha. E na má consciência, extintos que estão quase, mais ainda que os dinossáurios, os grilos falantes.

Rui Zink

12/03/2013

Morreu André Schiffrin


Morreu ontem um dos mais importantes pensadores da edição moderna, André Schiffrin.

Filho de um famoso editor e ele mesmo também editor por mais de 50 anos, foi também autor de obras tão importantes como «O Negócio dos Livros», e «A Edição sem Editores».

Sempre ligado aos movimentos socialistas americanos, tornou-se num dos mais contundentes críticos do resultado do processo de concentração editorial, em particular pela forma como os objetivos das novas estruturas empresariais não se coadunavam com o funcionamento do negócio do livro.

Para saber mais o melhor não é ir à wikipédia, mas sim ler as suas obras, algumas delas disponíveis em Portugal, em particular a recente edição de uma das suas obras fundamentais, pela Letra Livre.

11/29/2013

Dia dos Livreiros

É só para recordar que amanhã é o Dia dos Livreiros.

Não só deverão aproveitar todas as acções que irão decorrer nas livrarias participantes, onde destaco a Culsete, em Setúbal, como fazer deste o dia principal para começarem a pensar nas prendas de Natal.

E sim, há livrarias, e muito boas, para além da publicidade da Bertrand.

Entretanto, sigam os textos que estão a ser publicados diariamente no Orgia Literária, dedicado ao livreiros e às livrarias.

NSL

11/20/2013

Torres de Leitura


Há muito que as escolas se tornaram elementos fundamentais na promoção da leitura nas mais diversas vertentes. E são já muitas as escolas que fazem convite a autores para participarem em «conversas» e «leituras» das suas obras, que organizam feiras do livro e outras atividades que promovem a compra e leitura de livros, mas desta vez, em Torres Vedras, vemos uma iniciativa que dá uma passo mais ambicioso e promove um evento de uma semana em torno da leitura.

As Torres de Leitura irão realizar-se de 25 a 30 de Novembro na Escola Secundária Henriques Nogueira, em Torres Vedras. Durante uma semana a escola e comunidade local vão viver em torno dos livros, dos seus autores e de todas as leituras que eles nos ensinam a fazer. Apresentações, conversas, teatro, e a presença de gente da escrita, da banda desenhada, das artes plásticas, do graffiti, do desporto e do cinema, e onde haverá também exposições e muita, muita animação.

Esta é uma iniciativa de João Morales e da Livrododia, e do Agrupamento de Escolas Henriques Nogueira.