8/08/2015

Quem corre por gosto... merece ser rasteirado.



Um dos problemas das sociedades mediterrânicas modernas e cujas origens não cumpre aqui averiguar, está na carga negativa que damos ao trabalho, ao rigor e à disciplina. Com efeito e ao contrário das sociedades protestantes, atribuímos ao trabalho uma carga de castigo que está patente, por exemplo, quando se vê uma pessoa a falar com uma criança "E já andas na escola? Coitadinho...". Bem como o habitual: "se me sair o euromilhões nunca mais faço nada."

Mais do que qualquer coisa, esta posição cultural está na base da nossa falta de produtividade.

Mas do que eu queria falar é de como essa forma de ver o mundo aliada a uma típica falta de cultura que desemboca numa inveja agressiva resulta quando se é confrontado com alguém que trabalha numa indústria cultural.

"Ah mas tu fazes aquilo de que gostas, não te queixes."

Quem trabalha nas áreas criativas sabe perfeitamente que é visto assim e que é essa postura que dita situações clássicas como os típicos atrasos nos pagamentos, incumprimento das condições acordadas, etc. Afinal nós, "os criativos", somos artistas e os artistas comem a sua arte ("ainda por cima os sacanas têm prazer em fazer o que fazem, mas hão-de lhes morder hão...").

Faz-me lembrar uma história passada por Michael Korda num livro que neste blogue recenseei. Resumindo a história com a preguiça de confirmar nomes e dadas de um Sábado de Agosto, um multimilionário comprou uma grande editora clássica norte-americana incorporando-a no seu império de multimédia, indústria e muito mais.

Passado uns meses o dito milionário visita pela primeira vez a editora e é recebido pelo director geral numa sala de reuniões que abre numa vista panorâmica para os corredores onde trabalham os assistentes editoriais na leitura de obras, sua revisão e anotação.

Enquanto o director geral vai descrevendo os sucessos da editora repara que o milionário está cada vez mais nervoso e irritadiço. Em vez dos sucessos editoriais e prémios, decide mudar o seu discurso e falar do crescimento financeiro da editora mas o milionário não dá sinais de acalmar, pelo contrário, mexe-se na cadeira, olha para todos os lados bufa...

O director geral começa a ficar também ele nervoso e fala dos planos de crescimento, das possibilidades de articulação com outras empresas da corporação sem sucesso: o milionário passa por várias cores e de repente levanta-se e abre a porta berrando para o corredor dos assistentes "Quando é que param de ler e começam a trabalhar????".

Outro dos clássicos para este tipo de situação é o famoso anúncio e resposta aqui reproduzidos.

Engraçado nesta situação é que não era bem sobre isto que eu queria escrever.

Quero hoje escrever sobre o tempo enquanto necessidade fundamental para um trabalho importante na área do livro. Recebo centenas de newsletters de editoras e livrarias pequenas e grandes um pouco de todo o mundo e um factor comum, então nesta época de Verão, é verificar como as newsletters chegam com recensões e recomendações de grande qualidade.

Das editoras chegam as sugestões de toda a equipe, dos editores aos comerciais, dos financeiros aos empregados da limpeza. nas livrarias todos os livreiros fazem as suas sugestões.

Lá fora, sobretudo no meio anglófono parece que já se acordou para essa noção de orgulho no trabalho e para a noção de quem trabalha na área dos livros, seja directa ou indirectamente, deve ter interesse directo no produto.

Nós por cá com a nossa notável capacidade de planear trabalho, de organizar empresas, de estrategicamente as projectar no futuro, temos outro ponto de vista. As editoras contratam assistentes editoriais que, o destino assim o dita, se não desistirem pelo caminho, serão os editores de amanhã mas não os formamos como leitores. Um assistente editorial é um escravo sem horários que leva pilhas de trabalho para casa. Tem ele tempo para sequer se inteirar do que se passa no mundo da edição, ler o que "está a dar" na sua área de trabalho, ganhar cultura geral, acumular leituras que lhe permitam mais adiante ser um editor de sucesso? Já não falo sequer de tempo para irem às livrarias ouvir o que os leitores comentam sobre os livros, perceber porque escolhem o título X e não o Y, porque preferem uma capa e não outra...

Para já não dizer que dentro de empresas de dimensão média para grande é entendido que o editor (quanto mais o assistente editorial) não tem nada que saber esse tipo de coisas uma vez que é "criativo", do mercado sabem os comerciais e os directores de marca (que curiosamente raramente lêem e quando o fazem, não é por prazer mas por obrigação).

Depois editores e assistentes apresentam os seus planos editoriais que são decididos pelos financeiros em função de dados que os primeiros não têm como recolher e os segundos não sabem interpretar.

Mas alguém na cúpula acha que assim é que se corrige o problema que as editoras sempre tiveram e "por isso não davam lucro". Nunca lhes ocorreu que a os públicos culturais são voláteis e que os únicos que são fidelizáveis são aqueles cujos números não importam aos financeiros porque não pesam o suficiente para serem significativos.

É também por esse motivo que uma qualquer grande editora não contempla oferecer os seus livros aos seus funcionários que, gostando de livros, seriam certamente os seus maiores promotores. Numa das editoras onde trabalhei achou-se que não fazia sentido oferecer livros a tradutores e revisores. Não se percebe que um profissional que tenha trabalhado num livro tem orgulho na obra para a qual contribuiu e que a recomendará. não se percebe que num meio pequeno como é o dos leitores em Portugal todos se conhecem uns aos outros e os círculos de influência se intersectam. Os amigos de um tradutor são geralmente gente que gosta de livros.

Em várias editoras de grande dimensão, se um funcionário pretende comprar um livro e se procura inteirar sobre condições para o fazer parece que caiu um meteorito. Que coisa inaudita!! Um funcionário que quer ler um livro nosso? Estabelece-se uma política à pressa e que passa pelo "vamos é aproveitar para vender e ganhar mais uns cobres". Faz-se ao funcionário um desconto ligeiro e o funcionário fica a pensar "Bando de fuinhas, fazem descontos comerciais às livrarias muitas vezes acima dos 50% e a mim apenas isto!?"

O que custa em tudo isto é o retorcido dos processos mentais que estão por trás de cada acção ou inacção, de cada medida ou decisão.

"Como é que se pode lidar com esta gente estranha que gosta do que faz? Que mandriam o dia todo enquanto nós estamos para aqui a fazer contas que detestamos. Ainda por cima os patós acham que fazemos bons livros..."

Numa indústria que funciona assim não se percebe que um assistente editorial ou um livreiro serão muito melhores profissionais se tiverem tempo para ler, por exemplo.

Este diálogo de surdos não vai ter respostas e nunca resultará em sucesso porque o latino é vingativo e uma situação de desequilíbrio dá lugar a feudos de proporções sicilianas.

Nenhuma das facções vai alguma vez estar satisfeita. Nenhuma fará concessões à outra.

Quem compra livros por gosto (a maior parte das compras fora do segmento escolar) seja esse gosto directo - "eu gosto deste livro" - ou indirecto - "eu gosto de economia e portanto compro um livro sobre a área" - ; tem de ser atendido ou fornecido por quem percebe de gostos. Um editor tem que saber fazer livros mas acima de tudo tem de saber fazer os livros que vão interessar a um determinado segmento, isso implica conhecer esse segmento (seja ele de 500 leitores, 50 ou 500.000). Um editor tem de ser um especialista nos hábitos e gostos do seu público.

Isso cultiva-se cultivando os gostos pessoais e interagindo com as comunidades de leitores. Não se desenvolve num escritório analisando números num excel.

As indústrias culturais são indústrias do gosto e do hedonismo. directo ou muito indirecto. Enquanto as indústrias culturais entre nós não perceberem isso (e não há sinais de que o venham a perceber) os públicos vão continuar a desaparecer e o futuro vai ser negro pela ausência de mercado e a incapacidade de formação contemporânea dos futuros agentes do sector.

Como será possível explicar a um gestor ou financeiro que detesta o seu trabalho e o seu produto e inveja os subordinados que fazem o que gostam, que a estratégia de uma indústria cultural tem de passar por processos formativos de públicos muitas vezes com sacrifícios financeiros que resultarão em sucessos futuros.

Há um conjunto de modelos de negócio no universo anglo-germanófilo nas áreas culturais e em particular na área do livro que têm ditado mudanças muito interessantes em tempos recentes e que passam precisamente por essa percepção. Há pouco menos de um mês um dos anúncios do Publishers Weekly era para um director financeiro e estratégico de um dos maiores grupos mundiais e uma característica sine qua non requerida era paixão por livros e leitura.

Nós por cá estamos a séculos de distância disto.

No entanto em 1976 a UNESCO definia a figura do gestor cultural e os atributos de tal função recomendando formação específica para estes no objectivo de salvaguardar as indústrias culturais no nosso mundo em mudança.

Da mesma forma como no mundo das indústrias culturais nem tudo é o gosto (embora o essencial seja) e o prazer, também não se pode reduzir tudo ao prisma eco-financeiro.

Economicamente isto é um paradoxo de utilidade: quer então dizer que em áreas que dão sempre pouco dinheiro é que precisamos de colocar os nossos directores mais habilitados e polivalentes?? Ai isso é que não, e se eles começam a gostar do trabalho, os sacanas?



5/10/2015

Recensão: A tradução para edição

Almeida e Pinho, Jorge, A tradução para edição - Viagem ao mundo de tradutores e editores em Portugal (1974-2009), Universidade do Porto, Porto, 2014


Uma das vantagens em ter compilado a Bibliografia sobre edição e negócio do livro é ter ficado com uma noção muito precisa da exiguidade do que se produz em termos documentais nessa área no nosso país. Daí que, quando aparece um qualquer contributo adicional para esta bibliografia, ache que merece a melhor atenção de todos quantos estamos neste sector.

Jorge Almeida e Pinho é tradutor e revisor técnico e docente do ensino superior também na área de tradução. Tem já outros livros dedicados a esta área no que será dos poucos em Portugal a dedicar-se ao estudo da Tradução no meio editorial.

Do meu lado, enquanto editor mas sobretudo enquanto profissional integrado no sector editorial/livreiro, tenho vindo a advogar ao longo dos anos que um dos males do sector (entre outros obviamente) é o desconhecimento que os vários agentes do sector têm do trabalho e dificuldades uns dos outros. Daí também que toda a informação que se possa recolher sobre determinado subsector da área do livro e da Edição deva ser de consumo obrigatório para todos quantos fazem do livro a sua vida.

Deixadas as notas introdutórios, passemos ao livro: a obra está dividida em quatro partes.

A primeira parte da obra pretende desenhar o trajecto da edição face à evolução sociocultural do país com especial incidência no período coberto pela obra.

A segunda parte é uma síntese da evolução e principais conceitos e metodologias dos Estudos de Tradução numa perspectiva internacional.

A terceira parte consiste numa análise dos resultados do Inquérito por Questionário sobre Tradução levado a cabo durante o ano de 2008. 

A quarta e última parte é um estudo de caso centrado na editora Campo das Letras.

A soma das partes traz muito poucos dados novos à equação do processo editorial mas confirma alguns mitos e traz a público, pela primeira vez, alguma espécie de suporte documental.

Ao longo de toda a obra Jorge Almeida e Pinho foca a sua argumentação em dois vectores principais: 

- A necessidade da mais e melhor especialização dos tradutores passar por formação a) interna das editoras e/ou b) da Universidade (em parceria ou de forma protocolar com as editoras)
   
- A forma de remuneração dos tradutores que, segundo o autor, é contrária ao espírito da lei

Muitas vezes este livro peca por um factor inevitável: é demasiado "universitário" e portanto científico na análise que faz do sector. Um leitor conhecedor das dinâmicas do sector fica com a clara noção de que uma abordagem mais personalizada centrada mais em conversas com editores e outros agentes do sector poderia ser mais benéfica no traçar do retrato da situação da tradução dentro do meio editorial. Por outro lado creio que falta a este livro para poder atingir outra dimensão, ter auscultado os tradutores. Tenho algumas, para não dizer muitas dúvidas, que uma generalidade dos tradutores se revejam nalguns dos pontos que o livro levanta mesmo a nível factual. Ainda assim, reitero, sendo este livro derivado de uma investigação universitária, estes pontos são inevitáveis por mais que limitem a informação.

Do mesmo modo a primeira parte do livro em que é feita uma análise comparativa da evolução sociocultural do país e da evolução do mundo editorial sofre os efeitos da inexistência de bibliografia especializada sobre o sector da edição e omite de forma quase total a própria evolução da profissão de tradutor que sofreu diversas alterações ao longo do século XX. Aqui faltou claramente um conjunto de entrevistas com tradutores com actividade de longas décadas. Essa seria a única possibilidade para colmatar informação que não está reunida em mais nenhum tipo de documento. Da mesma forma a evolução do meio editorial é tratada demasiado pela rama (ainda assim, friso, a rama possível dada a ausência de bibliografia especializada).

O rigor científico desta obra atinge o seu pináculo na suma das teorias e metodologias dos Estudos de Tradução que enformam a segunda parte do livro. Bastante completo e informativo, este capítulo dá várias bases científicas para o que será a análise que seguirá nas duas partes sequentes do livro.

A terceira parte da obra é o resultado do inquérito feito às editoras em 2008. Das 123 casas editoras contactadas, 36 responderam (eu respondi pela Cavalo de Ferro). Dessas 36, 11 informaram que pelos mais diversos motivos não responderiam ao questionário. Assim das 123 casas editoras identificadas, 25 responderam efectivamente ao inquérito. Este universo é muito reduzido para daí se extrapolar o retrato geral do sector mas, em boa verdade, é melhor do que nada.

Dos dados recolhidos, nenhum me surpreende mas acho particularmente interessante um tipo de respostas que revela a que ponto estão enraizadas determinadas "mentiras diplomáticas" no nosso sector. (O que não me surpreende tendo falado com alguns dos inquiridores do mais recente estudo sobre hábitos de leitura dos portugueses levado a cabo pelo Observatório das Actividades Culturais, que me referiam que tinham a certeza que vários dos inquiridos admitiam ler livros meramente porque "pareceria" mal não o fazerem e isto independentemente do inquérito ser anónimo. é uma questão de modelo mental latino.) 

Questões como as motivações das casas editoras que levavam à escolha de um determinado tradutor e a relevância que nelas assume a questão das aceitação das condições contratuais é um claro exemplo da mentira diplomática. Não que esse seja um factor contornável. Esta análise deve cientificamente ater-se à sua limitação. Mas aqui, como em alguns outros pontos, a existência de uma contra-perspectiva que partisse de conversas com tradutores (ou na pior das hipóteses, de um inquérito aos mesmos) teria sido útil.

Facto indesmentível mas que não faz sentido numa obra que pretende ser um estudo científico e que evita sempre a entrevista e conversa com os agentes do sector precisamente para evidenciar a sua "cientificidade" é a constante referência do que os editores admitem "à boca pequena" sobre a falta de qualidade/formação dos tradutores. na minha leitura não percebi que esta informação viesse de alguma resposta ao inquérito - aliás é um ponto recorrente ao longo da obra. Realço apenas a sua presença incongruente, não a sua veracidade.

Já o escrevi antes e disse-o em vários lugares: uma grande maioria dos tradutores que se apresentam para fazer tradução literária não têm qualidade para o fazer. (note-se que uso a expressão "grande maioria" e não "totalidade"). Como o autor deste livro refere amiúde, o trabalho do tradutor é um trabalho de criação literária (daí ele advogar um determinado método de pagamento da tradução), esse tipo de talento literário advém, digo-o pela minha experiência, de muitas leituras literárias. O tradutor que lê nas suas línguas de trabalho boa literatura em quantidade, geralmente atinge um nível de naturalidade no tratamento do texto literário que permite a sua adaptabilidade ao mesmo enquanto vaso condutor. E isto está para lá de qualquer formação (que não deixa de ter a sua importância mas que forma de modo meramente científico não treinado a sensibilidade literária).

Ainda nesta terceira parte do livro há alguns dados de relevância para um retrato do sector mas fica sempre a dúvida sobre a efectiva representatividade que as 25 editoras possam ter relativamente às 123 editoras em actividade reconhecidas pelo estudo. Na minha opinião a maior parte dos dados corresponde ao que conheci do meio até 2008. de lá para cá e devido à crise económica e à chegada de editoras de grande porte com outras filosofias de trabalho e de mercado - muitas delas (as filosofias, entenda-se) decorrentes da crise ou da adaptação de modelos de gestão corporativista americana.

Surpreendente para o autor (e para mim) a relevância que é dada pelas editoras a exigências do autor original sobre aspectos da tradução. Já tive vários autores que interferiram com capas e mesmo assim são uma minoria, agora autores nativos de outras línguas que intervenham no processo de tradução... são novidade.

O Estudo de caso que constitui a quarta parte da obra não surpreenderá ninguém que trabalhe no meio editorial há algum tempo. Será muito provavelmente a parte menos importante e interessante deste livro.

Ficam algumas questões inquietantes decorrentes de dados levantados entre a parte 3 e a parte 4 no que toca a exigências de adaptação da obra traduzida a posições ideológicas da editora (ponto reforçado na conclusão). Para além de me parecer uma questão grave e interessante, mais uma vez seria importante aqui o testemunho dos tradutores. Foi provavelmente um dos pontos mais surpreendentes da obra e espero que mereça melhor atenção em futuras investigações do autor.

No que toca à primeira das duas linhas condutoras da obra presentes ao longo do texto, o autor frisa várias vezes ao longo do texto a necessidade de maior e melhor formação dos tradutores. No que toca a formação interna das editoras para os tradutores não me parece viável dada a natureza intrínseca do perfil empresarial da editora nacional e da sua capacidade humana e económica (que o autor, aliás, muito bem descreve); já no que toca a parcerias/protocolos entre as editoras e a instituição universitária, sendo bem mais viável, ainda assim limita-se em termos potenciais ao um leque muito reduzido das editoras de grande dimensão. Imagino que possa ser bastante importante sobretudo para o livro técnico mas aquilo que verifico nas análises a testes de tradução literária que fiz ao longo dos anos não é a ausência de ferramentas ou conhecimentos técnicos, é a falta de leitura. Isso verifica-se no baixo nível de vocabulário português e na falta de sensibilidade no que concerne a sensibilidade literária. Outro dos problemas recorrentes nos testes de tradução (e que, mais uma vez, só se resolvem com muita leitura) é o desconhecimento dos correspondentes epocais. É muito difícil encontrar um tradutor capaz de verter um texto de outras épocas para uma linguagem que tem de ser o equivalente português do vocabulário dessa época.

Isso requer sensibilidade literária mas também boa cultura e muitas leituras. Dou-vos um exemplo: há uns anos fiz a tradução de um texto de Mark Twain (Excertos dos diários de Adão e Eva). O mais complicado dessa tradução foi acertar no vocabulário e tipo de linguagem a utilizar pois sendo os textos originais do começo do século XX (1904 e 1905) o correspondente em termos de linguagem e vocabulário está muito mais próximo do empregue pelos humoristas portugueses nos finais dos anos 20 e anos 30. E isso requereu leituras de André Brun, Eduardo Schwalbach, Albino Forjaz de Sampaio e outros e isto só foi possível porque eu tenho um conhecimento da literatura portuguesa ao longo dos vários momentos do século XIX e XX que me permitiram perceber qual o melhor correspondente. este tipo de conhecimento, vital para a tradução literária, não se adquire na academia.

O outro factor onde a formação não intervém mas que é essencial para a tradução literária é a naturalidade do coloquialismo literário. O diálogo em literatura é uma forma de representar (fiel ou propositadamente não fielmente o diálogo falado mas a passagem do falado para o escrito tem grandes especificidades e cria uma naturalidade de discurso que não é a mesma de língua para língua. Uma boa parte dos testes de tradução que fiz ao longo dos anos resultou na rejeição dos tradutores por incapacidade de fazer esta transposição que, para um tradutor com muitas leituras nos seus vários idiomas de trabalho acontece de forma quase natural.

Muitos outros testes de tradução foram rejeitados por motivos que, esses sim, podem e devem er trabalhados ao longo do sistema de ensino e formação: falta de cuidados na apresentação, falta de cuidados na reprodução gráfica da tradução face ao original, ausência de investigação que leva a erros de palmatória, péssimo nível de vocabulário português e conhecimento sintáctico, etc etc...
 
Antes de partir para uma questão final, a da forma de remuneração do trabalho de tradução, fazendo desde já um resumo do livro que agora se analisou, diria que é uma obra de importância pela abrangência de perspectiva em torno do sector da tradução, tão pouco abordado e estudado entre nós. Enquanto obra universitária cumpre dentro das limitações documentais as suas funções embora, no meio de tanta informação cientificamente comprovada e comprovável, admita como informação fidedigna alguns rumores e bocas que, sendo verdadeiros, não parecem ter uma fonte concreta indicada de forma científica.

A análise que a obra faz do sector da tradução recolhe dados do lado das casas editoras mas não do lado dos tradutores o que me parece uma pecha tremenda porque acho que consolidaria alguma informação e traria alguma discussão a outros pontos.

No compto geral esta obra é informativa e útil em muitos aspectos para quem queira conhecer a vertente em causado sector e do processo de edição. Em boa hora surge, aliás, agora que o mercado e o processo editorial sofre algumas alterações importantes e seria/será necessária uma reflexão do sector sobre as suas chances de sobrevivência.

APÊNDICE A ESTA RECENSÃO

Para discussão final e porque é um ponto que me incomoda verdadeiramente e com o qual de forma absoluta não concordo com o autor: a questão da forma de remuneração do trabalho de tradução.

Esta é, como indiquei no começo, uma das duas linhas condutoras da obra para o autor. As referências a esta questão aparecem um pouco por todo o livro.

O autor acusa recorrentemente as editoras de não cumprirem o espírito da lei (e portanto e inerentemente de ilegalidade). A sua posição é de que, de acordo com a lei, os tradutores deveriam ser pagos em direitos de autor (como os autores, através de uma percentagem sobre o valor de capa do livro vendido).

Admito que esta forma é, efectivamente, a norma de lei - aliás cito o artigo 172º do código de direitos de autor que o autor cita: "2 - salvo convenção em contrário, o contrato celebrado entre editor e tradutor não implica cedência nem transmissão, temporária ou permanente, a favor daquele, dos direitos deste sobre a sua tradução." 

Acontece que, ao contrário do autor, eu leio "salvo convenção em contrário" que parece ter escapado ao autor. esta pequena ressalva permite o modelo de contrato norma no mercado português e permite que continuemos a ter traduções e tradutores em Portugal.

O que Jorge Almeida e Pinho não parece perceber é a real dimensão do mercado e os números efectivos de vendas de livros (antes e depois da crise). 

Eu tenho a certeza que não conseguiria um único tradutor se lhe oferecesse um contrato de tradução nos termos em que JAeP advoga. Que tradutor nacional aceitaria ser remunerado como um autor nacional recebendo um ano depois da publicação da obra uma percentagem do preço de capa dos livros vendidos pela editora? Ainda para mais sabendo-se bem quais as vendas de livros traduzidos. 

Se a situação preconizada por JAeP fosse norma, em Portugal apenas teríamos tradutores para best-sellers. Façamos um exercício: uma editora procura um tradutor para fazer uma tradução literária complexa, digamos uma obra de um autor de qualidade premiado internacionalmente como Juan Carlos Onetti ou um prémio Nobel como Isaac Bashevis Singer, por mero exemplo, essa obra estima-se que tenha, umas 200 páginas com 2000 caracteres por página. Assim e considerando que dado as páginas de começo e final do livro e finais de capítulo o número efectivo de páginas de texto será de umas 175 páginas, considerando um pagamento norma de  8 € por cada 1800 caractéres incluíndo espaços, o tradutor receberia 1555 €. 

No modelo defendido por JAeP um tradutor receberia um ano após a publicação do livro (como o autor caso esteja ainda em domínio privado) uma percentagem de digamos 3% (considerando que um autor estrangeiro recebe em média 8% e um autor nacional 10%) sobre vendas efectivas do livro (não sobre colocações) que para um destes autores ronderá os 500 a 900 exemplares vendidos - fiquemo-nos por uns 750 a um preço de capa de 15 €. Assim o tradutor receberá 337, 5 €. Ora como também sabemos o mercado neste momento não trabalha reposições pelo que todo o título que não seja vendido volta para armazém e provavelmente não volta à livraria (muitas vezes mesmo quando há encomendas pois o lucro de um fundo de catálogo não compensa o esforço da encomenda e a política de muitas cadeiras livreiras é indicar que "está esgotado").

Ainda assim digamos que o livro mantém algumas vendas ocasionais e atinge nos 3 a 5 anos seguintes à sua publicação vendas da ordem dos 1000 exemplares. Nesse casoe  diluído pelos anos seguintes ao primeiro ano de publicação em que recebeu o referente às vendas de 750 exemplares, o tradutor receberá ainda a verba de 112,5 €.

Com esta realidade que tradutor quererá traduzir boa literatura? Não tenho dúvidas que os tradutores quererão traduzir Harry Potter, ou "O segredo", ou Nora Roberts, mas fora estas e algumas outras excepções, mesmo muita literatura comercial ficaria sem tradução.

Ainda assim e se existirem tradutores dispostos a trabalhar neste regime, são a alegria de muitos editores que podem baixar os preços de capa dos livros pois baixam o segundo maior custo na produção de um livro após a impressão e acabamento.

O que muitos agentes do sector parecem não ter ainda percebido apesar de se movimentarem neste meio há alguns anos, por vezes até décadas, é que não há número suficiente de leitores para justificar a dimensão da indústria de edição que temos. Que o nosso mercado deveria ser regrado de forma muito mais apertada e efectiva por um qualquer órgão de controlo e fiscalização (ou pelo menos por um sistema de autocontrolo como o que já sugeri em tempos à Secretaria de Estado da Cultura). E que todos os agentes do sector deveriam estar empenhados na criação de políticas de angariação de novos leitores. neste momento a grande questão é se o sector editorial sobrevive nos próximos 5 a 10 anos. 

A crise afastou a grande maioria dos denominados públicos flutantes e conduziu o mercado à sua real dimensão. As estatísticas continuam, por interesse das editoras (ainda que mal orientado) e dos restantes agentes do sector (por motivos parvos e inadequados), a ser forjadas e irreais.

Era muito importante que se criasse um curso de economia para o sector específico do livro. falta muita capacidade de fazer contas e faltam fontes fidedignas de números de um sector que parece empenhado em maquilhar-se constantemente para uma qualquer e hipotética festa que não vai acontecer.

12/20/2014

A grande transformação das livrarias


O relatório não é novo. Data de Outubro de 2013. Mas só há pouco chegou ao meu conhecimento, por via de relato da conferência "A livraria como rede social sem algoritmos: políticas públicas de apoio", proferida por Joaquín Rodriguez e Manuel Gil, no passado dia 1 de Dezembro, na Feira Internacional do Livro de Guadalajara. Conforme resumem os conferencistas:
La tesis principal de la exposición era la de señalar la situación de deterioro generalizado en que se encuentran las librerías en el mundo, por lo que compartimos los datos de situación de las librerías en Europa (y específicamente de España), y las políticas públicas de apoyo que se están poniendo en marcha en sus respectivos ámbitos. 
El diagnóstico del que partíamos se basaba en la consideración de que mucho antes de que estallara la crisis que ha asolado el mundo del libro en España ya existían indicadores negativos de la situación que permitían prever cómo la cadena de valor predigital, la cadena de valor analógica tradicional, comenzaba a desintegrarse. 
La idea de desarrollar políticas públicas de apoyo a la librería (mediante el desarrollo de sellos de calidad, beneficios fiscales y apoyo financiero directo, además de la defensa contra las iniciativas multinacionales que amenazan con convertirse en monopolios de hecho), parte de la convicción de la necesidad de garantizar el acceso a los lectores a la enorme riqueza bibliográfica de nuestro país, de preservar la diversidad de la oferta cultural mediante el mantenimiento de una red que la comercialice y distribuya, de avanzar en un rediseño y reingeniería de estos espacios para encontrar nuevos mix, nuevos modelos de negocio que permitan reflotarlas, adaptarlas a una nueva cadena de valor en la que tienen que encontrar su sitio y su función. 
Una idea que propusimos fue la de poner en marcha un Pacto Nacional por el Libro que incluya no sólo a los agentes de la cadena de valor, sino también a lectores y bibliotecarios, todo ello auspiciado por unas administraciones públicas sensibles con el devenir de una industria en serias dificultades en el momento actual, y con unas expectativas sombrías de futuro. 
A buen seguro entendemos posible abrir un debate y una reflexión colectiva sobre el asunto. Consideramos que promover una cierta complicidad con la situación de las librerías y los libreros forma parte de una actitud de renovación y de protección del sector, algo que está entre las preocupaciones más acuciantes del Cerlalc por impulsar políticas públicas de apoyo a la librería en Iberoamérica, algunas de cuyas líneas ya están definidas en la Nueva agenda del Libro y la Lecturay  que serán desarrolladas en un plan específico en los próximos meses
E nós por cá? Como vamos de políticas públicas? Porque é que não passamos das críticas ao "sistema" para o reforço do "associativismo editorial e livreiro"? Por que não se avança para um tipo de "pacto" conforme foi proposto em 15 de Setembro, na apresentação do estudo sobre o Comércio Livreiro em Portugal?

Se não passamos das palavras aos actos...

Rui Beja
 

12/13/2014

As soluções positivas e as soluções negativas: a APEL e a Agência Nacional de ISBN

Recentemente a APEL (Associação Portuguesa de Editores e Livreiros) emitiu um comunicado em que informa que, devido ao retirar do apoio da secretaria de Estado da Cultura que "nos últimos anos, tem subsidiado uma parte dos custos operacionais da agência e tem permitido manter este serviço público gratuito", não tem outra solução que não seja cobrar o serviço e avança com a proposta que todos poderão consultar abaixo:


Nesta proposta há vários pontos que me intrigam. O primeiro é o claro abuso relativamente aos pequenos e médios editores. Se um editor associado da APEL que, digamos, pede 50 ISBNs por ano vai pagar um aumento de 10% na quota de associado, como poderá sentir-se face a um grande editor que pede mais de 500 ou 1000 ISBNs e vê a sua quota aumentada nos mesmos 10%. Esta é uma solução negativa e poderia ser resolvida por um aumento percentual da quota relativamente a chancelas activas, o que permitiria de imediato distinguir os pequenos dos grandes editores.

Para os não-sócios a tabela de preços está patente e considerando o número global de livros publicados anualmente em Portugal, quer os que encontramos nas livrarias quer os que raramente lá chegam como as publicações Universitárias, de organismos públicos, várias publicações periódicas, separatas e folhetos de alguma dimensão, e se calcularmos que cada ISBN "custa" em média (deduzo-o pela tabela) 10 €, estamos a falar de valores muito significativos (claramente acima dos 400.000 €).

A ideia do desconto por quantidade de ISBNs pedidos é também interessante, estamos a falar de aplicação de uma política comercial dentro de uma agência nacional! (Algo como dizer que quem tem muitos rendimentos pode pagar percentualmente menos impostos.) E mais uma vez e para usar uma expressão cunhada em discurso culto e oficial pelo nosso Primeiro-Ministro, "quem se lixa é o mexilhão". O pequeno editor que paga mais por pedir menos ISBNs como se um ISBN fosse um produto lucrativo (que parece efectivamente ser, para alguém).

Acresce a isso a estranha questão do que é, fora do âmbito dos associados da APEL, um editor profissional ou um editor não-profissional. Pano para muitas mangas de discussão.

Permitam-me então apresentar uma ideia um bocadito mais interessante, creio eu.

Imagine-se que com metade do valor global que se espera arrecadar para cobrir parte dos custos operacionais, se investe no desenvolvimento de uma aplicação que funciona a partir do site da internet da APEL - como já é o caso.

Quem quer que queira pedir um ISBN tem de se inscrever nesse site dando os dados da sua empresa ou os seus pessoais em caso de edições de autor.

Digamos que para obter o ISBN tem de preencher um X número de dados informativos obrigatórios sobre o livro em causa (o que fará com que, pela primeira vez na história do ISBN em Portugal, haja informação efectiva sobre os livros permitindo a elaboração de índices e garantindo dados fiáveis de mercado sobre a tipificação dos livros e publicações já que antes raro era o editor que preenchia a ficha de informação adicional). E claro que o gerar do ISBN é feito automaticamente através do software disponibilizado gratuitamente pela Agência Internacional de ISBN.

Com isso poupa-se o ordenado de quem na Agência Nacional de ISBN faz o tratamento de dados, sendo apenas necessário um supervisor que verifique se um qualquer editor preguiçoso não decidiu preencher como assunto do livro "Atirei o pau ao gato atirei o pau ao gato atirei o pau ao gato [e assim por diante]". Os dados são processados automaticamente e criada uma base de dados bibliográfica sem necessidade de intervenção humana.

Esse software envia, igualmente todas as fichas aprovadas pelo supervisor para as agências internacionais de ISBN e outros organismos para os quais o envio seja necessário.

(Neste ponto devo dizer que estou quase certo que há apoios europeus que podem cobrir o investimento da criação deste software ou, pelo menos de uma boa parte do mesmo.)

Ligada a essa base de dados pode estar um site de consulta pública para acesso a informação sobre os títulos publicados recentemente. E em caso de necessidade de real rentabilização, podem vender-se os dados completos de cada título às livrarias online que assim pagam mas sempre menos do que ter, do seu lado, pessoal a introduzir os dados relativos a cada livro enviados pelas editoras nos mais diversos formatos e suportes. E sendo a fonte de informação a mesma, qualquer bom programador cria um batch de importação de ficheiros que cria a ficha de produto em qualquer livraria online.

Na verdade isto implica apenas a criação de um site que pode funcionar dentro do domínio da APEL logo não implicando custos adicionais para mais ninguém.  Em termos de programação deste software, conheço muitos programadores que precisam de trabalho e a realização de uma Base de dados dinâmica como esta é algo que se faz nunca gastando mais de 15.000 € (e mesmo este valor é provavelmente exagerado). Fora isso o aluguer de servidores principais e de um servidor de back-up não custará mais de 1000 €/mês, e também este valor me parece exagerado uma vez que apenas se armazenam dados de texto.

O que mais poderá precisar uma agência nacional?, de pagar uma avença a um contabilista (250 €/mês)?, de um único funcionário cuja função seja responder a dúvidas e supervisionar a informação introduzida (certamente que se consegue alguém que não aufira um ordenado enorme, aliás nem precisa de ser um funcionário especializado, basta alguma inteligência e proficiência e com isso até se garante que a atribuição de ISBNs durante o período da Feira do Livro de Lisboa não sofra atrasos!)? A minha imaginação não me consegue descobrir muitos mais custos a não ser que a APEL cobre  à Agência Nacional de ISBN a água, luz, net, telefone, secretária e cadeira por estar a usá-los dentro das suas instalações mas essa, no meu entender, bem poderia ser a contribuição da APEL. Ainda assim contemple-se um valor para imponderáveis na ordem dos 500 €/mês. Todo este investimento fica muito muito abaixo do valor global calculado em cima do número de ISBNs pedidos anualmente.

E poder-se-ia cobrar um valor de, por exemplo, 2 € por ISBN para os associados e 4 € por ISBN para os não associados (esquecendo a parvoíce dos descontos por quantidade) e, para cobrir os custos do arranque, bastaria que a inscrição no site para pedir automaticamente ISBN's em 2015 custasse uns 15 € por entidade solicitante (relembrando que cada chancela activa conta como entidade).

Isto para mim seria uma solução positiva e um mal menor, já a forma como a APEL apresenta a sua solução parece-me absurda e sobretudo muito injusta para pequenos e médios editores.

Sinceramente - e agora mais do que nunca - deixo em cima da mesa a questão sobre o estatuto de utilidade pública da APEL. Não me parece que esta Associação Profissional represente sequer um sector por inteiro e certamente não são as missões de representação em duas ou três feiras profissionais (em representação dos seus associados, porque os para os outros as condições são diferentes) que justificam por si o estatuto. Se alguma coisa havia que podia ser de utilidade pública era a atribuição dos ISBNs mas tratando-os agora a APEL como produto comercial e renunciando ao estatuto de utilidade pública ao fazer diferenciação entre sócios e não-sócios, o que resta? Mas isso é assunto para outras andanças

Faz muito mais sentido neste momento (até porque se pouparia na questão de aluguer de equipamentos informáticos, servidores, etc.) que seja a BNP a assumir a Agência de ISBN à semelhança do que acontece em vários países nomeadamente o Brasil. Em alternativa o Arquivo Nacional da Torre do Tombo serviria de forma igualmente perfeita e em ambos os casos de forma bem mais adequada.

11/18/2014

Comércio livreiro em Portugal. As livrarias independentes


No próximo dia 23 terá lugar o I ENCONTRO LIVREIRO DO PORTO E GRANDE PORTO, organizado de acordo com os os princípios e objectivos constantes na respectiva mensagem de convocação:

"O Encontro Livreiro do Porto e Grande Porto está em marcha e promete ser um feliz acontecimento. 

Para além do convívio e da boa onda que inevitavelmente vão pairar entre livreiros e gentes do livro, vamos ter cinema, dança, música, poesia, a partir das 15h.

Tragam as vossas palavras, a vossa energia e a vossa esperança inabalável no futuro.
Partilhem as vossas experiências e os vossos anseios. Desvendem-nos os vossos milagres de cada dia - como os que estão a acontecer em Óbidos, a Vila literária e as suas 7 livrarias encantadas.

Livreiros de todo o país, lembrem-se que logo após o corte do cordão umbilical entre o autor e o livro, são os livreiros os primeiros a acolhê-lo nas suas mãos e a afagar (lembrando o belíssimo poema que Eugénio de Andrade dedicou aos livros) "a sua cálida, terna, serena pele...). Só depois os livros seguem o seu caminho, procurando a "amorosa companhia" dos leitores."

Os muitos anos que levo de trabalho no sector do livro, e estudos recentes que desenvolvi ou nos quais participei, fundamentam a opinião, continuamente reforçada, relativamente à importância fulcral dos livreiros independentes para que toda a cadeia do livro, incluindo os grupos editoriais e livreiros de grande dimensão, cumpra a sua missão sociocultural com viabilidade económica e assegurando a pluralidade editorial e a diversidade cultural que lhe cumpre como indústria cultural de referência.

Daí entender que esta iniciativa, como todas as outras que se têm realizado no sentido de reforçar o relacionamento e de estabelecer entendimentos de cooperação "inter pares", justificam a maior divulgação e merecem o maior sucesso.

Nesse sentido, e porque considero que pode constituir um contributo sustentado para o debate que certamente ocorrerá e um suporte válido para as conclusões a obter, aqui deixo a ligação para o estudo Comércio livreiro em Portugal: Estado da arte na segunda década do século XX, desenvolvido pelo CIES/IUL no 1º semestre de 2014 por encomenda da APEL e no qual tive o privilégio de participar, como também para o post Encruzilhadas do mercado livreiro no qual abordo aspectos específicos do referido estudo.

Rui Beja

10/24/2014

A proverbial exposição alternativa


Nasceu como associação cultural em Itália no distante ano de 1982. O seu mentor, Alberto Casiraghi, cria anualmente centenas de pequenas plaquettes impressas em prensa de caracteres móveis manual.

As referidas plaquettes reproduzem geralmente aforismos ou poesias breves (se bem que tenham sido já publicados alguns textos mais longos) acompanhados de ilustrações geralmente originais de diversos artistas plásticos. As tiragens são muito reduzidas e os livros não se vendem no circuito comercial.

Os textos nascem habitualmente do encontro entre o editor e os autores. Sem qualquer tipo de estratégia que não a sua opinião pessoal, Alberto Casiraghi publicou centenas de autores desconhecidos mas também alguns dos maiores nomes da literatura moderna e contemporânea de todo o mundo. 

Na Biblioteca Nacional, inaugura-se hoje a exposição de perto de 1000 plaquettes entre as quais as de todos os autores de língua portuguesa publicados.

Em termos de terminologia de mercado pode dizer-se que as edições Pulcinoelefante são o exemplo acabado de specialty product na área do livro. Do ponto de vista do leitor, são uma delícia.  Não percam.

Para os curiosos fica uma reportagem vídeo e imagens de várias edições da Pulcinoelefante.

5/30/2014

América, América!


Acabei de ler recentemente Another Life de Michael Korda, uma leitura que tinha iniciado há muitos anos e interrompi para priorizar outras leituras.

Korda foi, para quem não saiba, editor chefe da Simon & Schuster durante largas dezenas de anos. Era-o ainda em 2000 quando publicou este livro. Mas é muito mais do que isso: Korda é também o autor de um romance best-seller (baseado na vida da sua tia, a actriz Merle Oberon), de biografias de grandes personalidades e mesmo de um livro de auto-ajuda que bateu vários recordes de vendas; como tal este é um editor/autor que conhece os dois lados da barricada.

Em Another Life, Korda escreve as suas memórias como só um bom editor pode fazer: apagando-se. As suas memórias são os retratos dos seus autores, dos seus colegas editores, dos gestores das editoras, das mudanças na organização das editoras e grupos editoriais e das evoluções do mercado.

Neste volume podem encontrar-se algumas das melhores anedotas (verídicas, na sua maior parte) sobre o meio editorial norte-americano mas também, num registo mais sério, a história da casa Simon & Schuster, uma das mais importantes dos Estados Unidos; considerações simples mas brilhantes na sua simplicidade sobre o trabalho editorial, as suas dificuldades e prazeres - considerações essas que me apeteceria transcrever linha por linha, palavra a palavra neste blogue não fosse o facto de que acabaria por transcrever largas dezenas de páginas; uma narração factual das transformações da indústria do livro nos EUA - sem ceder à tentação (ou impossibilitado de o fazer) de aplicar juízos valorativos (como o fez, por exemplo, André Schiffrin no seu O negócio dos livros); e uma descrição detalhada do funcionamento do mundo editorial norte-americano desde as funções mais básicas (Korda entrou no mundo da edição primeiro como leitor e posteriormente como assistente editorial, vulgo servo) às estratégias de gestão e políticas estruturais.

Não vou entrar em grandes detalhes: este é um livro muito importante para quem trabalha na área do livro seja para editores, autores ou livreiros, comerciais ou quaisquer outros, mas é também uma obra essencial para perceber o mundo de diferenças que existe na edição de livros nos EUA e a que se faz por cá.

A importância do "editing" de todos os livros publicados, por mais ou menos literários que sejam, chocaria a maior parte dos autores portugueses que se escandalizam quando o editor sugere trocar uma vírgula ou cortar uma frase. E, verdade seja dita, despoja as obras de credibilidade artística. Por outro lado, o livro explica-nos perfeitamente o porquê da lógica ecléctica e da falta de identidade das editoras americanas cujos catálogos podem e geralmente misturam obras literárias com auto-ajuda, biografias de vedetas ou importantes ensaios sócio-políticos com livros de dieta ou espiritualidade new-age, etc. Korda que reflecte, até no ecletismo da sua produção literária, o meio em que trabalha, acaba de forma indirecta por nos explicar que o público norte-americano é muito diferente do europeu - até do britânico (e como!).

O curioso, e permitam-me agora que me afaste do livro de Michael Korda (sem nunca o perder de vista), é que nós por cá, com séculos de uma indústria do livro a mais do que os norte-americanos, olhamos para eles como uma bitola do que o futuro nos reserva.

Deveria bastar-nos o facto de os norte-americanos terem números fiáveis sobre o seu mercado para percebermos que as diferenças são inultrapassáveis. Mesmo nos mercados mais organizados a nível europeu, os editores e os bons gestores de editoras sabem o valor relativo dos números e a sua imprecisão no que toca à nossa indústria em particular. Não vou referir a crónica ausência de números fiáveis em Portugal pois essa deve-se a motivos muito diferentes que, em parte, já foram abordados nas primeiras entradas deste blogue.

É, chegado a este ponto, que vejo os riscos tremendos que corremos ao seguir modelos que foram pensados para públicos com uma realidade socio-cultural diferente da nossa. Lembra-me o calor horroroso que os alunos da minha geração sentiam em várias escolas modelo construídas em Portugal sobre modelos arquitectónicos escandinavos concebidos para aproveitar as poucas horas de sol desses países. E no entanto esses modelos arquitectónicos tinham sido importados porque faziam parte de um dos melhores sistemas educativos do mundo - curiosamente nunca se aproveitaram as boas lições das filosofias de ensino escandinavo que defendiam o ensino "criativo" ao invés do "expositivo".

Claro que enquanto as estratégias das empresas da área do livro forem geridas por gestores e directores gerais formados com cursos também eles "gerais" de gestão (e não seguindo a recomendação da UNESCO para a criação de gestores com formação específica para as indústrias culturais) continuaremos a seguir modelos norte-americanos e a cair em erros de "casting" tremendos porque os gestores para gerir têm de ter números e os números que existem são, das duas uma, números americanos que reflectem outra realidade e outro público com outros hábitos de compra, ou números europeus que não fazem sentido nem apresentam comportamentos lógicos (e portanto previsíveis) do público precisamente porque os consumidores de produtos culturais são por natureza idiossincráticos, imprevisíveis e erráticos e o segredo, para os conhecer, é estar entre eles, é ser um deles.

Mesmo em relação ao público americano Korda admite essa realidade mas não se debruça sobre ela (provavelmente, repito, porque não lhe é possível fazê-lo dado a sua posição dentro da indústria do livro), mesmo ele admite a incerteza dos números e a imprevisibilidade dos sucessos literários. Acima de tudo, Korda admite a grande distância que vai de quem trabalha nas editoras para o leitor e apesar de tocar nesse aspecto não o problematiza, dando-o como adquirido. Nós por cá já ultrapassamos essa batalha que decorreu com o advento da literatura popular de finais do século XVIII, meados do século XIX - uma época em que praticamente não existiam sequer gráficas no território dos actuais EUA, quanto mais editoras... É preciso perceber isto, é vital termos perspectiva histórica da indústria do livro para não continuarmos a perpetuar erros.

Como em todas as indústrias com muitos anos de existência, é fundamental que quem dita as suas estratégias de crescimento ou mesmo de manutenção, saiba o que aconteceu no mercado há 50, 100, 200 anos. Esse sim, é o conhecimento que permite tornar o negócio, as suas mutações e a especificidade do seu público, categorizáveis e mais previsíveis.