11/15/2012

Sobre editores, uma visão para autores

Observo que existe interesse por parte dos autores em relação ao mundo da edição e da forma de se relacionar com ele, por isso resolvi fazer este pequeno texto introdutório, para evidenciar algumas das características que definem o enquadramento mental de cada um neste setor.



Gostaria, neste texto, de destacar que, quando se fala de edição, e apesar de se trabalhar eminentemente com uma matéria-prima cultural e/ou informacional, estamos a falar de uma indústria.

Mais do que o famoso binómio economia/cultura (ex libris que muitos estudos nos anos 1980...) há que referir que, dependendo da posição em que se está neste setor e das características dos agentes, a forma como se posicionam nesse binómio e o resultado real da sua ação pode variar bastante.

Ou seja, se para muitos autores a escrita é fruto de uma paixão, outros há que a entendem de forma fria e profissional, enquanto profissionais da escrita que o são, e podem ver o seu trabalho como uma profissão ao serviço de uma indústria, de um cliente. O caso do James Patterson é mais do que conhecido, mas também poderemos encontrar por cá alguns que veem na escrita um trabalho concreto, fruto de encomendas mais ou menos explícitas do mercado ou das editoras.

Se, da parte de alguns autores, isso já acontece, imagine-se da parte de quem lida há anos e anos com inúmeros textos de diversas valias (e toda a gente concorda que se publicam demasiadas coisas desinteressantes). Por mais paixão que haja da parte de um editor – e há muito mais do que o habitual, daí ter escolhido esta profissão − passa a haver imediatamente uma triagem fina entre os livros pelos quais os editores têm paixão e aquilo que veem como trabalho. Ao fim de alguns anos, a maior parte dos livros publicados são essencialmente trabalho e a paixão cultural fica restrita a alguns poucos livros e autores.

Recordo-me de alguns editores que referiam ler frequentemente livros diferentes daqueles que publicam, como o ex-editor da Pergaminho, Mário Moura. Se isso acontece com os editores, que trabalham diretamente com os autores, imagine-se então outros agentes do circuito, como distribuidores, agentes comerciais, responsáveis por direitos, responsáveis de marketing, etc.



Naturalmente, cada caso é um caso e há ainda alguns editores em Portugal que trabalham com absoluta paixão, como Vítor Silva Tavares (&Etc.) ou Luís Oliveira (Antígona), só para dar exemplos de alguém que ninguém duvide.

Acima de tudo, os autores devem perceber que muitos daqueles são profissionais de uma indústria, que trabalham para uma indústria. Que pegam numa matéria-prima e fazem um protótipo industrial que é reproduzido massivamente, ou que pegam nesse produto e vão fazer o máximo para o vender.

Todos eles sabem que um livro não é o original, apesar de ter muitas vezes um acréscimo significativo de capital criativo único – por parte de tradutores, designers, editores, paginadores, especialistas gráficos, etc. −, da mesma forma que um CD não é um concerto. Se um livro é guilhotinado, há mais 1000 por aí e, se não houver, há o ficheiro ou o original e podemos fazer mais 1 milhão, se interesse houver.

Como veículo de transmissão e comercialização é um objeto apaixonante mas essa paixão não deve ser confundida com o texto artístico. É apenas o veículo para dele usufruirmos e a paixão sobre ele deve manifestar-se noutras alturas, como se manifesta. Aliás, os editores serão dos maiores apaixonados e colecionadores de livros fora do seu local de trabalho.

Apesar disso, o editor é o melhor profissional que o autor pode ter ao seu lado para que a obra consiga chegar aos leitores da melhor forma possível. Ele é um parceiro imprescindível não só para abrir o caminho do mercado, mas também pela experiência e conhecimentos que tem que permitem pegar num texto e associar outros tantos profissionais criativos capazes de criar um livro: o resultado de um trabalho de equipa. Da mesma forma que um encenador necessita de atores, diretor de autores, cenógrafos, assistentes de palco, pessoal da limpeza e rececionistas para ter uma peça em palco, um autor necessita de uma equipa capaz de fazer um livro.

Ao contrário do que se pensa, não é o autor que faz o livro. O autor escreve o texto e dá a parte mais importante, mas só em conjunto com o editor que se faz, de facto, um livro.

Os autores com verdadeira capacidade e interesse devem primeiro perceber, e sem ilusões, o que pretendem com a publicação (aka industrialização) da sua escrita, e só depois procurar o editor que melhor se coadune com aquilo que, de facto, quer. Não será preciso dizer que os editores são iguais às restantes pessoas: há os diligentes, os apaixonados, os desinteressados, os ambiciosos, os egocêntricos, os invejosos, os incompetentes, os profissionais, os difíceis, os geniais e até, com sorte, o editor perfeito para si.

Nuno Seabra Lopes

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