6/17/2016

Henrique Mota preside à Federação Europeia de Editores




Editor independente que em 1997 fundou a Princípia Editora, e livreiro também independente, na Ferin, desde 2011, Henrique Mota assumiu hoje a presidência da Federação Europeia de Editores (FEP) de que era vice-presidente desde 2014..

A Lusa divulga a notícia, os media replicam-na e a APEL congratula o novo presidente da FEP. Mas a eleição justifica muito mais do que notícias, declarações e entrevistas.  Os profissionais, as instituições públicas e as restantes entidades que actuam no mundo do livro em Portugal devem, precisam, entender esta  escolha interpares de uma forma bastante mais abrangente e profunda do que a honra de ter um português numa posição internacional que prestigia a edição e a cultura portuguesas.

A Federação Europeia de Editores agrega 28 associações de editores dos mais diversos países europeus, produz relatórios e informações estatísticas relevantes para a indústria do livro e assume posições da maior importância para defesa da primeira das indústrias culturais na Europa com um volume de negócios de perto de 22 biliões de euros. A FEP é especialmente activa no que se refere à divulgação do livro, à promoção de hábitos de leitura, à salvaguarda de direitos de autor, à contenção de impostos sobre todo o tipo de suporte de leitura,  e em tudo quanto signifique diversidade, pluralidade e democratização do acesso à informação e ao conhecimento através do livro, incluindo o importante papel desempenhado pelos protagonistas independentes.

É-me grato salientar o empenhamento, o entusiasmo e a eficácia com que Henrique Mota tem vindo, de há muito, a representar a APEL e a defender os interesses dos profissionais do livro em Portugal junto das mais diversas instâncias internacionais. Posso testemunhar com isenção o mérito do trabalho e dos resultados que tem obtido, porquanto nem sempre, nem em tudo, estivemos ou estamos em completa convergência de ideias; mas sempre temos mantido uma relação frontal, aberta e séria que me permite não ter qualquer dúvida de que o exigente mandato que agora inicia não se limitará a um  mero exercício de prestígio pessoal, mas sim ao desbravar de caminhos que reforcem  o sector.


É tempo propício para os profissionais do livro em Portugal porem de lado as diferenças que os separam e, concentrando-se no essencial dos muitos interesses que têm em comum, se envolverem activamente, por via do movimento associativo, nas oportunidades que esta eleição pode propiciar para acrescentar valor à edição e comércio livreiro. É também momento certo para as instituições públicas que tutelam o livro no nosso país e as restantes entidades que o tomam como instrumento privilegiado de desenvolvimento sociocultural, juntarem esforços no sentido de robustecer e dignificar o conjunto de acções que levam à sua divulgação junto do público leitor e ao fomento do interesse pela leitura por parte de novos públicos.

6/15/2016

A edição contemporânea na Iberoamérica



Apresentação e programa do Simpósio Internacional que visa fazer um ponto da situação a partir dum olhar multidisciplinar assente na apresentação de comunicações por especialistas nesta temática, podem ser consultados aqui.

4/17/2016

Festival Literário da Madeira

Como aqui há uns tempos referi, fui convidado pela primeira vez para um festival literário. Apesar de geralmente fugir deste tipo de eventos porque os vejo geralmente como espaços de divulgação do universo literário (que não ficaria propriamente mais enriquecido pela minha presença) e porque sou um pouco anti-social (lá o dizia a minha mãezinha), aceitei este convite simplesmente porque havia uma mesa de editores com um tema que acho essencial que seja tratado de forma aberta: na maior parte do pouco debate que se faz em torno do livro e da edição em Portugal raramente se discute de forma aberta critérios e processos editoriais de escolha e tratamento de originais o que leva a que os escritores, e muitas vezes o público, vejam os editores como uma espécie de bicho-papão.

Depois de ter aceite o convite feito pelo Mário Rufino, chegou-me à atenção o texto da Joana Emídio Marques. Como sei que não pertenço a nenhum "grupo" (apesar de não estar "contra" ninguém - que para muita gente parece ser a única alternativa a "pertencer"); porque havia pessoas que admiro (o Afonso Cruz que encontro raramente mas com quem tenho sempre excelentes conversas e troca de recomendações literárias, para além de ser das pessoas mais lúcidas que conheço a falar de religião), a Cláudia Clemente (que publiquei na Ulisseia e com quem me divirto sempre imenso), a Ana Cássia cuja escrita, sobriedade e desassombro acho raras, o Nuno Seabra Lopes com quem é sempre um prazer falar de edição... lá fui eu.

Numa nota algo egoísta, devo também confessar que, apesar de já ter andado por quase todo o Portugal, a Madeira era ainda solo virgem para mim.

Os meus três dias de Festival Literário da Madeira deram-me o prazer de rever muita gente que não via há muito tempo e vários jornalistas que praticamente apenas conheço de trocas de e-mails e alguns telefonemas. Assisti a sessões quase todas interessantes. Passeei de manhã bem cedo pelo Funchal a pé (à procura de nozes de Macadâmia), uma cidade bonita cheia de gente simpática. E lá estive no meu painel a falar do que acho importante - infelizmente sem a presença da Clara Capitão que eu queria conhecer mas que não conseguiu chegar devido às más condições atmosféricas.

Se alguma coisa tenho de criticar é que acho que as sessões - com um moderador e 4 convidados - deveriam ter maior duração. Os temas eram abrangentes e complexos demais para tão pouco tempo.

Faltou também alguma relação com escritores residentes locais - também não sei se haverá muitos.

Fiquei impressionado pelo bastante público que afluiu e gostei bastante de saber que os escritores tinham ido, durante a semana, a várias escolas.

Aquilo que temia, vindo de fora, era que o Festival fosse algo muito feito para consumo próprio e isso garantidamente não foi. Houve público e diálogo com esse público.

Há muitos anos que escrevo que o que falta em Portugal na área do livro é uma política e/ou campanha continuada de promoção do livro e da leitura. Ocorre-me que, independentemente dos diferentes organizadores, pode criar-se uma rede de festivais literários e de eventos a eles associados - já que do governo nada há a esperar. Um conjunto de festas do livro que associem, para além da convivência com os grandes escritores, eventos de promoção da leitura para crianças, a workshops de escrita ou de contar histórias, aquilo que, afinal, é essencial para se ganharem novos públicos: uma educação continuada para a escrita e para a leitura.

Em todos os festivais faltam eventos para a infância e juventude, que incentivem a leitura e a escrita (não separadamente mas em conjunto).

Aqui há uns anos não havia quase nada. O que há agora é muito melhor do que nada. Claro que pode melhorar, sim. Mas como em tudo, demorará tempo.

Se há alguma máquina de controle ou grupos instalados, até é possível. Eu diria que é natural. Acontece em todos os eventos culturais cá e no estrangeiro (e não apenas nos literários). São questões inevitáveis mas só seriam criticáveis se tivéssemos uma alternativa interessada em ser alternativa e nós por cá, na nossa literatura, não temos.

Os efeitos nefastos também me parecem diminutos, precisamente porque os escritores alternativos portugueses são, intencionalmente, alternativos e escrevem, geralmente, para públicos alternativos. Gostariam eles de ser convidados? Viriam eles aos festivais? Será simples criar uma mesa com escritores não mainstream? O público alternativo afluiria aos Festivais?


Que intervenção têm, querem ou podem ter os escritores, editoras, agentes do meio que não estão habitualmente nos festivais? O Festival Literário da Madeira é promovido por uma pequena editora, a Nova Delphi. Não me parece muito absurdo ou sequer improvável que escritores, editoras e outros agentes "alternativos" possam apresentar sugestões, ideias, propostas aos Festivais já existentes ou a municípios que ainda os não alberguem.

Se a Booktailors organiza muitos deles... haverá outra entidade/empresa com capacidade para o fazer? Se sim, porque não o faz?

Resumindo: eu não notei nenhum indício evidente de um possível complot (provavelmente precisaria de ir a muitos mais festivais para notar os padrões que a Joana identifica). Mas mesmo que o tivesse identificado, conhecendo o nosso meio editorial como conheço, pergunto-me se há oposição interessada em ser oposição e pergunto isto porque tradicionalmente em Portugal é fácil falar-se mal mas raramente quem o faz tem vontade ou capacidade de ser alternativa eficaz e concreta.

Quanto ao FLM, fui bem tratado pela organização a quem agradeço a oportunidade de falar daquilo que acho importante falar; fiquei contente com a muito boa afluência e interesse do público em geral. Adorei o Funchal e só não consegui mesmo foi encontrar as nozes de Macadâmia.

4/12/2016

História Universal da Pulhice Humana


HISTÓRIA UNIVERSAL DA PULHICE HUMANA, Vilhena
E-Primatur, 17,90€
Editor: Hugo Xavier
Capa: José Vilhena / Design: Paper Talk
Produção: Papelmunde

Às coisas que são boas convém não mudar, para não estragar. Foi assim que se re-publicou a “História Universal da Pulhice Humana – edição completa, integral e nunca censurada dos três volume originais: Pré-história / O Egipto / Os Judeus”. Versão facsimilada, procurou manter a mancha e layout originais dos livros ilustrados, incluindo uma mesma opção similar de papel, com aquele contraste e sujidade típicos, mas obtendo uma qualidade surpreendente em termos de opacidade.

De um ponto de vista editorial, nada há a registar, pois a obra surge-nos como Vilhena a pôs no mundo, sendo de apreciar o cuidado da E-Primatur com as guardas ilustradas e o facto de ter optado por coligir a obra em cartonado com transfil e fitilho, algo inesperado numa obra de Vilhena, mas que calculo que o próprio teria gostado de fazer, se assim lhe tivesse sido permitido.

Pessoalmente gostaria que a autobiografia, a introdução e as folhas de rosto tivessem mantido uma linha gráfica similar ao resto do livro, optando-se pela mesma fonte, apesar de compreender que a editora terá pretendido manter o seu registo habitual e fazer a diferença entre facsímile e conteúdos novos de forma clara e inteligível.

A produção não tem problemas a registar, excepto um ligeiríssimo desacerto na guilhotinagem da guarda (algo que deverá apenas ocorrer em alguns dos livros), o que é mesmo uma coisa de picuinhas e não interessa a ninguém.

Acima de tudo, este livro presta um serviço público a uma das mais interessantes personagens do século XX português, um autor, ilustrador, e editor com todas as letras a que tem direito, que influenciou toda uma estética de humor e de ilustração e que vê, neste livro, uma muito, mas mesmo muito justa homenagem.

Deixo igualmente a nota que esta é uma crítica especial. Desde logo porque critico uma obra de um colega não só de profissão, mas também de blog, o que fará com que ele possa ir lá apagar o post caso não goste, para além de me colocar a jeito para vir ele criticar os meus.

Nuno Seabra Lopes, editor e consultor editorial

3/29/2016

António Abreu - Por Flamarion Maués

Criador de editoras em Portugal e no Brasil,
morreu o editor António Abreu

Por Flamarion Maués, de São Paulo

Faleceu hoje, 20 de março de 2016, em São Paulo, o editor português António Daniel Abreu, criador das editoras Cadernos Para o Diálogo (1971), Textos Marginais (1972), Rés (1975) e Nova Crítica (1975), todas sediadas na cidade do Porto. Em 1986 ele mudou-se para São Paulo, onde vivia desde então, também exercendo a profissão de editor, à frente da editora Landy.

A notícia foi dada por sua companheira, Linda de Lima, pelo Facebook.

Conheci e entrevistei Abreu em 2012, quando escrevia minha tese de doutorado sobre as editoras políticas portuguesas do período do marcelismo e do 25 de Abril, já que suas duas primeiras editoras tiveram destacado papel na oposição à ditadura portuguesa.

É uma perda lamentável, sem dúvida. Abreu foi uma pessoa que dedicou sua vida à edição e aos livros, merece todo o nosso respeito.

A título de homenagem, reproduzo abaixo os trechos do meu trabalho que tratam das editoras Cadernos Para o Diálogo e Textos Marginais.

Para que quiser ver a tese na íntegra, ela está disponível na internet: SILVA, Flamarion Maués Pelúcio Silva. Livros que tomam partido: a edição política em Portugal, 1968-80. Tese de doutorado em História, Universidade de São Paulo, 2013. Disponível em: <http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8138/tde-07112013-131459/en.php>.

Duas editoras contra a ditadura
Flamarion Maués


Cadernos Para o Diálogo
Porto
Editor: António Daniel Abreu.
Início das edições: 1971.
Distribuição: Livraria Paisagem.

   




Editora criada em 1971 por António Daniel Abreu na cidade do Porto. Sua origem relaciona-se à atividade profissional de Abreu na Editora Paisagem (ver item sobre esta editora no Capítulo 11), onde ele trabalhava no setor de vendas.

Abreu tinha ligações com setores católicos progressistas, que faziam oposição à ditadura, e tinha feito parte da Juventude Operária Católica (JOC) e do Gedoc (Grupo de Estudos e Intercâmbio de Documentos, Informações, Experiências). O nome da editora foi inspirado na revista espanhola Cuadernos para el Diálogo[1], que circulou entre 1963 e 1978 e vinculava-se inicialmente ao pensamento democrata-cristão, “evoluindo para posições próximas à centro-esquerda, para terminar, em sua última fase, com um jornalismo de corte socialista”[2]. O mesmo grupo que editava a revista criou na Espanha, em 1965, uma editora com o mesmo nome[3].

Depois que saiu da Paisagem, no começo da década de 1970, Abreu foi trabalhar na editora Inova, de José Cruz Santos, também no Porto. Lá ficou pouco tempo, pois decidiu começar a editar por conta própria. “Comecei a editar em 1971. Eu tinha 19 anos, então a minha mãe teve que me dar a emancipação, pois eu era menor de 21 anos”, conta Abreu[4], que desde 1986 vive no Brasil.

“O Abreu, do seu trabalho de vendas, percebeu que havia espaço para fazer publicações de orientação oposta ao regime, que condiziam com os sentimentos dele de opositor da ditadura, e começou a fazê-las, com todo o atrevimento e ingenuidade”, lembra João Barrote[5], que trabalhou com Abreu na Editora Paisagem e depois colaborou com ele na editora Textos Marginais.

A primeira editora criada por António Daniel Abreu foi a Cadernos Para o Diálogo, que editou seis títulos em 1971. Entre os autores estavam Marx (Trabalho assalariado e capital), Engels (A questão do alojamento), D. Helder Câmara (Espiral de violência) e Aime Césaire (Discurso sobre o colonialismo). Este último livro, em particular, “era uma afronta para o regime, porque a palavra colonialismo tinha sido banida em Portugal”, lembra Abreu. Os outros dois títulos publicados foram O império Rockefeller e Comuna de Paris 1871, de Prosper Ollivier Lissagaray.

Tais lançamentos não passaram despercebidos pela polícia política. Abreu recorda que:

A Cadernos Para o Diálogo publicou livros, digamos, muito avançados, a polícia política, a PIDE/DGS, veio em cima de mim, apreendeu tudo, fizeram um processo, e eu tive que parar com aquilo porque não tinha mais condições. Qualquer livro que saísse eles vinham em cima de mim.

Um bom exemplo dessa perseguição foi a censura ao livro Discurso sobre o colonialismo, de Aime Césaire. O texto foi retirado da revista francesa Présence africaine, trazida clandestinamente para Portugal por membros do PCP. O livro começou a ser distribuído no dia 6 de dezembro de 1971 e dois dias depois já era de conhecimento da PIDE/DGS[6]. Abreu diz que “neste caso foram informadores infiltrados na gráfica que terão entregue uma cópia do livro directamente às autoridades quando este estava pronto para ser distribuído”[7].

O relatório da DGS sobre o livro é curto e direto: “O autor é negro, comunista e foi em tempos deputado francês. Trata-se duma diatribe contra a civilização ocidental, numa pseudo defesa das civilizações negra, oriental e índia. Para proibir”[8].

Para tentar escapar à perseguição e ao estigma que a Cadernos Para o Diálogo tinha criado junto à PIDE, Abreu resolveu encerrá-la e iniciar uma outra editora. “Foi quando eu comecei a Textos Marginais, com uma proposta diferente, mais aberta”, diz Abreu.

Assim, a existência da Cadernos Para o Diálogo foi curta, cerca de um ano apenas, com seis títulos publicados, todos com padrão gráfico e editorial profissional e distribuídos pela Livraria Paisagem. A editora foi vítima das perseguições policiais e da censura da época, que acabaram por inviabilizar a sua continuidade. Dito de outra forma, a editora “[...] desapareceu somente por motivos coercitivos”[9].

Abreu criou mais três editoras em Portugal – Textos Marginais, Rés e Nova Crítica –, sempre no Porto. Em 1986 mudou-se para São Paulo, onde vive desde então, também exercendo a profissão de editor, à frente da editora Landy. 


Textos Marginais
Porto
Editor: António Daniel Abreu.
Início das edições: 1972.
Distribuidor: Dinalivros / Brasil: Martins Fontes.

 





Editora criada por António Daniel Abreu na cidade do Porto, em 1972, para dar continuidade à sua atividade de editor. Abreu havia criado no ano anterior a editora Cadernos Para o Diálogo, que havia tido muitos problemas com a polícia política e a censura, devido aos títulos publicados.

A criação da Textos Marginais foi a forma encontrada por Abreu para tentar escapar a esta perseguição, já que qualquer título que viesse a ser publicado pela Cadernos Para o Diálogo estava fadado à censura e à apreensão. O nome da nova editora parece ter sido inspirado pela coleção Cuadernos Marginales, da Editorial Tusquets, de Barcelona, criada em 1969[10].

Os livros editados pela Textos Marginais se caracterizavam pelo marcado caráter político e ideológico ligado ao pensamento transformador, de esquerda e marxista, mas não tocavam diretamente na questão colonial, que, na opinião de Abreu, era o ponto que mais incomodava o regime. Diz ele:

Antes do 25 de Abril havia uma “liberdade vigiada” pela polícia política. Os livros eram isentos de censura [prévia], mas eram apreendidos quando ultrapassavam as barreiras da “legalidade” imposta. Havia algumas coisas que eles não permitiam de jeito nenhum. Em relação aos clássicos, Marx, Engels, a perseguição não era tão grande, mas as coisas ligadas aos movimentos coloniais eles não perdoavam de jeito nenhum.[11]

Antes do 25 de Abril a Textos Marginais publicou livros como: O sistema irracional, de Paul Baran e Paul Sweezy (1972); A guerra civil de Espanha, de Andrés Nin (1972); Contribuição para a história do cristianismo primitivo, de Karl Marx e Friedrich Engels (1972); Os cristãos e a libertação dos povos, de Yves Jolif e outros (1972); Uma educação para a liberdade, de Paulo Freire (1972); Discurso sobre as artes e as ciências, de Jean-Jacques Rousseau (1972); O novo mundo industrial e societário e outros textos, de Charles Fourier (1973); e Império e imperialismo americano, Celso Furtado e outros (1973).

António Abreu recorda que:
Os livros da Textos Marginais eram um sucesso. Quando fiz o primeiro eu tinha um certo receio, porque a polícia vinha sempre em cima de mim, então eu comecei com 1.500 exemplares, que já saíam praticamente vendidos. Aí eu fui aumentando a tiragem até que chegou a 10 mil a tiragem inicial. E vendia tudo.

A partir do quinto ou do sexto livro editado, Abreu passou a contar com a assessoria de João Barrote, com quem havia trabalhado na Editora Paisagem, e que em 1973 criou as Publicações Escorpião/Textos Exemplares. Barrote fazia a supervisão das traduções e também indicava textos para edição. “Mas a grande maioria era eu mesmo que selecionava”, afirma Abreu.

Os recursos investidos na editora eram de Abreu. “Na verdade o investimento era quase nulo, porque os livros já saíam quase todos vendidos”, diz ele.

Um dos maiores sucessos da editora foi o livro O combate sexual da juventude, de Wilhelm Reich, publicado em 1972, que vendeu quase 30 mil exemplares. “Quando eu resolvi editar este livro todo mundo disse que eu estava louco, que eu seria preso, mas resolvi editar assim mesmo. Foi um sucesso, vendeu uns 20 mil, 30 mil exemplares. Eu tirei os primeiros 5 mil e vendeu tudo em 24 horas”, lembra Abreu.

“Com a Textos Marginais os problemas com a censura e a PIDE/DGS foram poucos”, diz. Ele lembra que teve problemas em 1972, quando uma nova Lei de Imprensa reforçou a exigência de registro na Secretaria de Estado da Comunicação Social para se poder editar. “Como eu não estava inscrito lá, eles fizeram um processo por conta do livro A medicina e a vida hospitalar na República Popular da China. Aí fiquei praticamente proibido de editar, meu nome não podia aparecer nos livros”.

Em 1973 Abreu estava em idade militar e foi enviado para Angola, onde ficou 21 meses. “Com o meu histórico com a PIDE, fui pra lá com uma espécie de ‘estatuto de revolucionário’, que eu nunca tive de fato”, lembra. Mas mesmo na África Abreu conseguiu dar continuidade às edições, inclusive realizando algumas revisões de textos que lhe eram enviados por correio.

Quando deu-se o 25 de Abril, Abreu estava em Angola, mas pouco tempo depois já havia retornado a Lisboa .

Depois do 25 de Abril os livros continuaram vendendo bem, conta Abreu. Um indicador desses bons resultados é o fato de três títulos da editora terem aparecido na secção “Os best-seller da quinzena” do jornal Expresso, em 1974 e 1975. O livro O combate sexual da juventude, de W. Reich, apareceu em 5º lugar (24/5/1975), em 3º (7/6/1975) e em 9º (21/6/1975). Já a obra de Paulo Freire, Uma educação para a liberdade, foi mencionada em 10º lugar em 25/1/1975. E A nossa arma é a greve, reunião de textos de Franz Mehring, Rosa Luxemburgo e Emile Vandervelde, surgiu em 7º lugar em 21/6/1975[12].

Outros títulos editados a partir de 1974 foram: Uma iniciação à economia, de Charles Rouge (1974); Teoria e história do capitalismo monopolista, de Harry Magdoff, Paul Baran e Paul Sweezy (1974); A aplicação da psicanálise à investigação histórica, de Wilhelm Reich (1974); Progresso social e liberdade, de Herbert Marcuse (1974); Viver em Moscovo, viver em Nova York, de K. S. Karol e Herman Schreiber (1975); Inquérito operário e luta política, com textos de K. Marx e Mao Tsé-tung (1975); Socialismo, casamento e família: a doutrina socialista do casamento, de David Riazanov (1975); e As três fontes do marxismo: a obra histórica de Karl Marx, de Karl Kautsky (1975).

Mas os novos tempos trouxeram mudanças para o setor editorial:
As coisas mudaram radicalmente. Antes do 25 de Abril o livro saía com o rótulo de proibido, então havia todo um mercado paralelo, que se formou em função disso, as livrarias recebiam os livros que sabiam que seriam proibidos e já tinham uma forma de os vender, recebiam os livros e nem expunham, ficavam debaixo do balcão e havia os clientes certos que iam lá e compravam. Eram tiragens de 3 mil, 4 mil exemplares e vendia tudo. Normalmente uns 30% ou 40% da tiragem eram já destinados para a apreensão, a gente já contava com aquilo. Com o 25 de Abril surgiram dezenas de editoras, e naturalmente eu também perdi espaço, eu tive que me afastar de algumas coisas e mudar o rumo.

Abreu lembra, com ironia, que “Com o 25 de Abril todos se transformaram em revolucionários, até alguns que eram ligados ao antigo regime foram parar no Partido Comunista”. Mas, depois de cerca de dois anos em que a agitação política foi intensa e vendeu-se livros políticos como nunca em Portugal – de abril de 1974 até o final de 1975 –, o mercado para este tipo de livro começou a diminuir. “Depois, já em 1976-78, começou a haver uma definição de mercado, porque o mercado era muito bagunçado. O mercado começou a ser muito mais seletivo, ficaram alguns, a Afrontamento, a Centelha, o resto caiu tudo”, diz Abreu, que completa: “O interesse pelo livro político caiu muito. O interesse era motivado, em grande parte, pela repressão política”.

Já em 1975 Abreu partiu para uma nova empreitada, criando a editora Rés em sociedade com Reinaldo Carvalho (ver item sobre esta editora no Capítulo 11).

António Abreu avalia da seguinte forma a atuação das editoras políticas em Portugal no período que precede ao 25 de Abril e nos anos imediatamente seguintes ao fim da ditadura:

Acho que as editoras que publicaram livros políticos tiveram um papel importante na formação política, porque não existia formação política em Portugal devido ao longo período da ditadura. A maioria dessas pequenas editoras era ligada a algum movimento. Elas não tinham uma visão comercial, eram idealistas que faziam aqueles livros.

Todos os títulos editados pela Textos Marginais eram de autores estrangeiros, com exceção de uma única obra: Miséria de cinema, de António Faria, publicado em maio de 1974. Os livros tinham tratamento editorial e gráfico profissional, e a distribuição era feita pela Dinalivro.

A editora atuou até 1977, tendo publicado 28 títulos. O período de maior atuação foi entre 1972 e 1974, quando saíram 21 títulos. Em 1975 foram editados apenas quatro, em 1976 apenas um, e 1977 dois títulos. Os três últimos títulos já saíram em edições feitas pela Dinalivro, a quem Abreu havia vendido a Textos Marginais em fins de 1975.

Em alguns livros da Textos Marginais aparece o seguinte crédito: “Edição: Henrique A. Carneiro”.  Como esclareceram-me António Abreu, José de Sousa Ribeiro[13], da editora Afrontamento, e João Barrote[14], este senhor era um dos proprietários da Gráfica Firmeza, do Porto, onde foram impressos muitos livros de caráter político naqueles anos. O seu nome aparecia para cumprir a exigência legal de que houvesse um editor autorizado que fosse responsável pela publicação – e também para proteger os reais editores de possíveis problemas com a polícia política. Mas de fato o senhor Henrique A. Carneiro não era o editor daquelas obras, mas sim o tipógrafo responsável por sua impressão. A menção de seu nome como responsável pela edição ocorre em livros de muitas outras editoras do Porto (ver item sobre a Editora Textos Políticos, neste capítulo).

(Extraído de: SILVA, Flamarion Maués Pelúcio Silva. Livros que tomam partido: a edição política em Portugal, 1968-80. Tese de doutorado em História, Universidade de São Paulo, 2013. Disponível em: <http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8138/tde-07112013-131459/en.php>.)




[1] Conforme lembrou João Barrote em mensagem eletrônica enviada em 28/6/2011.
[2] DAVARA TORREGA, Francisco Javier. “La aventura informativa de Cuadernos para el diálogo”. Estudios sobre el Mensaje Periodístico, nº  201, 2004, p. 201-220. Disponível em: <http://revistas.ucm.es/index.php/ESMP/article/view/ESMP0404110201A/12595>. Acesso em 26/10/2012.
[3] MORET, Tiempo de editores, op. cit., p. 296.
[4] Entrevista com António Daniel Abreu, São Paulo, 23/8/2012. Todas as demais falas de Abreu provêm desta entrevista.
[5] Entrevista com João Barrote, freguesia de Arnoia, concelho de Celorico de Bastos, distrito de Braga, 22/6/2011.
[6] CÉSAR, Felipa. “Notas sobre o fac-símile da publicação Cadernos para o Diálogo 2”. In: CÉSAIRE, Aimé. Discurso sobre o colonialismo. Edição fac-similar. Berlin: Bom Dia, 2012.
[7] Ibidem.
[8] Relatório 9253 da DGS sobre o livro Discurso sobre o colonialismo, datado de 11 de janeiro de 1972, assinado por Simão Gonçalves. Reproduzido em CÉSAR, op. cit.
[9] Tal afirmação aparece na contracapa do livro O que é uma constituição política?, de Ferdinand Lassalle, que em 1976 inaugurou a nova série da coleção Cadernos Para o Diálogo, recriada por Abreu na editora Nova Crítica (ver item sobre esta editora no Capítulo 11).
[10] Conforme lembrou João Barrote em mensagem eletrônica enviada em 28/6/2011.
[11] Entrevista com António Daniel Abreu, São Paulo, 23/8/2012. Todas as demais declarações de Abreu provêm desta entrevista.
[12] “Os best-seller da quinzena”. Secção do jornal Expresso, 1974 e 1975. Hemeroteca Municipal de Lisboa.
[13] Entrevista com José de Sousa Ribeiro, Porto, 24/3/2011.
[14] Entrevista com João Barrote, Arnoia, 22/6/2011.

3/22/2016

Festivalar

Coincide o facto de pela primeira vez eu ter sido convidado para um festival literário - fujo geralmente de eventos com muita gente -, com o aparecimento de um excelente texto da Joana Emídio Marques sobre a fenomenologia dos Festivais Literários num país em que pouco se lê, tudo isto um dia depois do Encontro Livreiro que decorreu, mais uma vez na histórica Culsete em Setúbal.

Quando eu voltar do Festival Literário da Madeira darei a minha opinião com conhecimento de causa.

12/15/2015

O Paraíso Segundo Lars D., João Tordo

 
O PARAÍSO SEGUNDO LARS D.
João Tordo

Companhia das Letras/Penguin Random House, 15,90€

Editora: Clara Capitão; 
Revisão: Ana Leonor Branco e Cristina Correia

Capa: Maria João Lima (Panóplia) com fotografia de autor de Vitorino Coragem

Produção: Printer

Desde a saída de Valter Hugo Mãe que a Companhia das Letras (antiga Objectiva) procurava um escritor português que servisse de rosto para o seu catálogo, tendo encontrado em João Tordo aquilo de que necessitava. Transitado da Dom Quixote/LeYa, onde surgiu sob a tutela de Maria do Rosário Pedreira, João Tordo mudou de casa numa altura em que a sua escrita também mudava de registo. Mas deixarei isso para quem mais entende da matéria. O principal a reter é a importância que a Companhia das Letras atribui a esta faceta do seu catálogo, e como a mesma acaba por marcar o posicionamento que a editora quer ter em Portugal.

Em termos de risco, João Tordo é um ativo seguro e gerador de valor. Autor premiado com o José Saramago e com quase uma dezena de livros editados, os últimos dos quais com bons resultados de vendas e de imprensa, Tordo conta já com uma base alargada de leitores regulares e espaço garantido nos escaparates de venda.

Em termos de conteúdos, este livro surge na sequência do anterior (O Luto de Elias Grou), algo revelado não só pelo autor logo no início do livro, mas também em termos de comunicação, que o enquadra como segundo numa trilogia (de livros estanques dentro do mesmo universo, e não de livros sequenciais). O discurso é de leitura rápida mas profunda, com o discurso direto a controlar a velocidade da ação. Em termos editoriais observa-se um cuidado na revisão, não se notando traços profundos de editing.

Uma das características mais marcantes deste livro é a necessidade que a edição tem de «dar corpo» ao livro. Com uma paginação bastante arejada, corpo de texto e entrelinha de dimensão elevada, o livro procura disfarçar ser um pequeno livro (em termos de dimensão) e apresenta-se como grande. Mais propriamente, cresce até mais de 200 páginas para conseguir obter esse efeito.

Em jeito de opinião, julgo que seria possível obter o mesmo ou melhor efeito recorrendo a um papel com maior densidade/gramagem ou índice de mão, aumentando com isso o valor percebido do livro e melhorando um dos raros problemas encontrados nesta edição: a baixa opacidade nas páginas de cortina a negro e nas fotografias. Um livro com a mesma lombada mas com 160 páginas e bons materiais seria uma opção mais interessante (e, porventura, não mais cara...).

Em termos de design o livro apresenta-se com muita elegância e boa leitura, com toques de design de miolo não raros, mas pouco habituais. Como detalhe adicional, saliento a belíssima ideia de colocar um marcador destacável por picote «enforcado» no plano (na sequência da badana).

Para além do marcador, o que mais se destaca é a fonte utilizada no plano de capa: para a lombada, escolheu-se uma fonte de belíssima leitura, recorrendo-se a uma typewriter alargada na capa. Na contracapa surgem sem grande diferenciação uma sinopse muito bem escrita seguida de um excerto da obra. Se ambos os conteúdos são bem escolhidos, ressalva-se a diferença de fonte que se destaca excessivamente. Na minha opinião seria possível anular a última frase da sinopse para aumentar o corpo e igualar os registos, dando alguma indicação de que se trata em cada um dos textos. A biografia assenta na figura literária do autor, mas talvez fosse de referenciar outros livros de João Tordo (não publicados no Grupo), e a foto utilizada é muito interessante, mas a impressão no perfil de cor em questão escurece-a excessivamente.

Acima de tudo, nota-se um cuidado muito elevado com o autor. Numa estratégia que não se percebe ser de coleção (João Tordo) ou somente da trilogia, vemos que tudo se desenvolve em torno da imagem literária do autor, num cuidado de elevação do seu perfil literário, com anulação de elementos excessivamente comerciais. Isso denota respeito por João Tordo e segurança na sua plataforma de fãs e vendas.

O preço parece indicado para o livro em questão e a estratégia de comunicação (por relações públicas e imprensa em torno de autor) é a que se coaduna com todo o restante marketing estruturado para esta obra.

Em resumo, uma obra de continuação da bibliografia de João Tordo, onde está patente uma estratégia de elevação do autor à categoria literária máxima em detrimento de uma estratégia comercial agressiva, bem cuidada e trabalhada ao nível editorial, mas com detalhes menos conseguidos ao nível da produção. Um livro pensado para fidelizar os leitores atuais de João Tordo e fazer crescer o autor dentro da sua própria plataforma. Dada a idade e o potencial do autor, parece-me ser uma estratégia acertada se bem que arriscada no competitivo mercado atual.

Editorialmente recomendado, claro.

Nuno Seabra Lopes, editor e consultor editorial

12/03/2015

Cosac Naify

 

Para quem não saiba, a editora brasileira Cosac Naify anunciou o seu encerramento.

Caso também não saibam, a Cosac Naify era, provavelmente, uma das mais extraordinárias editoras do mundo, e certamente a mais extraordinária em língua portuguesa, porque não só apostava em nichos culturais de difícil retorno, como arte, design, cinema, arquitectura ou fotografia (para além da literatura, onde se destacam a existência de autores portugueses como Valter Hugo Mãe) mas, acima de tudo, fazia-o com uma qualidade gráfica e de produção difíceis de igualar.

Ou seja, eram um dos meus heróis.

Charles Cosac, o seu fundador e director, justificou o fecho com a incapacidade de poder continuar a publicar como gosta, ou seja, com qualidade. Que não está para reciclar livros em domínio público (como tinha já começado a fazer) para tentar pagar contas ou passar a publicar livros mais comerciais.

Ou seja, é ainda o meu herói.
(pena tenho é que a realidade não seja aos quadradinhos)