12/26/2012

Ler os Clássicos na Escola

Texto da nossa leitora Maria Almira Soares


A reconfiguração da aula no imaginário do aluno, quando nela o professor lê um texto clássico, pode aproximar-se da metáfora de um lugar inóspito aos olhos de um leitor heróico. O texto clássico, dentro da leitura decifradora do professor, pode encontrar o aluno tolhido pelos insistentes acenos dessa leitura, paralisado o seu desejo de apropriação, na previsão de que continuará sempre a prevalecer o desconhecido, o indecifrável, o repertório que não possui.

É possível, no entanto, desafetar esta ecologia do seu efeito paralisador, coercitivo.

A leitura de um texto clássico pode começar por embater na impaciência, na distração, na falta de instruções de uso, na inexperiência de uma criança ou de um jovem, mas sob certas condições – as da presença de um modelo emocionalmente contagiante, o do professor detentor de um imaginário rico de leitor — cria ressonância, memória, influência e pode atingir o patamar do desejo.

O problema que verdadeiramente sustenta a tendência de enfraquecimento da leitura dos clássicos na escola é o da seleção de uma identidade e de um papel para o professor: entre a valorização, o aprofundamento, o excesso ou o recuo e a banalização. Na educação escolar do leitor, cabe um papel crucial ao professor capaz de projetar uma força iniciadora, que o aluno, vindo de um mundo em que a leitura tende a ser inócua, só por si, não pode desencadear. O professor com uma identidade de leitor forte, não diluída por uma legitimação que faz dele um recurso equivalente e comutável com outros recursos, pode projetar a sua cultura de leitor como um modelo sedutor: passo definitivo para o aluno ousar vencer a adversidade e se assumir, pessoal e intimamente, como leitor.

A leitura está entre aquilo que o programa escolar tem para distribuir, ou seja, a leitura é uma divisão, uma secção do organograma programático. Esta situação é consonante com a tendência para tomar o professor como um funcionário da leitura, não como um leitor. Um funcionário da leitura não tem condições de se projetar como modelo perante um jovem. Em contrapartida, o professor grande leitor, marcado pelo excesso de uma profunda imersão cultural, tem o poder de transcender a monotonia para que a aprendizagem procura tender. O professor pode recuperar o seu poder simbólico, tornar-se metáfora engrandecedora do seu esvaziamento curricular e, assim, alcançar a força de um modelo, desencadeando um princípio de impregnação.

Numa era em que, nos discursos, o tema da escola é favorecido pela tecnocratização, funcionalização, esta ideia do agigantamento cultural/literário do professor corre o risco de, por ligeireza de atenção, não ser considerada uma entrada pertinente. A entrada pertinente para o tema do professor de Português tende a ser a produção de competências: a competência de conseguir servir-se de escritos da vida corrente; a competência de utilizar bases de dados ou ler/apreender tabelas ou esquemas; a competência de redigir notas breves para relatórios. Educar escolarmente o leitor é abrir uma brecha neste discurso e pensar em metamorfose iniciada pelo desencadear de uma impregnação. Porque ninguém sente desejo de se deixar impregnar por um escrito da vida corrente, por uma base de dados; ninguém sente o poder transformador de umas notas breves para um relatório. A ruptura interpeladora produzida pelo imaginário cultural do professor-grande leitor transcende o efeito de abatimento da formalidade escolar. A expectativa, escolarmente adquirida, de ler para aprender expande-se na construção em perspectiva crescente de novos acessos à leitura.

Esta identidade de professor-educador do leitor, excessiva em relação ao programático, recria o aluno como discípulo de leituras em vez de mero praticante de instruções. Ao mostrar a sua liberdade de leitor centrífugo, mas conhecedor do repertório, sabedor, culto, o professor exerce no aluno o atrito de um modelo sedutor e veicula o desejo e a ousadia de trilhar os caminhos da leitura.

A condição fundamental que pode fazer, da experiência escolar da leitura, uma ressonância, uma influência, uma memória e, deste modo, educação, é a da transcendência da função decifradora pela presença de um modelo iniciador. Se assim for, a leitura em aula, pode constituir, para o aluno, uma iniciação: um processo quase ficcional da descoberta de si no outro, em que o não-leitor, o quase-leitor, o pouco-leitor (aluno), se projeta na leitura do professor. A leitura do aprendiz vai indagando e perseguindo a leitura do mestre, reverte-a em educação da sua genuína capacidade de ler. Só neste confronto, a leitura escolar conserva a sua credibilidade de leitura genuína, em vez de uma coisa sintética ad usum delphini, e deixa de ter a efemeridade do utilitário, para passar a exigir a permanência e o peso do escrito literário, alcançando a natureza de uma verdadeira inscrição educativa.

Maria Almira Soares, Professora

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