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4/12/2016

História Universal da Pulhice Humana


HISTÓRIA UNIVERSAL DA PULHICE HUMANA, Vilhena
E-Primatur, 17,90€
Editor: Hugo Xavier
Capa: José Vilhena / Design: Paper Talk
Produção: Papelmunde

Às coisas que são boas convém não mudar, para não estragar. Foi assim que se re-publicou a “História Universal da Pulhice Humana – edição completa, integral e nunca censurada dos três volume originais: Pré-história / O Egipto / Os Judeus”. Versão facsimilada, procurou manter a mancha e layout originais dos livros ilustrados, incluindo uma mesma opção similar de papel, com aquele contraste e sujidade típicos, mas obtendo uma qualidade surpreendente em termos de opacidade.

De um ponto de vista editorial, nada há a registar, pois a obra surge-nos como Vilhena a pôs no mundo, sendo de apreciar o cuidado da E-Primatur com as guardas ilustradas e o facto de ter optado por coligir a obra em cartonado com transfil e fitilho, algo inesperado numa obra de Vilhena, mas que calculo que o próprio teria gostado de fazer, se assim lhe tivesse sido permitido.

Pessoalmente gostaria que a autobiografia, a introdução e as folhas de rosto tivessem mantido uma linha gráfica similar ao resto do livro, optando-se pela mesma fonte, apesar de compreender que a editora terá pretendido manter o seu registo habitual e fazer a diferença entre facsímile e conteúdos novos de forma clara e inteligível.

A produção não tem problemas a registar, excepto um ligeiríssimo desacerto na guilhotinagem da guarda (algo que deverá apenas ocorrer em alguns dos livros), o que é mesmo uma coisa de picuinhas e não interessa a ninguém.

Acima de tudo, este livro presta um serviço público a uma das mais interessantes personagens do século XX português, um autor, ilustrador, e editor com todas as letras a que tem direito, que influenciou toda uma estética de humor e de ilustração e que vê, neste livro, uma muito, mas mesmo muito justa homenagem.

Deixo igualmente a nota que esta é uma crítica especial. Desde logo porque critico uma obra de um colega não só de profissão, mas também de blog, o que fará com que ele possa ir lá apagar o post caso não goste, para além de me colocar a jeito para vir ele criticar os meus.

Nuno Seabra Lopes, editor e consultor editorial

11/13/2015

Crítica Editorial

Desta feita o crítico sou eu.

Ou melhor, a partir desta data, e com uma periodicidade na pior das hipóteses quinzenal, farei uma coluna de crítica de livros do ponto de vista editorial. Nada de falar sobre autores e enredos, coisas do âmbito da crítica literária: eu, é mais livros.

Mas acima de tudo, criticar edição não é dizer que se sabe fazer melhor. Como editor percebo melhor do que ninguém as contingências da profissão e as dificuldades dos colegas (excesso de trabalho, hierarquia de relações com outros departamentos e autores, etc., etc.) que concorrem para que, por vezes, algumas coisas corram menos bem. Todos erram, eu também erro.

No entanto, editar é uma arte maior que merece a atenção de uma crítica especializada, e ao analisarmos o trabalho efectuado estamos a informar o público e a ajudar a criar critérios que definam o que é um bom trabalho editorial. Estamos, igualmente, a dignificar uma profissão que não merece ficar escondida por detrás do trabalho do autor.

Assim sendo, do editing à revisão, da tradução à ilustração, dos materiais à produção, passando pelo design e pela estratégia comercial e de promoção, tudo deverá ser alvo de um olhar atento.

Por fim, refira-se que uma crítica tem sempre algo de opinião e visão do próprio. Aquilo que eu observo como um defeito pode, por vezes, ser analisado de forma contrária e até comprovada com mais certeza, pelo que o contraditório é sempre interessante. Afinal, nada é mais científico do que a crítica, a economia e a meteorologia.

Espero que gostem.
Nuno Seabra Lopes

4/22/2013

5 Livros que Mudaram a Edição

Se acham que vou falar dos livros do José António Saraiva, da Bíblia de Gutenberg ou das 95 teses de João Calvino estão muito enganados. No seu tempo estes livros mudaram o mundo e, também, a edição, mas nada que se compare com estás pérolas editoriais, responsáveis pela mais recentes mudanças no mundo da edição. Senão vejamos:

Série Harry Potter
Se achavam que os mais jovens não eram capazes de ler livros sem imagens e com mais de 50 páginas, estavam enganados. Numa geração plenamente envolvida nas tecnologias a série Harry Potter provou que esta categoria tinha um potencial assombroso, tornando-se também um dos maiores sucessos de cross platform publishing, liderando uma série de outros livros que viraram mega-produções cinematográficas (não falo de livros que viraram filmes, mas livros e filmes nascidos de um mesmo projeto).

A Cabana (The Shack)
Se Tristam Shandy e vários outros livros posteriores foram publicados em auto-edição (com sucesso), isso não significou que alguma coisa tivesse mudado. Nem mudou quando Eragon saiu primeiro em auto-edição, antes de ser publicado pela Knopf. Mas quando o livro canadiano de auto-edição A Cabana, de William P. Young chegou ao top do NYT com mais de um milhão de livros vendidos, as coisas mudaram e percebeu-se que não era obrigatório ter-se uma editora para alcançar o sucesso.

A Sangue Frio (In Cold Blod)
Truman Capote tinha consciência de estar a fazer algo de novo quando decidiu usar técnicas narrativas para contar uma história real, fruto de um longo trabalho jornalístico. O modelo, que mistura competência de escrita e realidade, tinha tudo para ser um sucesso. No fundo, nada é mais incrível do que a realidade.

Dádivas do Mar (Gifts from the Sea)
Se a auto-ajuda é o que é, muito se deve a Anne Morrow Lindbergh, heroína da América, esposa do herói Charles Lindbergh e mãe do mais famoso bebé raptado e assassinado da história da América. Com esse currículo, Anne estava no lugar ideal para, junto à praia, pensar na vida e criar o primeiro grande sucesso de auto-ajuda na história da edição.

His Family
Se hoje ninguém sabe quem foi Ernest C. Poole, é porque alguma justiça se fez no mundo. Vencedor do Pulitzer no ano de 1918, mostrou ao mundo que a qualidade e a originalidade não são argumentos para se ter sucesso ou ganhar prémios importantes. Tendo derrotado autores como John dos Passos, Hemingway, Faulkner, Fitzgerald ou Miller, Poole simplesmente plagiava o estilo de autores consagrados, criando narrativas «simples» de ler e agradáveis ao público (habituados a mais do mesmo). Desde então, o fenómeno nunca mais parou.

E não, o 50 Sombras de Grey ainda não tem espaço para figurar neste grupo.

Nuno Seabra Lopes