Blogue coletivo dos principais especialistas do livro em Portugal - o think tank do livro
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8/08/2015
Quem corre por gosto... merece ser rasteirado.
Um dos problemas das sociedades mediterrânicas modernas e cujas origens não cumpre aqui averiguar, está na carga negativa que damos ao trabalho, ao rigor e à disciplina. Com efeito e ao contrário das sociedades protestantes, atribuímos ao trabalho uma carga de castigo que está patente, por exemplo, quando se vê uma pessoa a falar com uma criança "E já andas na escola? Coitadinho...". Bem como o habitual: "se me sair o euromilhões nunca mais faço nada."
Mais do que qualquer coisa, esta posição cultural está na base da nossa falta de produtividade.
Mas do que eu queria falar é de como essa forma de ver o mundo aliada a uma típica falta de cultura que desemboca numa inveja agressiva resulta quando se é confrontado com alguém que trabalha numa indústria cultural.
"Ah mas tu fazes aquilo de que gostas, não te queixes."
Quem trabalha nas áreas criativas sabe perfeitamente que é visto assim e que é essa postura que dita situações clássicas como os típicos atrasos nos pagamentos, incumprimento das condições acordadas, etc. Afinal nós, "os criativos", somos artistas e os artistas comem a sua arte ("ainda por cima os sacanas têm prazer em fazer o que fazem, mas hão-de lhes morder hão...").
Faz-me lembrar uma história passada por Michael Korda num livro que neste blogue recenseei. Resumindo a história com a preguiça de confirmar nomes e dadas de um Sábado de Agosto, um multimilionário comprou uma grande editora clássica norte-americana incorporando-a no seu império de multimédia, indústria e muito mais.
Passado uns meses o dito milionário visita pela primeira vez a editora e é recebido pelo director geral numa sala de reuniões que abre numa vista panorâmica para os corredores onde trabalham os assistentes editoriais na leitura de obras, sua revisão e anotação.
Enquanto o director geral vai descrevendo os sucessos da editora repara que o milionário está cada vez mais nervoso e irritadiço. Em vez dos sucessos editoriais e prémios, decide mudar o seu discurso e falar do crescimento financeiro da editora mas o milionário não dá sinais de acalmar, pelo contrário, mexe-se na cadeira, olha para todos os lados bufa...
O director geral começa a ficar também ele nervoso e fala dos planos de crescimento, das possibilidades de articulação com outras empresas da corporação sem sucesso: o milionário passa por várias cores e de repente levanta-se e abre a porta berrando para o corredor dos assistentes "Quando é que param de ler e começam a trabalhar????".
Outro dos clássicos para este tipo de situação é o famoso anúncio e resposta aqui reproduzidos.
Engraçado nesta situação é que não era bem sobre isto que eu queria escrever.
Quero hoje escrever sobre o tempo enquanto necessidade fundamental para um trabalho importante na área do livro. Recebo centenas de newsletters de editoras e livrarias pequenas e grandes um pouco de todo o mundo e um factor comum, então nesta época de Verão, é verificar como as newsletters chegam com recensões e recomendações de grande qualidade.
Das editoras chegam as sugestões de toda a equipe, dos editores aos comerciais, dos financeiros aos empregados da limpeza. nas livrarias todos os livreiros fazem as suas sugestões.
Lá fora, sobretudo no meio anglófono parece que já se acordou para essa noção de orgulho no trabalho e para a noção de quem trabalha na área dos livros, seja directa ou indirectamente, deve ter interesse directo no produto.
Nós por cá com a nossa notável capacidade de planear trabalho, de organizar empresas, de estrategicamente as projectar no futuro, temos outro ponto de vista. As editoras contratam assistentes editoriais que, o destino assim o dita, se não desistirem pelo caminho, serão os editores de amanhã mas não os formamos como leitores. Um assistente editorial é um escravo sem horários que leva pilhas de trabalho para casa. Tem ele tempo para sequer se inteirar do que se passa no mundo da edição, ler o que "está a dar" na sua área de trabalho, ganhar cultura geral, acumular leituras que lhe permitam mais adiante ser um editor de sucesso? Já não falo sequer de tempo para irem às livrarias ouvir o que os leitores comentam sobre os livros, perceber porque escolhem o título X e não o Y, porque preferem uma capa e não outra...
Para já não dizer que dentro de empresas de dimensão média para grande é entendido que o editor (quanto mais o assistente editorial) não tem nada que saber esse tipo de coisas uma vez que é "criativo", do mercado sabem os comerciais e os directores de marca (que curiosamente raramente lêem e quando o fazem, não é por prazer mas por obrigação).
Depois editores e assistentes apresentam os seus planos editoriais que são decididos pelos financeiros em função de dados que os primeiros não têm como recolher e os segundos não sabem interpretar.
Mas alguém na cúpula acha que assim é que se corrige o problema que as editoras sempre tiveram e "por isso não davam lucro". Nunca lhes ocorreu que a os públicos culturais são voláteis e que os únicos que são fidelizáveis são aqueles cujos números não importam aos financeiros porque não pesam o suficiente para serem significativos.
É também por esse motivo que uma qualquer grande editora não contempla oferecer os seus livros aos seus funcionários que, gostando de livros, seriam certamente os seus maiores promotores. Numa das editoras onde trabalhei achou-se que não fazia sentido oferecer livros a tradutores e revisores. Não se percebe que um profissional que tenha trabalhado num livro tem orgulho na obra para a qual contribuiu e que a recomendará. não se percebe que num meio pequeno como é o dos leitores em Portugal todos se conhecem uns aos outros e os círculos de influência se intersectam. Os amigos de um tradutor são geralmente gente que gosta de livros.
Em várias editoras de grande dimensão, se um funcionário pretende comprar um livro e se procura inteirar sobre condições para o fazer parece que caiu um meteorito. Que coisa inaudita!! Um funcionário que quer ler um livro nosso? Estabelece-se uma política à pressa e que passa pelo "vamos é aproveitar para vender e ganhar mais uns cobres". Faz-se ao funcionário um desconto ligeiro e o funcionário fica a pensar "Bando de fuinhas, fazem descontos comerciais às livrarias muitas vezes acima dos 50% e a mim apenas isto!?"
O que custa em tudo isto é o retorcido dos processos mentais que estão por trás de cada acção ou inacção, de cada medida ou decisão.
"Como é que se pode lidar com esta gente estranha que gosta do que faz? Que mandriam o dia todo enquanto nós estamos para aqui a fazer contas que detestamos. Ainda por cima os patós acham que fazemos bons livros..."
Numa indústria que funciona assim não se percebe que um assistente editorial ou um livreiro serão muito melhores profissionais se tiverem tempo para ler, por exemplo.
Este diálogo de surdos não vai ter respostas e nunca resultará em sucesso porque o latino é vingativo e uma situação de desequilíbrio dá lugar a feudos de proporções sicilianas.
Nenhuma das facções vai alguma vez estar satisfeita. Nenhuma fará concessões à outra.
Quem compra livros por gosto (a maior parte das compras fora do segmento escolar) seja esse gosto directo - "eu gosto deste livro" - ou indirecto - "eu gosto de economia e portanto compro um livro sobre a área" - ; tem de ser atendido ou fornecido por quem percebe de gostos. Um editor tem que saber fazer livros mas acima de tudo tem de saber fazer os livros que vão interessar a um determinado segmento, isso implica conhecer esse segmento (seja ele de 500 leitores, 50 ou 500.000). Um editor tem de ser um especialista nos hábitos e gostos do seu público.
Isso cultiva-se cultivando os gostos pessoais e interagindo com as comunidades de leitores. Não se desenvolve num escritório analisando números num excel.
As indústrias culturais são indústrias do gosto e do hedonismo. directo ou muito indirecto. Enquanto as indústrias culturais entre nós não perceberem isso (e não há sinais de que o venham a perceber) os públicos vão continuar a desaparecer e o futuro vai ser negro pela ausência de mercado e a incapacidade de formação contemporânea dos futuros agentes do sector.
Como será possível explicar a um gestor ou financeiro que detesta o seu trabalho e o seu produto e inveja os subordinados que fazem o que gostam, que a estratégia de uma indústria cultural tem de passar por processos formativos de públicos muitas vezes com sacrifícios financeiros que resultarão em sucessos futuros.
Há um conjunto de modelos de negócio no universo anglo-germanófilo nas áreas culturais e em particular na área do livro que têm ditado mudanças muito interessantes em tempos recentes e que passam precisamente por essa percepção. Há pouco menos de um mês um dos anúncios do Publishers Weekly era para um director financeiro e estratégico de um dos maiores grupos mundiais e uma característica sine qua non requerida era paixão por livros e leitura.
Nós por cá estamos a séculos de distância disto.
No entanto em 1976 a UNESCO definia a figura do gestor cultural e os atributos de tal função recomendando formação específica para estes no objectivo de salvaguardar as indústrias culturais no nosso mundo em mudança.
Da mesma forma como no mundo das indústrias culturais nem tudo é o gosto (embora o essencial seja) e o prazer, também não se pode reduzir tudo ao prisma eco-financeiro.
Economicamente isto é um paradoxo de utilidade: quer então dizer que em áreas que dão sempre pouco dinheiro é que precisamos de colocar os nossos directores mais habilitados e polivalentes?? Ai isso é que não, e se eles começam a gostar do trabalho, os sacanas?
8/27/2013
'Amazonificação', Grupos Editoriais e Espírito do Livro
O tempo de férias foi
propício à reflexão sobre importantes notícias que, mais uma vez, agitam as
águas do mundo editorial deixando perceber que estão em curso novas
transformações relevantes, e com implicações que não podem deixar de nos
inquietar. Para simplificação de raciocínio, centro-me nas informações que vão
chegando sobre os movimentos que se registam no universo Amazon, e naqueles que a partir da fusão entre a Penguin e a Random House se perspectivam
no domínio dos grandes conglomerados editoriais.
As posições críticas que tenho manifestado relativamente à
entrada de empresas tecnológicas (Amazon, Apple, Google) no mercado do livro,
nomeadamente ao afirmar que estamos perante “… a intrusão de novos players que, estando no negócio
editorial e livreiro, não estão no mercado da cultura…”, estão necessariamente
presentes nas minhas apreensões relativamente ao futuro da leitura,
independentemente do suporte físico que venha a predominar - impresso ou
digital.
Neste contexto, não me
surpreendem os artigos e notícias sobre a Amazon que surgiram nas últimas
semanas: «New Amazon Patent Seeks to Add “DVD Extras” to eBooks» (artigo de
5/7/2013, publicado por Dean Fetzer em http://litreactor.com/);
«Monopoly achieved: An invincible Amazon
begins raising prices» (artigo de 8/7/2013, publicado por Alex Shepphard em
http://www.mhpbooks.com/); e «Washington Post vendido ao fundador da
Amazon» (notícia de 5/8/2013, em http://www.publico.pt).
Tudo se encaixa numa estratégia da Amazon, que oportunamente considerei
“…de promoção e liderança da edição digital, que lhe seria bastante mais
rentável do que o logisticamente complexo e oneroso comércio electrónico de
livros impressos”. No entanto, o bem-sucedido desenvolvimento de conteúdos
editoriais próprios e o estabelecimento de parcerias com editores de referência,
associado ao encerramento de prestigiadas livrarias independentes e ao desmantelamento
de importantes cadeias de livrarias, fazem crer que a Amazon pretende ir mais
longe na sua estratégia e constituir-se como temível candidato à liderança do
mercado editorial e livreiro, também no domínio do livro impresso.
À luz desta evolução, compreende-se
melhor o porquê dos grandes movimentos de concentração iniciados com a fusão
Penguin-Random House, à qual, conforme «This
is what the publishing industry will look like if the Big Six become the Big
Four» (artigo de 20/11/2012, publicado por Zachary M. Seward em http://qz.com/), se poderá seguir a consolidação entre
os já de si gigantes HarperCollins-Simon & Schuster, e vir mesmo a provocar
a reacção da Hachette e uma subsequente passagem a Big Three. As consequências
não se limitarão aos efeitos referidos em «The Victims of the Penguin &
Random House Merger: Literary Agents» (artigo de 27-11-2012, publicado por Ella
Delany em http://www.thedailybeast.com/).
Estamos perante o contra-ataque dos grandes grupos editoriais,
legítimo, mas tendente a agravar a já de si desequilibrada relação de poder
face aos editores independentes; são também evidentes os riscos de a edição literária
sofrer uma ainda maior degradação em favor do predomínio de bestsellers de literatura ligeira, e de a
diversificação e pluralidade da oferta se verem substancialmente reduzidas. O cenário apresenta-se
pouco risonho. O que não é novidade. Nos cinco séculos de vida da palavra
impressa, têm sido muitas as ameaças de sobrevivência consideradas fatais para
o futuro do livro e da leitura, incluindo a antevisão feita há uma centena de
anos anunciando que… a então aparecida bicicleta ditaria a morte do livro!
Mas o livro tem uma
magia especial. Citando Padre António Vieira: “O livro é um mudo que fala, um
surdo que responde, um cego que guia, um morto que vive”. E lembrando palavras
proferidas por José Saramago em Outubro de 1995: “É do leitor que todos nós
dependemos e crise, se houver, é da leitura. Só há crise da leitura se houver
crise de curiosidade, se o ser humano se transformar num ser sem essa espécie
de «bexiga incómoda» que é a curiosidade que nos vai levar a saber um pouco
mais do que aquilo que sabíamos.”
Na conjugação destas
duas citações, encontro o ‘espírito do livro’. É aqui que vejo o potencial de resposta
aos desafios que antes enunciei. Acredito que a curiosidade humana é
inesgotável e a cultura da palavra escrita permanece viva nos leitores,
autores, editores e em todos quantos vivem no mundo dos livros. Estou convicto
que, nesta guerra sem quartel, sairão vencedores os que melhor interiorizarem a
aventura que cada livro constitui. Não forçosamente os maiores, mas os
melhores.
Duvido que a
‘amazonificação’ prevaleça, acredito no sucesso de grupos editoriais que
integrem e respeitem os valores do livro, e estou convicto que se manterá a
importância de editores independentes que tenham arte, e competência, para
fazer valer uma relação personalizada com autores de relevo, em simultâneo com
critérios editoriais de excelência, chancelas de prestígio, comunicação eficaz,
uso apropriado das potencialidades digitais, e partilha efectiva de serviços
logístico-administrativos.
6/19/2013
Gestão da 'mercadoria cultural' livro
Tenho andado a puxar pela cabeça e a tentar recordar quando
foi que li The business of the book pela
primeira vez. Imagino que tenha sido na época em que frequentava o curso de
especialização em técnicas editoriais na FLUL mas não consigo recordar as
circunstâncias particulares ou quem mo emprestou na versão inglesa há mais de 10 anos.
Naquela altura o livro serviu-me unicamente para perceber o
que acontecia lá fora. Por cá, apesar de já ter havido algumas tentativas e a
chegada de alguns capitais estrangeiros, estava ainda para chegar o tempo das
concentrações. O livro deu-me, sobretudo, bases de pensamento sobre a edição e
aquilo que queria fazer.
Recentemente, tendo saído a primeira tradução portuguesa, de
forma tardia mas em termos contextuais, no que ao nosso país concerne, na altura certa, reli o livro na
tradução portuguesa e o efeito foi outro. Se quando li o livro pela primeira
vez eu tinha ainda uma experiência limitada a alguns meses de assistente editorial,
agora tenho uns 13 anos de trabalho como editor quer em pequenas editoras quer
num grande grupo, isto para além de ter podido privar ao longo dos anos com
profissionais das mais diversas áreas e que trabalham, também
eles, em pequenas, médias e grandes editoras e grupos editoriais. O efeito
desta leitura foi estonteante.
Ainda antes de falar sobre a questão que quero aqui abordar,
fica de novo a recomendação entretanto já muito repetida, da leitura deste
livro para qualquer pessoa que queira saber a lógica e os mecanismos que ditam
a oferta cultural. Apesar de o livro se centrar na questão do livro (como também os
primeiros capítulos do seu mais recente Words
& Money, Verso, 2010), é fácil extrapolar essa leitura a quase todas as
denominadas indústrias culturais.
Aquilo que quero realçar é sobretudo a análise dos processos
de concentração mas sobretudo dos modelos de gestão aplicados a esses grandes
grupos.
Nos anos 70, num congresso da UNESCO foi definido que o
livro deveria ser considerado como uma “mercadoria cultural”. Esta definição
pressupunha um entendimento de que quem gere uma empresa editora tem de ter
formação em gestão mas não pode ser um gestor tout court. Tem de ter também uma
formação cultural. Aquilo que se procurava transmitir era a necessidade de
formação específica para os gestores das indústrias culturais. E que, mais do
que em qualquer outra área, deveriam trabalhar nas empresas editoras apenas os
gestores com gosto para o produto e com conhecimento específico do mercado.
A. Schiffrin faz em O
negócio dos livros uma análise da evolução do mercado americano e em
particular dos processos de concentração que o mesmo sofreu ao longo do século
XX. As últimas conclusões e as impressões que deixa no final do livro
comprova-as, dez anos transactos, nos primeiros capítulos do seu mais recente
título (o já referido Words & Money).
Aquilo sobre o que irei falar será uma abordagem muito
condensada dessa análise feita por Schiffrin e que, de forma alguma, dispensa a
leitura do livro. Não farei grandes paralelos com a situação portuguesa por
vários motivos entre os quais estão o facto da diferença na dimensão do
mercado, a diferença nos hábitos de consumo e sobretudo do tratamento dado
pelos leitores ao livro e a própria natureza diversa entre os grupos/pessoas
responsáveis pelos processos de concentração cá e lá. O que me interessa
focar é o que se passa no interior das empresas após os processos de
concentração, ou seja, os efeitos concretos que os modelos de gestão aplicados
produzem, esses sim geralmente semelhantes em qualquer parte do mundo.
Dessa forma o que se segue é um resumo despido de outros dados e
simplificado (mas não distorcido) que se centra nesta perspectiva. Por outro
lado cumpre frisar novamente que estou a sintetizar o que Schiffrin diz sobre o
mercado americano e que apesar de haver linhas gerais que tocam o mercado
português (cujos paralelos e diferenças focarei brevemente mais adiante) e outros, nem
tudo decorre da mesma forma ou pelos mesmos motivos.
Vejamos então o que nos relata Schiffrin:
Quando uma editora é comprada para integrar (ou formar com
outras) um grupo, isso acontece porque essa editora tem uma boa reputação no
mercado (independentemente da sua situação financeira). Paralelamente a este
motivo só há mais dois possíveis: erro e ou troca de favores.
Ainda assim, a generalidade das editoras adquiridas têm uma
saúde financeira suficiente para se ir mantendo. Os editores e gestores das
firmas iniciais estão nelas geralmente por gosto (e isto é tão mais verdade
quanto mais próxima a empresa estiver dos seus fundadores). Quem trabalha em
editoras que são criadas para serem editoras, tem intenções, tem projectos e tem
concepções próprias. Não se está nem se vai para a edição para ficar rico. Há
muitas áreas em que isso é infinitamente mais fácil. Não, quem vai para uma
editora ou quem cria uma editora, fá-lo para fazer a diferença ou, pura e
simplesmente, por gosto.
A maior parte das editoras, até como estratégia de
sobrevivência, cria linhas editoriais (ou chancelas ou submarcas) para publicar
títulos que lhes permitem o encaixe financeiro para publicar aquilo que nas estratégias,
projectos, intenções e concepções que definem a identidade de cada editora, é o
núcleo identitário da referida editora.
Incorporada num grande grupo, uma editora vê, em primeiro
lugar serem-lhe impostos desde logo objectivos anuais de lucro e crescimento
(duas coisas diversas)geralmente superiores a 15% (normalmente na mesma
proporção dos lucros esperados por outras áreas de negócio dentro dos grandes
grupos – no caso dos EUA, das corporações de multimédia). Ora estes objectivos
não são possíveis junto do mercado do livro. E não são possíveis porque, na mais
optimista das hipóteses, o mercado estará estagnado em termos de número de
leitores sendo que o mais provável é que tenda a decrescer.
Por outro lado – então no mercado americano! – o livro
digital reduz drásticamente o encaixe financeiro das editoras (nem sequer
tocarei na questão da facilidade da pirataria que continua a possibilitar que
qualquer e-book esteja geralmente pirateado na internet no máximo 1 mês após a
sua publicação). [Schiffrin apenas aborda esta questão ao de leve em Words & Money.]
Os gestores dos grupos adquirentes impõem estas metas (e
muitas outras detalhadas no livro) porque ao tomarem conta das contas de uma
editora percebem a gestão anterior como caótica e desorganizada [há gestores
que mesmo após anos nunca chegam a perceber a mecânica financeira das
colocações/vendas/devoluções]. A sua percepção é que com uma gestão linear e “profissional”,
aquela empresa que tinha boa reputação e até poderia ter algum lucro, poderá ir
bem mais longe. Então se esse crescimento e lucro de pelo menos 15% acontece
com outras áreas de negócio em que o grupo está envolvido, porque não também
ali?
Claro que aí, a sua análise procura logo e de imediato a
rentabilização: essa passa por processos muito “standardizados”:
- Eliminação dos fundos de catálogo (sem terem a percepção que
são as vendas regulares de poucos exemplares dessas centenas ou milhares de
títulos que garantem o cash flow regular de uma editora e que são esses títulos
que definem a identidade da editora)
- Redução do pessoal (para quê ter um editor por área quando
há áreas tão próximas? Jardinagem e Culinária não são quase a mesma coisa? Mais
uma vez se destrói a identidade das linhas editoriais)
- Centralização de recursos (por exemplo serviço de
encomendas. Despersonalizando a relação com o cliente sob o pretexto de o
personalizar “melhor”)
- Aquisição de mais editoras (afinal se o número de leitores
e portanto a dimensão do mercado não são elásticos e pelo contrário tendem a
diminuir e face à perda de identidade da editora a dispersar o seu interesse
por outras editoras, a única forma de alcançar os objectivos de crescimento, é
a aquisição)
- Aumento do salário dos gestores e directores e criação de
bónus por objectivos de vendas (afinal se o número do pessoal é cada vez menor
e se se está a exigir a muitas dessas pessoas que produzam resultados que nunca
produziram na vida, devem ser remuneradas em função das exigência. Aqui convirá
ressalvar que lá como cá, quem trabalha na edição por gosto pouco ou nada
recebe. Schiffrin conta como após cada aquisição os directores e gestores
passaram a auferir salários equivalentes aos de gestores e directores nas
outras empresas do grupo de áreas totalmente diferentes)
- Fixação de objectivos comerciais título a título (os
livros já não podem ser publicados em função de uma estratégia: um editor não
pode já justificar que está a fazer 3 títulos comerciais para que haja margem
de manobra para fazer “aquele” título que vai perder dinheiro – no entanto
esses gestores quando questionados sobre que tipo de livros é que a sua editora
publica em festas ou eventos sociais e culturais, mencionam sempre os autores de
prestígio contra cujas projecções de vendas vociferam nas reuniões de discussão
de planos)
- Fixação de metas temporais para a concretização de
objectivos financeiros por livro (nenhum livro que não tenha resultaodos
positivos num ano é sequer considerado. Reparem agora que tipo de livros é que
esta situação elimina à partida:
- Livros cujos custos de produção
tornam a primeira edição praticamente não-lucrativa, mesmo que depois se possa
estimar que o livro em edições seguintes consiga render milhões
- Qualquer tipo de livros cujas
vendas possam mesmo ser excelentes mas cujos resultados estimados de vendas se
diluam ao longo dos anos (ou seja não adiantará nada um editor dizer: “este
livro é semelhante ao livro Z do nosso catálogo que em 10 anos vendeu 200.000
exemplares” quando a expectativa é que o livro não venda mais do que XXXX
exemplares no primeiro ano)
- Novos autores (impossíveis de
projectar)
- Novos tipos de livro / novas
experiências literárias / obras diferentes de tudo quanto está disponível no
mercado (i.e. leia-se, a evolução da literatura; impossíveis de estimar)
Após estes e alguns outros processos-tipo há duas
possibilidades para o grupo detentor da empresa:
a) A venda imediata de um concentrado de editoras com um valor de mercado muito superior (mas cujo volume de negócios tende a cair), um grupo de editoras totalmente descaracterizado e com uma estrutura interna a funcionar nos limites da sua capacidade e portanto muito leve
b) A manutenção do concentrado de empresas no grupo o que leva em poucos anos a grandes perdas de valor de mercado porque os factores acima indicados tornam-se demasiado evidentes para o mercado.
E a consequência natural são despedimentos em massa, reformulação dos modelos de organização e dos catálogos com vista a fixarem-se unicamente nos best-sellers.
Claro que um processo semelhante passa-se do outro lado da
barricada, nas livrarias. Em conjunto estas evoluções levam à criação de um
mercado que se auto-alimenta das ilusões dos gestores e é totalmente cego e
surdo aos compradores.
O mercado resultante destas transformações é um mercado
homógeno, com uma oferta homógena que vive de estatísticas tão facilmente
pervertidas como isto: se os destaques nas montras e bancadas de destaque das
livrarias são sempre para livros to tipo Y que acaba por ter um destaque de
mercado percentualmente bem acima de qualquer outro tipo, as estatísticas
naturalmente revelam que o público compra mais livros do tipo Y.
Ao fim de toda esta transformação – que é bem mais rápida do
que aquilo que as pessoas pensam – o mercado perdeu toda e qualquer
diversidade, o grosso de leitores passa a ser “formatado” pela oferta “formatada”
e quem lhe resiste tem de se deslocar a livrarias alternativas – que a cada dia
desaparecem porque são esmagadas pelas grandes editoras e grandes grupos
livreiros – no sentido de comprar livros alternativos.
O resultado a longo curso tem um elevadíssimo peso social:
mata-se o público da diversidade e forma-se um público da homogenia e do
facilitismo.
André Schiffrin reclama para si e para quem vê como ele
estas evoluções do mercado a necessidade de intervir a bem da sociedade. E
sobre esse ponto já neste blogue o João Carlos Alvim e eu nos manifestámos.
O caso português poucas diferenças tem no que toca ao modelo
de gestão. As diferenças estão em que as livrarias e editoras quando
adquiridas, geralmente são-no porque têm péssima saúde financeira derivada de
motivos já sobejamente abordados neste blogue. Os grupos adquirentes não são
gigantes com investimento em áreas muito diversas (os poucos que existem neste
país não querem de todo envolver-se nas indústrias culturais. Fora estas
pequenas diferenças e umas poucas mais, em tudo o resto a situação é igual.
Os dados revelados por André Schiffrin neste seu livro bem
como em Words & Money levam à
constatação que apenas o procedimento a) acima
descrito e mesmo aí só nalguns casos, permite que o investidor ganhe dinheiro.
Não pela venda ou produção de produtos (livros), de prestígio ou qualquer outro
factor; ganha dinheiro comprando e vendendo empresas que entretanto
despersonalizou, estripou e vulgarizou.
Schiffrin apresenta algumas propostas de solução em O negócio dos livros como mais tarde
em Words & Money, mas, essas sim,
são propostas que passam muito pela realidade americana ou pela realidade de
países com dimensão de mercado que permite a sua concretização. Mesmo quando
aborda a alternativa norueguesa, não podemos pensar na sua aplicabilidade para
Portugal porque o grosso da população norueguesa lê regularmente livros o que
faz com que, mesmo tendo uma população bastante inferior à portuguesa, a
dimensão do seu mercado do livro seja muito maior do que a nossa.
Talvez seja chegada a altura de se começar a discutir as
soluções para a edição nosso país e pensar em modelos próprios assentes na
obrigação que todos os que trabalham no sector devem sentir, de formar novos
leitores. Claro que quem é gestor numa editora mas no mês seguinte pode estar a
gerir uma fábrica de condutores eléctricos, não sente a pressão de encontrar
soluções. Ainda assim fica, mais uma vez que já o venho afirmando desde há
anos, o desafio.
[Por último os parabéns à Letra Livre pela edição do livro.
Comprei-o e tenho vindo a recomendar amiúde. Parabéns ao Vítor Silva Tavares
pelo excelente prefácio. Aos tradutores por uma tradução quase perfeita,
malgrait a habitual confusão entre 'reedição' e 'reimpressão' que torna algumas
frases difíceis e um tau-tau na
paginação. Se estou a ser rigoroso é porque o livro o merece. Até o Vítor Silva
Tavares trocou um 'ó' por um 'oh'. E eu, no texto acima, devo ter-me fartado de
dar calinadas. Assim dói a todos.]
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