Blogue coletivo dos principais especialistas do livro em Portugal - o think tank do livro
Mostrar mensagens com a etiqueta Autores. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Autores. Mostrar todas as mensagens
11/06/2013
Plataformas de submissão de originais – o LitFactor
Aquilo que um candidato a autor publicado mais receia é que o seu original seja ignorado entre os outros que todos os dias inundam editoras e agentes literários. A coisa que os agentes literários e as editoras mais detestam é receber originais que não têm nada que ver com a sua linha editorial. Surge então a pertinência de uma nova plataforma digital que pretende facilitar todo este processo de conectar autores com os agentes certos – o litFactor.
A ideia é interessante e o sistema parece simples: basta o autor registar-se e começar a procurar. Se não tiver qualquer conhecimento sobre agências, pode procurar por tema, como por exemplo ficção, não-ficção, fantasia, infantil. Surge então uma lista de todas as agências que trabalham com livros de determinado género e que estão a aceitar submissões. Depois basta adicionar as agências aos seus favoritos, consultar os requisitos para envio de originais, fazer o upload da carta de apresentação e dos primeiros capítulos da obra ou a obra inteira, enviar e aguardar. Qualquer comunicação é sempre feita através do alerta de mensagens do perfil do escritor que tem possibilidade de partilhar a sua experiência com uma comunidade e de consultar uma página com recursos para escritores.
Existe um top de agentes e daqueles que estão mais ativos, ou seja, que dão mais respostas, suponho eu. Segundo uma sondagem feita no sítio, a média de tempo de espera por uma resposta tem sido de um a três meses, mas há quem seja mais célere e responda numa questão de semanas, porém o mais provável é ter de aguardar mais do que três meses. Creio que para autores que não sejam de língua inglesa, nomeadamente de língua portuguesa, as opções ainda são muito limitadas, se não inexistentes. Por curiosidade, experimentei procurar pela agência portuguesa Bookoffice e não encontrei. Se por outro lado se aventurar a escrever em inglês, pode ser um bom veículo para tentar a internacionalização.
O melhor do avanço da internet é o facto de se criarem estas plataformas, cujo objetivo é pôr alguma ordem no caos e simplificar o acesso a coisas que antes eram inacessíveis. Todavia, pode ser contraproducente, caso a gestão de processos e de expectativas não seja bem feita. Ao mesmo tempo, transforma este tipo de contactos numa espécie de linha de produção fabril, quando se tratam de obras literárias e de escritores, enfim de produção cultural. Será interessante, pois, acompanhar a evolução deste e de outros sítios do género e o impacto que terão no marcado editorial a médio e longo prazo.
Catarina Araújo
5/22/2013
Descentralizar
Já muito se tem falado da descentralização da cultura, levando festivais e outros eventos literários para fora dos círculos do Porto e Lisboa.
Se nesse cenário a Póvoa (CdE) tem primazia, assim como o Funchal (FLM), Beja (Palavras Andarilhas) e Penafiel (Escritaria), assim como os (agora) diversos encontros livreiros (o Encontro-Livreiro, em Setúbal, na Culsete, e os seus spin-offs em Trás-os-Montes, cujo primeiro realizou-se na Traga-Mundos, em Vila-Real), devemos também juntar a esses dois outros eventos: Montemor-o-Novo e Lourinhã.
Em Montemor-o-Novo, na próxima sexta-feira e sábado (24 e 25 de Maio), poderão assistir às III Jornadas Literárias. Evento que conta com a presença de várias figuras conhecidas como Manuel Alegre, Pedro Mexia, Possidónio Cachapa e Miguel Real, entre vários outros.
Na Lourinhã temos a II Edição do Livros a Oeste, organizado pelo Município da Lourinhã e com João Morales, editor da extinta revista Os Meus Livros.
O Festival irá decorrer durante toda a próxima semana, de segunda-feira a sábado (27 de Maio a 1 de Junho) e conta com inúmeros autores, sendo que o melhor é mesmo consultar o programa através do blogue do festival.
Se nesse cenário a Póvoa (CdE) tem primazia, assim como o Funchal (FLM), Beja (Palavras Andarilhas) e Penafiel (Escritaria), assim como os (agora) diversos encontros livreiros (o Encontro-Livreiro, em Setúbal, na Culsete, e os seus spin-offs em Trás-os-Montes, cujo primeiro realizou-se na Traga-Mundos, em Vila-Real), devemos também juntar a esses dois outros eventos: Montemor-o-Novo e Lourinhã.
Em Montemor-o-Novo, na próxima sexta-feira e sábado (24 e 25 de Maio), poderão assistir às III Jornadas Literárias. Evento que conta com a presença de várias figuras conhecidas como Manuel Alegre, Pedro Mexia, Possidónio Cachapa e Miguel Real, entre vários outros.
Na Lourinhã temos a II Edição do Livros a Oeste, organizado pelo Município da Lourinhã e com João Morales, editor da extinta revista Os Meus Livros.
O Festival irá decorrer durante toda a próxima semana, de segunda-feira a sábado (27 de Maio a 1 de Junho) e conta com inúmeros autores, sendo que o melhor é mesmo consultar o programa através do blogue do festival.
5/17/2013
e-crítica
Instalação do Festival Literário de Sidney, do blog Justin Hill Author
A «Recherche» proustiana foi destroçada (em avaliação editorial para a NRF) pelo André Gide e vários outros casos fazem a história da crítica «ao lado», da incapacidade de ver e compreender algo que outros mais tarde o farão. Ocasional? Por vezes, também. Mas a crítica, por mais recursos e conhecimentos que se chamem à colação, será sempre um ato pessoal, uma opinião, uma visão impregnada de todas as virtudes, defeitos e características de quem o faz, da sua relação ou não com o fazedor ou a geração, grupo, proveniência, características, associações ou qualquer outra questão comezinha que possa intervir na avaliação exclusiva da obra.
Não há provas cegas de literatura (exceto em brincadeiras e com textos já conhecidos), nem as mesmas fazem sentido num campo interpretativo tão vasto como o da literatura. Ler é pessoal, é um percurso individual que nos molda o gosto. Depende da nossa vida, dos factos que nos afetam mais profundamente, dos temas e necessidades que tecem a nossa vida. Mas dão elementos importantes que ajudam à formulação de pontos mais ou menos pertinentes na história da escrita.
Com a morte da crítica abriu-se o espaço à pluralidade, à avaliação independente dos textos por estratos (onde todos são críticos e criadores), e muitos elementos de qualidade não são tidos em conta. Para uns o enredo pode não ser inovador, mas ele nunca leu nada igual e gosta, para outro o estilo pode ser genial, apesar de estar só a imitar outro escritor mais competente que nunca terá lido, por exemplo. Nada disso importa no novo mundo, na infoesfera. A qualidade é definida pela popularidade de quem fala, pela influência que essa pessoa tem no seu círc[ul]o particular. A pertinência morreu.
Provar que determinado texto é bom passa hoje pela presença constante em eventos e locais que «afirmem a popularidade», que «reforcem a influência», pela presença comunicacional e aumento da plataforma. À morte da crítica, se X aparece nos jornais, vai a festivais e encontros literários é automaticamente considerado bom − apesar de em nenhum lado se ter dito que o era, ou porquê −, entrando num circuito que agora também se apoia nele para se promover, no mesmo circuito de influência e popularidade.
A par com a morte da pertinência, dá-se a o surgimento de outros elementos acessórios típicos dos fenómenos de popularidade. A questão da novidade, do novo, do jovem, face ao conhecido, já visto e, independentemente da qualidade, sem capacidade de trazer o hype necessário a estes fenómenos. Chama-se a curiosidade e o desconhecido como espaço em potência para o crescimento. Se cresce muito, entra para o circuito, se não cresce, nada se perdeu, entrando na voragem dos dias.
Entre jovens e menos jovem existem grandes o pequenos escritores, será através da nossa competência de leitores que teremos de separar o trigo do joio.
Nuno Seabra Lopes
Etiquetas:
Autores,
crítica,
Nuno Seabra Lopes,
Opinião
5/13/2013
Transmissões de poder
Fonte: The Diabetics Corner Booth
2 - E qual é o lugar do escritor, ou melhor, qual era, ou seja, nesta dialéctica Babel de hoje/saudades de Sião, qual deve ser o lugar do escritor, para AG? Literalmente (palavras suas) o lugar do morto:
3 - «(...) o que dantes se chamava ‘escritor’, para quem a escrita começa quando o Autor entra no seu desaparecimento, na sua própria morte. (...) Agora trata-se exactamente do contrário: suprimir a escrita em proveito do Autor.»
4 - A mim, confesso que – enquanto autor vivo, ou não inteiramente morto – me faz espécie esta sorte de desqualificação que (em vida) nos é feita. Sei lá porquê, apetece-me continuar a escrever, a lutar por um lugar ao sol e, se possível, um lugar pago, premiado e bronzeado. Ao douradinho do Nobel já percebi que, snif, dificilmente chegarei, fui irremediavelmente ultrapassado no ranking, ou pior, nunca me qualifiquei sequer para um lugar perto da pole position. Não bastavam já as outras desqualificações, as do mercado, a das vizinhas da minha mãe, a da Colômbia, a dos prémios literários, as da Colóquio, do JL, da Ler (e, em breve, da Granta) que ora e ora me escapam?
5 - Mas oiçamos Guerreiro, que apesar de cruel merece ser ouvisto: «A figura de José Luís Peixoto neste cartaz publicitário deve chamar-nos a atenção para uma transformação da instituição literária (...)»
6 - Pessoalmente, não simpatizo demasiado com o alvo de AG (o prazer é mútuo, diga-se) nem me desagrada a ensaboadela que o plumitivo (e há quantos anos eu queria usar esta palavra) lhe faz. Mas como gosto de me imaginar capaz de, antiportuguesmente, superar as minhas irritações pessoais e enfrentar a questão, a pergunta que faço, a mim e a quem esteja a ler estas linhas (apesar dos irritantes parênteses, eu sei, já me tentei curar, mas o médico disse que é congénito), é a seguinte: AG tem razão? Nem digo muita ou pouca, digo: alguma?
7 - Há bocado falei de lugar – ranking, pole positions e tudo – usei de propósito termos anglófonos para dar um ar mais científico. É que é precisamente de lugar que AG está a falar, não de literatura. Ou seja, ele não foi ver se os contos do visado valem ou não a pena – suponho que nem sequer considera a hipótese, e, bom crítico, não lê para não ser contaminado, poderia perder a objectividade, o palato, sei lá)
8 - AG está a fala do tema que o comove, que é o da legitimação em literatura. E repega os resquícios de uma ideia que repete em outros textos mas de que neste apenas há um fumo: o autor desvaloriza-se (ou devia desvalorizar-se, se AG mandasse) na directa proporção em que se «suja» no circo mediático. Na verdade, o autor só poderia ser legitimado por – como outrora – uma comissão de sábios. Mas, na verdade, essa comissão de sábios não chegaria (não chega nunca): teria de ser a comissão de sábios com a qual o sábio que diz «eu» (ser AG ou EPC ou Gaspar Simões ou Zé dos Anzóis vai a dar no mesmo, o importante aqui é o pronome pessoal, «EU») concorde. uma comissão de sábios que o sábio que diz eu... aprove.
9 - Por falar nisso, António Guerreiro e Eduardo Prado Coelho discordavam amiúde. Pelo que não integrariam nunca a mesma comissão de sábios. Ainda me lembro de uma polémica, mais a dar para a conversa de surdos, onde cada um desafiava o outro a vir discutir para a sua rua, se era homem. (A rua de Eduardo sendo a literatura francesa século XX, a de António o romantismo alemão.) Acabaram por desistir, já que nenhum era parvo para se ir meter na boca do lobo.
10 - E, depois, há uma contradição (uma, pelo menos) no texto de AG: se ele reclama para o escritor uma auto-dissolução, uma auto-exclusão, já para si não é tão sacrificial. Pelo contrário, vive no mundo terreno. Sabe que a voz do crítico se legitima tanto mais quanto o medium onde perora tem poder. Terreno.
11 - É muito giro pedir aos outros para se retirarem do mundo e se dedicarem apenas à vida espiritual. Soa a chorar um mundo mais nobre onde apenas a nós, sacerdotes da Nobreza, fosse permitido consumir perecíveis. Era esse de resto o sacrifício a esperar do artista: que, em troca de uma eventual ascensão um dia (se os sacerdotes estivessem bem dispostos) à genialidade, cedessem aos sacerdotes todo e qualquer poder na Terra. Não está mal pensado, mas incorre numa falha lógica: nem todos os escritores querem assim tanto morrer pobres. E nem todos, no passado dourado, o fizeram.
12 - Se estou a discutir o artigo de AG é porque o acho interessante, não para troçar dele. Simplesmente, eu tenho o triste vício da cedilha: onde outros trocam ideias, eu troço ideias. Mas o intuito é o mesmo e o resultado (espero) também.
13 - O parágrafo final tem a sua pertinência: «O monopólio da legitimidade literária (...) já não está do lado daquilo a que se chamou instituição literária, com as suas diversas instâncias; está do lado de quem vende Os Lusíadas por interpostos Peixotos; está do lado dos Peixotos, a quem cabe a definição legítima de Camões como escritor.» Mas é sempre esta a questão, não é? A ascensão dos novos-ricos ao poder em todas as suas instâncias e a queda, dura, da classe aristocrática (ou que se julgava aristocrática, o que vai a dar no mesmo).
14 - O que posso dizer? Perder o poder é sempre chato.
Rui Zink
5/03/2013
Plataformas digitais para escritores – The Writing Platform
O site The Writing Platform possui recursos vários, desde pequenos textos que dão pistas sobre como criar personagens, a glossários de termos digitais para autores, até guias sobre fóruns de discussão literária. Tem também dicas que podem ajudam o autor a tornar o seu site mais visível através do refinamento da metadata, algo que à partida pode não parecer importante, sobretudo para aqueles que não sabem do que se trata (algo que também é explicado de uma forma simples e prática), mas que no mundo vasto da internet é deveras significativo.
O site ainda está em versão beta, mas pelo seu conteúdo muito pertinente, poderá vir a ser um valioso recurso para todos aqueles escritores e autores que pretendem aprender a mover-se no mundo digital.
Catarina Araújo
4/22/2013
5 Livros que Mudaram a Edição
Se acham que vou falar dos livros do José António Saraiva, da
Bíblia de Gutenberg ou das 95 teses de João Calvino estão muito enganados. No
seu tempo estes livros mudaram o mundo e, também, a edição, mas nada que se
compare com estás pérolas editoriais, responsáveis pela mais recentes mudanças
no mundo da edição. Senão vejamos:
Série Harry Potter
Se achavam que os mais jovens não eram capazes de ler livros sem imagens e com mais de 50 páginas, estavam enganados. Numa geração plenamente envolvida nas tecnologias a série Harry Potter provou que esta categoria tinha um potencial assombroso, tornando-se também um dos maiores sucessos de cross platform publishing, liderando uma série de outros livros que viraram mega-produções cinematográficas (não falo de livros que viraram filmes, mas livros e filmes nascidos de um mesmo projeto).
A Cabana (The Shack)
Se Tristam Shandy e vários outros livros posteriores foram publicados em auto-edição (com sucesso), isso não significou que alguma coisa tivesse mudado. Nem mudou quando Eragon saiu primeiro em auto-edição, antes de ser publicado pela Knopf. Mas quando o livro canadiano de auto-edição A Cabana, de William P. Young chegou ao top do NYT com mais de um milhão de livros vendidos, as coisas mudaram e percebeu-se que não era obrigatório ter-se uma editora para alcançar o sucesso.
A Sangue Frio (In Cold Blod)
Truman Capote tinha consciência de estar a fazer algo de novo quando decidiu usar técnicas narrativas para contar uma história real, fruto de um longo trabalho jornalístico. O modelo, que mistura competência de escrita e realidade, tinha tudo para ser um sucesso. No fundo, nada é mais incrível do que a realidade.
Dádivas do Mar (Gifts from the Sea)
Se a auto-ajuda é o que é, muito se deve a Anne Morrow Lindbergh, heroína da América, esposa do herói Charles Lindbergh e mãe do mais famoso bebé raptado e assassinado da história da América. Com esse currículo, Anne estava no lugar ideal para, junto à praia, pensar na vida e criar o primeiro grande sucesso de auto-ajuda na história da edição.
His Family
Se hoje ninguém sabe quem foi Ernest C. Poole, é porque alguma justiça se fez no mundo. Vencedor do Pulitzer no ano de 1918, mostrou ao mundo que a qualidade e a originalidade não são argumentos para se ter sucesso ou ganhar prémios importantes. Tendo derrotado autores como John dos Passos, Hemingway, Faulkner, Fitzgerald ou Miller, Poole simplesmente plagiava o estilo de autores consagrados, criando narrativas «simples» de ler e agradáveis ao público (habituados a mais do mesmo). Desde então, o fenómeno nunca mais parou.
E não, o 50 Sombras de Grey ainda não tem espaço para figurar neste grupo.
Nuno Seabra Lopes
Série Harry Potter
Se achavam que os mais jovens não eram capazes de ler livros sem imagens e com mais de 50 páginas, estavam enganados. Numa geração plenamente envolvida nas tecnologias a série Harry Potter provou que esta categoria tinha um potencial assombroso, tornando-se também um dos maiores sucessos de cross platform publishing, liderando uma série de outros livros que viraram mega-produções cinematográficas (não falo de livros que viraram filmes, mas livros e filmes nascidos de um mesmo projeto).
A Cabana (The Shack)
Se Tristam Shandy e vários outros livros posteriores foram publicados em auto-edição (com sucesso), isso não significou que alguma coisa tivesse mudado. Nem mudou quando Eragon saiu primeiro em auto-edição, antes de ser publicado pela Knopf. Mas quando o livro canadiano de auto-edição A Cabana, de William P. Young chegou ao top do NYT com mais de um milhão de livros vendidos, as coisas mudaram e percebeu-se que não era obrigatório ter-se uma editora para alcançar o sucesso.
A Sangue Frio (In Cold Blod)
Truman Capote tinha consciência de estar a fazer algo de novo quando decidiu usar técnicas narrativas para contar uma história real, fruto de um longo trabalho jornalístico. O modelo, que mistura competência de escrita e realidade, tinha tudo para ser um sucesso. No fundo, nada é mais incrível do que a realidade.
Dádivas do Mar (Gifts from the Sea)
Se a auto-ajuda é o que é, muito se deve a Anne Morrow Lindbergh, heroína da América, esposa do herói Charles Lindbergh e mãe do mais famoso bebé raptado e assassinado da história da América. Com esse currículo, Anne estava no lugar ideal para, junto à praia, pensar na vida e criar o primeiro grande sucesso de auto-ajuda na história da edição.
His Family
Se hoje ninguém sabe quem foi Ernest C. Poole, é porque alguma justiça se fez no mundo. Vencedor do Pulitzer no ano de 1918, mostrou ao mundo que a qualidade e a originalidade não são argumentos para se ter sucesso ou ganhar prémios importantes. Tendo derrotado autores como John dos Passos, Hemingway, Faulkner, Fitzgerald ou Miller, Poole simplesmente plagiava o estilo de autores consagrados, criando narrativas «simples» de ler e agradáveis ao público (habituados a mais do mesmo). Desde então, o fenómeno nunca mais parou.
E não, o 50 Sombras de Grey ainda não tem espaço para figurar neste grupo.
Nuno Seabra Lopes
3/18/2013
Plataformas de submissão de originais – o Authonomy.com
«Get read. Get noticed. Get published.»
É assim que a plataforma authonomy.com, criada pela HarperCollins em 2008, chama ao seu sítio todos os aspirantes a autores publicados e não só. Trata-se de uma comunidade online que reúne leitores e escritores num só espaço. A ideia terá surgido como uma forma de dar a oportunidade aos membros da comunidade de avaliarem originais que muito provavelmente passariam despercebidos pelos editores.
Através desta plataforma um escritor tem a possibilidade de disponibilizar os seus livros gratuitamente e de ser avaliado pelos membros registados no site, que podem ser outros escritores da comunidade. Aqueles livros que receberem o maior número de recomendações por parte dos utilizadores vão parar a um top. Ao fim de um tempo predefinido, os cinco originais mais recomendados são lidos internamente por editores da HarperCollins que fazem uma apreciação profissional. A comunidade está aberta a todos, desde que sejam maiores de 18 anos, mas os textos terão de estar escritos na língua inglesa.
Trata-se pois de uma maneira diferente de descobrir novos talentos, aproveitando a tecnologia das redes sociais para permitir aos leitores separarem o trigo do joio entre as obras submetidas para apreciação. Deste modo, quando chega à secretária do editor possui já um primeiro certificado de popularidade entre uma comunidade de leitores que à partida, supõe-se, será mais exigente. A reputação dos próprios utilizadores pode mesmo influenciar a escalada de um original no top dos mais recomendados, dependendo do número de avaliações que faz e da qualidade dos mesmos. Existem ainda os talent spotters, membros da comunidade que detetaram um ou mais originais que entretanto se tornaram populares. Quanto mais recomendações certeiras fizerem, mais sobem no ranking do top talent spotters. A instituição destes diferentes rankings, tanto para escritores, como para os originais, como para os leitores, cria uma dinâmica ainda mais apelativa em toda a atividade da plataforma.
Num site deste género que alia o conceito de comunidade online, à auto edição e à edição tradicional, o escritor terá de fazer um trabalho de divulgação que no meio de um mar de textos, alguns deles incompletos, poderá não ser muito fácil. A pensar nisso, o site oferece dicas sobre como escrever uma sinopse cativante ou como escolher um bom título para o livro. Disponibiliza também ferramentas para o escritor melhorar a sua escrita e aperfeiçoar os seus textos, na secção «Writing Tips».
Todavia, é inevitável um novo utilizador confrontar-se com várias dificuldades para fazer com que o seu trabalho seja visto. Terá de estabelecer contactos para garantir que o maior número de utilizadores possível repare no seu texto e o divulgue entre si, e isso dependerá da habilidade do escritor em cativar os leitores da comunidade. Por outro lado, as respostas, mesmo que poucas, em princípio ajudarão a identificar os pontos fortes e, sobretudo os fracos, do texto submetido. Essa interação permitirá fazer uma revisão mais aprofundada com base num feedback mais ou menos construtivo que dificilmente receberia caso enviasse diretamente o livro a um editor ou a um agente.
Segundo os responsáveis do authonomy.com, há já agentes literários e scouts que visitam o site à procura de novos talentos, pelo que mesmo que um original não chegue ao top da Editor’s Desk da HarperCollins, poderá vir a ser selecionado por outros agentes fora da casa. De acordo com a Wikipédia, à data em que o site foi colocado online depois de alguns meses em versão beta, a plataforma contava já com mais de 24 000 utilizadores registados.
Mais recentemente a HarperCollins criou uma chancela digital, a Authonomy Digital Imprint, exclusivamente para a edição de originais descobertos através da plataforma. Os editores prevêem a possibilidade de alguns dos livros terem uma edição impressa, caso as vendas em versão e-book sejam boas. A plataforma, apesar de geralmente bem recebida, não escapou a alguma controvérsia. A assertividade da frase «Get read. Get noticed. Get published» pode ser enganadora. Tal como acontece nos comentários da Amazon ou do Goodreads, coloca-se em causa a intenção dos utilizadores que recomendam livros na plataforma, neste caso fazendo-o apenas com o objetivo de ver os seus próprios livros igualmente recomendados por quem ajudou a escalar a tabela dos mais populares, num jogo de influências que deturpará todo o objetivo da comunidade.
Talvez por isso há quem desconfie da plataforma e prefira continuar a privilegiar o contacto direto com editores e agentes ou então escolher a via da auto-edição. Não obstante, a comunidade authonomy.com é, sem sombra de dúvida, um passo em frente na adaptação das editoras aos novos tempos em que as redes sociais imperam no mundo virtual da internet.
Catarina Araújo, escritora e assessora de comunicação
1/16/2013
BiblioHistória
Em mais do que um post deste blogue falou-se da importância da memória, de como só registando e recordando, ou seja, consultando os nossos arquivos sempre que necessário, conseguimos ter um entendimento mais aprofundado e correto da nossa cultura, do nosso percurso.
Para registar memória, no entanto, é necessário esforço, tanto de tempo como de recursos, mas foi isso que o escritor Pedro Almeida Vieira fez nestes últimos anos, iniciando o BiblioHistória, uma base de dados de obras de literatura de género histórico de escritores portugueses.
Durante este período foi possível aproveitar o esforço de Pedro Almeida Vieira sem qualquer contrapartida, uma dádiva que, sempre que necessitaram, foi utilizada.
Pela validade do projeto, a sua editora e respetivo grupo onde está inserido (Sextante Editora/ Grupo Porto Editora) mantiveram um financiamento de 600,00€ anuais para pagamento de despesas (de manutenção dos sistemas informáticos, alojamento, etc.). Em 2013 esse financiamento foi cancelado.
Pedro Almeida Vieira, no entanto, não quer cancelar o projeto e, inclusive, tem planos de desenvolvimento da plataforma, permitindo melhores capacidades de pesquisa e interatividade, mas para tal vê-se a braços com um esforço adicional.
Numa sociedade em rede, composta por pessoas interessadas, devemos intervir no que nos está mais perto. Devemos agir enquanto sociedade civil e, quando chamados, tentar melhorar o espaço à nossa volta, em vez de sempre nos queixarmos de como perdemos tudo.
Na campanha de Crowdfunding agora iniciada, Pedro Almeida Vieira pede apenas um valor simbólico, 1000 euros para tudo, e promete algumas melhorias. Se entre todos nós dermos 5,00€ em vez de os gastarmos hoje de tarde em algo menos útil, nem sequer iremos reparar na saída desse dinheiro e estaremos a contribuir para a manutenção do projeto. Basta que 200 pessoas o façam e este projeto subsiste.
Esta é uma daquelas alturas em que se pergunta se basta só um post, se basta só reclamar no facebook, se estamos a ser sinceros quando nos sentimos ofendidos ao perdemos mais um elemento cultural desta sociedade onde nos inseridos, se nem sequer 5,00€ somos capazes de dispor.
Para contribuir é fácil, carreguem nesta hiperligação e o resto torna-se evidente.
Para registar memória, no entanto, é necessário esforço, tanto de tempo como de recursos, mas foi isso que o escritor Pedro Almeida Vieira fez nestes últimos anos, iniciando o BiblioHistória, uma base de dados de obras de literatura de género histórico de escritores portugueses.
Durante este período foi possível aproveitar o esforço de Pedro Almeida Vieira sem qualquer contrapartida, uma dádiva que, sempre que necessitaram, foi utilizada.
Pela validade do projeto, a sua editora e respetivo grupo onde está inserido (Sextante Editora/ Grupo Porto Editora) mantiveram um financiamento de 600,00€ anuais para pagamento de despesas (de manutenção dos sistemas informáticos, alojamento, etc.). Em 2013 esse financiamento foi cancelado.
Pedro Almeida Vieira, no entanto, não quer cancelar o projeto e, inclusive, tem planos de desenvolvimento da plataforma, permitindo melhores capacidades de pesquisa e interatividade, mas para tal vê-se a braços com um esforço adicional.
Numa sociedade em rede, composta por pessoas interessadas, devemos intervir no que nos está mais perto. Devemos agir enquanto sociedade civil e, quando chamados, tentar melhorar o espaço à nossa volta, em vez de sempre nos queixarmos de como perdemos tudo.
Na campanha de Crowdfunding agora iniciada, Pedro Almeida Vieira pede apenas um valor simbólico, 1000 euros para tudo, e promete algumas melhorias. Se entre todos nós dermos 5,00€ em vez de os gastarmos hoje de tarde em algo menos útil, nem sequer iremos reparar na saída desse dinheiro e estaremos a contribuir para a manutenção do projeto. Basta que 200 pessoas o façam e este projeto subsiste.
Esta é uma daquelas alturas em que se pergunta se basta só um post, se basta só reclamar no facebook, se estamos a ser sinceros quando nos sentimos ofendidos ao perdemos mais um elemento cultural desta sociedade onde nos inseridos, se nem sequer 5,00€ somos capazes de dispor.
Para contribuir é fácil, carreguem nesta hiperligação e o resto torna-se evidente.
1/03/2013
O Refugo
De vez em quando editoras beneméritas pedem o apoio benemérito dos autores para projectos beneméritos. Ou então projectos em que o receptáculo do benemeritismo é a editora, quiçá pequena e jovem e a precisar de empurrão. E aí começa a armadilha: o escritor veterano quer ser generoso ou então está movido/a por um sentimento menos nobre: o receio de perder o barco, de ficar para trás, num mundo cão que vive cada vez mais de actualidade. [Actualidade que era, em grande parte, inimiga do livro, mais lento e duradoiro que outros media – fica aqui a nota para outro debate.] E lá há a colectânea sobre o assunto Y ou em torno do tema Z. Como aqui não há vil permuta de vil metal [vil para a nossa cultura católico-aristocrático-esmoler, bem entendido – fica também aqui a nota para outro debate], o autor veterano envia um resto de sopa passada,que é o que se faz com a caridade, ou então um original menor. (Se começar um original e ele sair bem, certamente dar-lhe-á outro destino, mais lucradouro.) E aqui começa o inferno: quando o livro sai fatalmente sairá a resenha ou a crítica no blog de um leitor dizendo que ficou muito desapontado com os consagrados e, afinal, o único conto digno desse nome, a única pérola no charco, era o original de um jovem desconhecido. Porque há sempre um desconhecido que entra no livro como a pedra na sopa da pedra, quando não é o próprio jovem editor (que afinal também é autor) a antologiar-se e, se for esperto (geralmente é, pode é nem sempre ter talento à altura da esperteza), esse desconhecido agarrará a oportunidade para roubar o palco aos veteranos... que afinal fizeram o papel de idiotas úteis. (E, no caso do editor auto-antologiador, de papel de embrulho.) Solução para o assunto: não tenho. Deixaria apenas a minha recomendação a todas as partes – é este o meu contributo neste pequeno ensaio – para terem noção desta dança e, depois, agirem em conformidade consoante consciência e sentido prático lhes ditarem. E, já agora, mais um par de recomendações: 1) que o antologiador/organizador não se inclua na selecção (triste é o caso da selecção anual de poesia da FNAC), por muito que isso lhe doa; 2) que o autor não envie refugo para lado nenhum, porque a brincadeira pode sair-lhe cara; 3) que o jovem talento mostre algum respeito pelos mais velhos e baixe um bocadinho a qualidade do seu texto; 4) que o editor tenha em conta que tem de haver permuta séria, de dinheiro ou bens, quando se edita um texto. (Exemplo 1: há meses, em troca de uma ida a uma escola, que valia algum dinheiro, recebi uma leitura em voz alta de um livro que precisava de rever, o que também valia algum dinheiro). Alguma permuta tem de haver, senão é esbulho e, pior, desgarantia de qualidade. Dito isto, caro Nuno Seabra Lopes, continuo à espera de que me apresentes a tal amiga de que falastes.
Rui Zink.
Rui Zink.
11/15/2012
Sobre editores, uma visão para autores
Observo que existe interesse por parte dos autores em relação ao mundo da edição e da forma de se relacionar com ele, por isso resolvi fazer este pequeno texto introdutório, para evidenciar algumas das características que definem o enquadramento mental de cada um neste setor.
Gostaria, neste texto, de destacar que, quando se fala de edição, e apesar de se trabalhar eminentemente com uma matéria-prima cultural e/ou informacional, estamos a falar de uma indústria.
Mais do que o famoso binómio economia/cultura (ex libris que muitos estudos nos anos 1980...) há que referir que, dependendo da posição em que se está neste setor e das características dos agentes, a forma como se posicionam nesse binómio e o resultado real da sua ação pode variar bastante.
Ou seja, se para muitos autores a escrita é fruto de uma paixão, outros há que a entendem de forma fria e profissional, enquanto profissionais da escrita que o são, e podem ver o seu trabalho como uma profissão ao serviço de uma indústria, de um cliente. O caso do James Patterson é mais do que conhecido, mas também poderemos encontrar por cá alguns que veem na escrita um trabalho concreto, fruto de encomendas mais ou menos explícitas do mercado ou das editoras.
Se, da parte de alguns autores, isso já acontece, imagine-se da parte de quem lida há anos e anos com inúmeros textos de diversas valias (e toda a gente concorda que se publicam demasiadas coisas desinteressantes). Por mais paixão que haja da parte de um editor – e há muito mais do que o habitual, daí ter escolhido esta profissão − passa a haver imediatamente uma triagem fina entre os livros pelos quais os editores têm paixão e aquilo que veem como trabalho. Ao fim de alguns anos, a maior parte dos livros publicados são essencialmente trabalho e a paixão cultural fica restrita a alguns poucos livros e autores.
Recordo-me de alguns editores que referiam ler frequentemente livros diferentes daqueles que publicam, como o ex-editor da Pergaminho, Mário Moura. Se isso acontece com os editores, que trabalham diretamente com os autores, imagine-se então outros agentes do circuito, como distribuidores, agentes comerciais, responsáveis por direitos, responsáveis de marketing, etc.
Naturalmente, cada caso é um caso e há ainda alguns editores em Portugal que trabalham com absoluta paixão, como Vítor Silva Tavares (&Etc.) ou Luís Oliveira (Antígona), só para dar exemplos de alguém que ninguém duvide.
Acima de tudo, os autores devem perceber que muitos daqueles são profissionais de uma indústria, que trabalham para uma indústria. Que pegam numa matéria-prima e fazem um protótipo industrial que é reproduzido massivamente, ou que pegam nesse produto e vão fazer o máximo para o vender.
Todos eles sabem que um livro não é o original, apesar de ter muitas vezes um acréscimo significativo de capital criativo único – por parte de tradutores, designers, editores, paginadores, especialistas gráficos, etc. −, da mesma forma que um CD não é um concerto. Se um livro é guilhotinado, há mais 1000 por aí e, se não houver, há o ficheiro ou o original e podemos fazer mais 1 milhão, se interesse houver.
Como veículo de transmissão e comercialização é um objeto apaixonante mas essa paixão não deve ser confundida com o texto artístico. É apenas o veículo para dele usufruirmos e a paixão sobre ele deve manifestar-se noutras alturas, como se manifesta. Aliás, os editores serão dos maiores apaixonados e colecionadores de livros fora do seu local de trabalho.
Apesar disso, o editor é o melhor profissional que o autor pode ter ao seu lado para que a obra consiga chegar aos leitores da melhor forma possível. Ele é um parceiro imprescindível não só para abrir o caminho do mercado, mas também pela experiência e conhecimentos que tem que permitem pegar num texto e associar outros tantos profissionais criativos capazes de criar um livro: o resultado de um trabalho de equipa. Da mesma forma que um encenador necessita de atores, diretor de autores, cenógrafos, assistentes de palco, pessoal da limpeza e rececionistas para ter uma peça em palco, um autor necessita de uma equipa capaz de fazer um livro.
Ao contrário do que se pensa, não é o autor que faz o livro. O autor escreve o texto e dá a parte mais importante, mas só em conjunto com o editor que se faz, de facto, um livro.
Os autores com verdadeira capacidade e interesse devem primeiro perceber, e sem ilusões, o que pretendem com a publicação (aka industrialização) da sua escrita, e só depois procurar o editor que melhor se coadune com aquilo que, de facto, quer. Não será preciso dizer que os editores são iguais às restantes pessoas: há os diligentes, os apaixonados, os desinteressados, os ambiciosos, os egocêntricos, os invejosos, os incompetentes, os profissionais, os difíceis, os geniais e até, com sorte, o editor perfeito para si.
Nuno Seabra Lopes
Fonte: Getty Images, através da CNN (http://edition.cnn.com/2010/TECH/01/01/ebook.piracy/index.html)
Gostaria, neste texto, de destacar que, quando se fala de edição, e apesar de se trabalhar eminentemente com uma matéria-prima cultural e/ou informacional, estamos a falar de uma indústria.
Mais do que o famoso binómio economia/cultura (ex libris que muitos estudos nos anos 1980...) há que referir que, dependendo da posição em que se está neste setor e das características dos agentes, a forma como se posicionam nesse binómio e o resultado real da sua ação pode variar bastante.
Ou seja, se para muitos autores a escrita é fruto de uma paixão, outros há que a entendem de forma fria e profissional, enquanto profissionais da escrita que o são, e podem ver o seu trabalho como uma profissão ao serviço de uma indústria, de um cliente. O caso do James Patterson é mais do que conhecido, mas também poderemos encontrar por cá alguns que veem na escrita um trabalho concreto, fruto de encomendas mais ou menos explícitas do mercado ou das editoras.
Se, da parte de alguns autores, isso já acontece, imagine-se da parte de quem lida há anos e anos com inúmeros textos de diversas valias (e toda a gente concorda que se publicam demasiadas coisas desinteressantes). Por mais paixão que haja da parte de um editor – e há muito mais do que o habitual, daí ter escolhido esta profissão − passa a haver imediatamente uma triagem fina entre os livros pelos quais os editores têm paixão e aquilo que veem como trabalho. Ao fim de alguns anos, a maior parte dos livros publicados são essencialmente trabalho e a paixão cultural fica restrita a alguns poucos livros e autores.
Recordo-me de alguns editores que referiam ler frequentemente livros diferentes daqueles que publicam, como o ex-editor da Pergaminho, Mário Moura. Se isso acontece com os editores, que trabalham diretamente com os autores, imagine-se então outros agentes do circuito, como distribuidores, agentes comerciais, responsáveis por direitos, responsáveis de marketing, etc.
Naturalmente, cada caso é um caso e há ainda alguns editores em Portugal que trabalham com absoluta paixão, como Vítor Silva Tavares (&Etc.) ou Luís Oliveira (Antígona), só para dar exemplos de alguém que ninguém duvide.
Acima de tudo, os autores devem perceber que muitos daqueles são profissionais de uma indústria, que trabalham para uma indústria. Que pegam numa matéria-prima e fazem um protótipo industrial que é reproduzido massivamente, ou que pegam nesse produto e vão fazer o máximo para o vender.
Todos eles sabem que um livro não é o original, apesar de ter muitas vezes um acréscimo significativo de capital criativo único – por parte de tradutores, designers, editores, paginadores, especialistas gráficos, etc. −, da mesma forma que um CD não é um concerto. Se um livro é guilhotinado, há mais 1000 por aí e, se não houver, há o ficheiro ou o original e podemos fazer mais 1 milhão, se interesse houver.
Como veículo de transmissão e comercialização é um objeto apaixonante mas essa paixão não deve ser confundida com o texto artístico. É apenas o veículo para dele usufruirmos e a paixão sobre ele deve manifestar-se noutras alturas, como se manifesta. Aliás, os editores serão dos maiores apaixonados e colecionadores de livros fora do seu local de trabalho.
Apesar disso, o editor é o melhor profissional que o autor pode ter ao seu lado para que a obra consiga chegar aos leitores da melhor forma possível. Ele é um parceiro imprescindível não só para abrir o caminho do mercado, mas também pela experiência e conhecimentos que tem que permitem pegar num texto e associar outros tantos profissionais criativos capazes de criar um livro: o resultado de um trabalho de equipa. Da mesma forma que um encenador necessita de atores, diretor de autores, cenógrafos, assistentes de palco, pessoal da limpeza e rececionistas para ter uma peça em palco, um autor necessita de uma equipa capaz de fazer um livro.
Ao contrário do que se pensa, não é o autor que faz o livro. O autor escreve o texto e dá a parte mais importante, mas só em conjunto com o editor que se faz, de facto, um livro.
Os autores com verdadeira capacidade e interesse devem primeiro perceber, e sem ilusões, o que pretendem com a publicação (aka industrialização) da sua escrita, e só depois procurar o editor que melhor se coadune com aquilo que, de facto, quer. Não será preciso dizer que os editores são iguais às restantes pessoas: há os diligentes, os apaixonados, os desinteressados, os ambiciosos, os egocêntricos, os invejosos, os incompetentes, os profissionais, os difíceis, os geniais e até, com sorte, o editor perfeito para si.
Nuno Seabra Lopes
Etiquetas:
Autores,
Edição,
Editores,
Nuno Seabra Lopes
11/07/2012
Autor, Autor
Fonte: Topics (http://scper.learninglab.com.ar/2010/11/30/autor/)
Qualquer editor sabe a dívida de gratidão que deve ter em relação aos seus autores. Sejam eles vivos ou mortos, estejam eles diretamente em contacto com os editores ou intermediarizados por agentes ou parceiros (úteis ou não, pois cada caso é um caso), são os autores que fazem com que os livros nasçam e se vendam.
Apesar disso, a relação entre autores e editores (englobando aqui toda a supraestrutura empresarial que se ergue como defesa da relação autor/editor) é complexa e, muitas vezes, mal compreendida pelos intervenientes. O resultado habitual disso é o romper da confiança e o desbaratar de algo tão importante na nossa sociedade: o relacionamento interpessoal.
Senão vejamos; muitas vezes os autores chegam aos editores após um percursos algo atribulado que os reduz à matéria de objetos em análise, algo que se compreenderá numa fase inicial, pois dá-se o processo de seleção (havendo valorização da função de seleção do editor como prescritor primeiro da qualidade mercadológica da obra). Após esse primeiro contacto inicia-se uma «guerra» pela preponderância ora de uma, ora de outra função, num evoluir dialético da relação saudável e natural. Nesse processo a reputação e arquitetura relacional detém uma função primordial na resolução de conflitos. Um reputado editor convencerá os seus autores das necessárias modificações e acatamento de sugestões de modificação das suas obras (independentemente da validade técnica das mesmas).
Habitualmente, e se se der um sucesso pronunciado do autor, com aumento da sua reputação, dá-se o reverso, tal como se explicita com a história atribuída a Érik Orsenna que, após ganhar o prémio Goncourt (1988), se virou para o seu editor das Éd. du Seuil e proibiu-o de, a partir de então, fazer alterações ao texto.
Mas mais do que guerras e disputas no território da escrita – que pouca relevância têm para este debate −, o que importa pensar é na forma como a relação profissional e contratual não segue este percurso natural sendo, a maior parte das vezes, desequilibrada, obscura e desinformada.
Iniciando-se a ação no editor (com o argumento da estrutura e do processo), os contratos são pensados para garantir uma repartição benéfica dos editores e suas estruturas, com imposição de cláusulas abusivas e de salvaguarda unilaterais escritas numa terminologia impossível de perceber para quem não tem experiência ou conhecimentos. Dado fazer-se no início da relação, o autor encontra-se fragilizado na relação e confia, aceita e até, por vezes, agradece o facto de ser «aceite», sujeitando-se às regras impostas.
O resultado para o autor é, quase sempre, a dificuldades na obtenção de informação comercial e a sujeição a barreiras de acesso informacional do percurso do livro. Por outras palavras, afastam-nos, colocam-nos de fora do projeto e distanciam-nos motivacionalmente do resultado do livro. Muitos autores veem os seus livros tornarem-se órfãos da mãe à força, iniciando-se logo ali a pressão do editor para que «produza» mais um livro.
Para além disso, o estabelecimento de expectativas irrealistas iniciais pode também produzir mal-entendidos futuros e, no meio de tudo isso, levar ao forçar da confiança e ao rompimento das relações estabelecidas.
Será isso estranho? Será estranho que um escritor aceite não estar envolvido no processo comercial dos seus livros? Que descubra mais tarde e por carta que os mesmos serão abatidos, exceto se os comprar com avultado desconto, numa tentativa de fazer regressar à casa materna um filho que se revelou pouco «pródigo»? Será suficiente para um escritor receber uma ou duas prestações de contas anuais, que revelam muito genericamente as «vendas», e ainda por cima com «filtros» contabilizando possíveis devoluções? Será a solução de forfait (pagamento integral acertado antes das vendas) ou o avanço uma solução possível numa relação que alguns querem «distanciada» e estão dispostos a pagar à frente por ela?
Quando um livro falha muitas poderão ser as razões, mas, pela distância a que os colocam do mercado, quase sempre os escritores desconhecem os motivos desse falhanço. O facto de ele não participar no processo, leva à desconfiança de que a falha será não tanto do genérico «mercado» − sempre acusado −, mas mais do mercador.
No meio de tudo isto, os editores esquecem-se de que necessitam dos autores. São estes últimos os detentores da relação de confiança com os leitores: são eles os principais motivadores da compra. Depende da sua motivação a continuação da sua escrita e o potencial crescimento que possam ter.
Uma relação honesta, credível, que contemple o autor no destino do livro levará a uma relação duradoura, de aprendizagem constante, onde cada obra que se segue só poderá somar. Uma relação distante e minada de desconfianças, levará à perda de autores para outras editoras e à incapacidade de crescimento ótimo do catálogo tanto do editor, como do autor.
Nuno Seabra Lopes
Etiquetas:
Autores,
Direitos de autor,
Editores,
Nuno Seabra Lopes
Subscrever:
Mensagens (Atom)




