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8/25/2025

Sem novidade

 

Ao longo da minha experiência profissional em edição tornou-se evidente que o mercado do livro em Portugal — e não só — vive condicionado pela sua própria incapacidade de investimento.

Num setor onde o investimento por produto é baixo, os conteúdos tornam-se bens de consumo rápido: esgotam-se antes de revelarem todo o seu potencial e são substituídos a uma velocidade que reduz drasticamente o seu valor.

Entre os editores, a culpa é frequentemente atribuída a fatores externos: às redes de livrarias que exigem apenas “novidades”, ao reduzido tempo de exposição junto do público, ou ainda à imprensa que privilegia o que é jovem e recente. Tudo isto serve muitas vezes para afastar responsabilidades próprias. Como editor, não me interessa apontar erros alheios — ainda que existam — mas refletir sobre a forma como também nós, editores, alimentamos este ciclo vicioso.

É verdade que o mercado se molda assim, mas ele não surgiu por acaso, nem foi resultado de uma decisão estratégica repentina das livrarias. O mercado constrói-se a partir dos produtos que nele são colocados, e quando estes assentam maioritariamente em baixo risco e baixo investimento, todo o sistema se organiza em função dessa lógica.

Não defendo que as editoras se lancem cegamente em projetos disruptivos de elevado risco — a metáfora do “pássaro barato na mão” continua válida — mas também não é sustentável manter eternamente uma estratégia repetitiva, de baixo custo e sem espaço para uma verdadeira evolução. Muitas vezes nem sequer se aposta numa estratégia de inovação incremental, capaz de introduzir mudanças subtis, mas consistentes, que poderiam abrir novos caminhos.

A escolha de conteúdos tende a seguir fórmulas previsíveis: títulos com provas dadas no estrangeiro, temas da moda, nomes já conhecidos do público, ou autores com plataformas de comunicação consolidadas. Estes ciclos repetem-se há décadas, como tendências de moda que regressam, tal qual as calças à boca de sino.

Mesmo ao nível do produto, a lógica é idêntica. Se uma editora ousa inovar — quase sempre replicando algo já testado lá fora — rapidamente todos a seguem, reproduzindo a mesma fórmula. O problema é estrutural e falta em Portugal capacidade real para transformar os conteúdos de forma original e sustentada.

De tempos a tempos, surgem editoras, coleções ou autores, que introduzem uma lufada de ar fresco, obtendo até algum sucesso inicial. Mas sem uma estratégia sólida de continuidade, acabam por se deixar arrastar pelo movimento dos “seguidores”, que repetem até à exaustão aquilo que momentaneamente funcionou. O resultado é sempre o da saturação.

A ausência de uma estratégia de inovação é, talvez, a marca mais evidente da edição em Portugal. E ela traduz-se inevitavelmente num mercado de baixo valor e incapaz de competir. Porque nunca um setor sem investimento e sem inovação conseguiu resistir à mudança.

8/10/2019

Os editores portugueses por Serafim Ferreira


Pedro Piedade Marques continua o seu excepcional trabalho de recolha de materiais sobre a história da edição recente em Portugal. Depois da publicação da fotobiografia sobre Fernando Ribeiro de Mello (Edições Afrodite de sua fama), republica o livro «Olha de Editor» do editor Serafim Ferreira (1939-2015) em edição revista e aumentada.

Nesse livro, originalmente publicado em 1999, Serafim Ferreira traça pequenos esquissos (pequenos mas precisos e preciosos) sobre os editores portugueses que fizeram o século XX da edição nacional. Os realmente relevantes, os realmente marcantes.

Tirando estes editores poucos ficam que valha mencionar. Aliás a necessária menção de outros editores deve-se mais a inovação logística ou técnica mais do que a uma ideologia e/ou a um conceito editorial. Daí não aparecerem nesta edição referidos os nomes de Lyon de Castro ou Cruz Santos entre alguns mais. Daí também não os editores que fizeram a edição portuguesa mas cuja obra começou no século XIX (Francisco Franco, Davide Corazzi, António Maria Pereira, etc.).

Num país em que a memória de qualquer área de negócio é tratada com desdém e desinteresse, este livro é uma pérola para uma área em que parece haver ainda menos memória do que em muitas outras.

8/08/2015

Quem corre por gosto... merece ser rasteirado.



Um dos problemas das sociedades mediterrânicas modernas e cujas origens não cumpre aqui averiguar, está na carga negativa que damos ao trabalho, ao rigor e à disciplina. Com efeito e ao contrário das sociedades protestantes, atribuímos ao trabalho uma carga de castigo que está patente, por exemplo, quando se vê uma pessoa a falar com uma criança "E já andas na escola? Coitadinho...". Bem como o habitual: "se me sair o euromilhões nunca mais faço nada."

Mais do que qualquer coisa, esta posição cultural está na base da nossa falta de produtividade.

Mas do que eu queria falar é de como essa forma de ver o mundo aliada a uma típica falta de cultura que desemboca numa inveja agressiva resulta quando se é confrontado com alguém que trabalha numa indústria cultural.

"Ah mas tu fazes aquilo de que gostas, não te queixes."

Quem trabalha nas áreas criativas sabe perfeitamente que é visto assim e que é essa postura que dita situações clássicas como os típicos atrasos nos pagamentos, incumprimento das condições acordadas, etc. Afinal nós, "os criativos", somos artistas e os artistas comem a sua arte ("ainda por cima os sacanas têm prazer em fazer o que fazem, mas hão-de lhes morder hão...").

Faz-me lembrar uma história passada por Michael Korda num livro que neste blogue recenseei. Resumindo a história com a preguiça de confirmar nomes e dadas de um Sábado de Agosto, um multimilionário comprou uma grande editora clássica norte-americana incorporando-a no seu império de multimédia, indústria e muito mais.

Passado uns meses o dito milionário visita pela primeira vez a editora e é recebido pelo director geral numa sala de reuniões que abre numa vista panorâmica para os corredores onde trabalham os assistentes editoriais na leitura de obras, sua revisão e anotação.

Enquanto o director geral vai descrevendo os sucessos da editora repara que o milionário está cada vez mais nervoso e irritadiço. Em vez dos sucessos editoriais e prémios, decide mudar o seu discurso e falar do crescimento financeiro da editora mas o milionário não dá sinais de acalmar, pelo contrário, mexe-se na cadeira, olha para todos os lados bufa...

O director geral começa a ficar também ele nervoso e fala dos planos de crescimento, das possibilidades de articulação com outras empresas da corporação sem sucesso: o milionário passa por várias cores e de repente levanta-se e abre a porta berrando para o corredor dos assistentes "Quando é que param de ler e começam a trabalhar????".

Outro dos clássicos para este tipo de situação é o famoso anúncio e resposta aqui reproduzidos.

Engraçado nesta situação é que não era bem sobre isto que eu queria escrever.

Quero hoje escrever sobre o tempo enquanto necessidade fundamental para um trabalho importante na área do livro. Recebo centenas de newsletters de editoras e livrarias pequenas e grandes um pouco de todo o mundo e um factor comum, então nesta época de Verão, é verificar como as newsletters chegam com recensões e recomendações de grande qualidade.

Das editoras chegam as sugestões de toda a equipe, dos editores aos comerciais, dos financeiros aos empregados da limpeza. nas livrarias todos os livreiros fazem as suas sugestões.

Lá fora, sobretudo no meio anglófono parece que já se acordou para essa noção de orgulho no trabalho e para a noção de quem trabalha na área dos livros, seja directa ou indirectamente, deve ter interesse directo no produto.

Nós por cá com a nossa notável capacidade de planear trabalho, de organizar empresas, de estrategicamente as projectar no futuro, temos outro ponto de vista. As editoras contratam assistentes editoriais que, o destino assim o dita, se não desistirem pelo caminho, serão os editores de amanhã mas não os formamos como leitores. Um assistente editorial é um escravo sem horários que leva pilhas de trabalho para casa. Tem ele tempo para sequer se inteirar do que se passa no mundo da edição, ler o que "está a dar" na sua área de trabalho, ganhar cultura geral, acumular leituras que lhe permitam mais adiante ser um editor de sucesso? Já não falo sequer de tempo para irem às livrarias ouvir o que os leitores comentam sobre os livros, perceber porque escolhem o título X e não o Y, porque preferem uma capa e não outra...

Para já não dizer que dentro de empresas de dimensão média para grande é entendido que o editor (quanto mais o assistente editorial) não tem nada que saber esse tipo de coisas uma vez que é "criativo", do mercado sabem os comerciais e os directores de marca (que curiosamente raramente lêem e quando o fazem, não é por prazer mas por obrigação).

Depois editores e assistentes apresentam os seus planos editoriais que são decididos pelos financeiros em função de dados que os primeiros não têm como recolher e os segundos não sabem interpretar.

Mas alguém na cúpula acha que assim é que se corrige o problema que as editoras sempre tiveram e "por isso não davam lucro". Nunca lhes ocorreu que a os públicos culturais são voláteis e que os únicos que são fidelizáveis são aqueles cujos números não importam aos financeiros porque não pesam o suficiente para serem significativos.

É também por esse motivo que uma qualquer grande editora não contempla oferecer os seus livros aos seus funcionários que, gostando de livros, seriam certamente os seus maiores promotores. Numa das editoras onde trabalhei achou-se que não fazia sentido oferecer livros a tradutores e revisores. Não se percebe que um profissional que tenha trabalhado num livro tem orgulho na obra para a qual contribuiu e que a recomendará. não se percebe que num meio pequeno como é o dos leitores em Portugal todos se conhecem uns aos outros e os círculos de influência se intersectam. Os amigos de um tradutor são geralmente gente que gosta de livros.

Em várias editoras de grande dimensão, se um funcionário pretende comprar um livro e se procura inteirar sobre condições para o fazer parece que caiu um meteorito. Que coisa inaudita!! Um funcionário que quer ler um livro nosso? Estabelece-se uma política à pressa e que passa pelo "vamos é aproveitar para vender e ganhar mais uns cobres". Faz-se ao funcionário um desconto ligeiro e o funcionário fica a pensar "Bando de fuinhas, fazem descontos comerciais às livrarias muitas vezes acima dos 50% e a mim apenas isto!?"

O que custa em tudo isto é o retorcido dos processos mentais que estão por trás de cada acção ou inacção, de cada medida ou decisão.

"Como é que se pode lidar com esta gente estranha que gosta do que faz? Que mandriam o dia todo enquanto nós estamos para aqui a fazer contas que detestamos. Ainda por cima os patós acham que fazemos bons livros..."

Numa indústria que funciona assim não se percebe que um assistente editorial ou um livreiro serão muito melhores profissionais se tiverem tempo para ler, por exemplo.

Este diálogo de surdos não vai ter respostas e nunca resultará em sucesso porque o latino é vingativo e uma situação de desequilíbrio dá lugar a feudos de proporções sicilianas.

Nenhuma das facções vai alguma vez estar satisfeita. Nenhuma fará concessões à outra.

Quem compra livros por gosto (a maior parte das compras fora do segmento escolar) seja esse gosto directo - "eu gosto deste livro" - ou indirecto - "eu gosto de economia e portanto compro um livro sobre a área" - ; tem de ser atendido ou fornecido por quem percebe de gostos. Um editor tem que saber fazer livros mas acima de tudo tem de saber fazer os livros que vão interessar a um determinado segmento, isso implica conhecer esse segmento (seja ele de 500 leitores, 50 ou 500.000). Um editor tem de ser um especialista nos hábitos e gostos do seu público.

Isso cultiva-se cultivando os gostos pessoais e interagindo com as comunidades de leitores. Não se desenvolve num escritório analisando números num excel.

As indústrias culturais são indústrias do gosto e do hedonismo. directo ou muito indirecto. Enquanto as indústrias culturais entre nós não perceberem isso (e não há sinais de que o venham a perceber) os públicos vão continuar a desaparecer e o futuro vai ser negro pela ausência de mercado e a incapacidade de formação contemporânea dos futuros agentes do sector.

Como será possível explicar a um gestor ou financeiro que detesta o seu trabalho e o seu produto e inveja os subordinados que fazem o que gostam, que a estratégia de uma indústria cultural tem de passar por processos formativos de públicos muitas vezes com sacrifícios financeiros que resultarão em sucessos futuros.

Há um conjunto de modelos de negócio no universo anglo-germanófilo nas áreas culturais e em particular na área do livro que têm ditado mudanças muito interessantes em tempos recentes e que passam precisamente por essa percepção. Há pouco menos de um mês um dos anúncios do Publishers Weekly era para um director financeiro e estratégico de um dos maiores grupos mundiais e uma característica sine qua non requerida era paixão por livros e leitura.

Nós por cá estamos a séculos de distância disto.

No entanto em 1976 a UNESCO definia a figura do gestor cultural e os atributos de tal função recomendando formação específica para estes no objectivo de salvaguardar as indústrias culturais no nosso mundo em mudança.

Da mesma forma como no mundo das indústrias culturais nem tudo é o gosto (embora o essencial seja) e o prazer, também não se pode reduzir tudo ao prisma eco-financeiro.

Economicamente isto é um paradoxo de utilidade: quer então dizer que em áreas que dão sempre pouco dinheiro é que precisamos de colocar os nossos directores mais habilitados e polivalentes?? Ai isso é que não, e se eles começam a gostar do trabalho, os sacanas?



5/10/2015

Recensão: A tradução para edição

Almeida e Pinho, Jorge, A tradução para edição - Viagem ao mundo de tradutores e editores em Portugal (1974-2009), Universidade do Porto, Porto, 2014


Uma das vantagens em ter compilado a Bibliografia sobre edição e negócio do livro é ter ficado com uma noção muito precisa da exiguidade do que se produz em termos documentais nessa área no nosso país. Daí que, quando aparece um qualquer contributo adicional para esta bibliografia, ache que merece a melhor atenção de todos quantos estamos neste sector.

Jorge Almeida e Pinho é tradutor e revisor técnico e docente do ensino superior também na área de tradução. Tem já outros livros dedicados a esta área no que será dos poucos em Portugal a dedicar-se ao estudo da Tradução no meio editorial.

Do meu lado, enquanto editor mas sobretudo enquanto profissional integrado no sector editorial/livreiro, tenho vindo a advogar ao longo dos anos que um dos males do sector (entre outros obviamente) é o desconhecimento que os vários agentes do sector têm do trabalho e dificuldades uns dos outros. Daí também que toda a informação que se possa recolher sobre determinado subsector da área do livro e da Edição deva ser de consumo obrigatório para todos quantos fazem do livro a sua vida.

Deixadas as notas introdutórios, passemos ao livro: a obra está dividida em quatro partes.

A primeira parte da obra pretende desenhar o trajecto da edição face à evolução sociocultural do país com especial incidência no período coberto pela obra.

A segunda parte é uma síntese da evolução e principais conceitos e metodologias dos Estudos de Tradução numa perspectiva internacional.

A terceira parte consiste numa análise dos resultados do Inquérito por Questionário sobre Tradução levado a cabo durante o ano de 2008. 

A quarta e última parte é um estudo de caso centrado na editora Campo das Letras.

A soma das partes traz muito poucos dados novos à equação do processo editorial mas confirma alguns mitos e traz a público, pela primeira vez, alguma espécie de suporte documental.

Ao longo de toda a obra Jorge Almeida e Pinho foca a sua argumentação em dois vectores principais: 

- A necessidade da mais e melhor especialização dos tradutores passar por formação a) interna das editoras e/ou b) da Universidade (em parceria ou de forma protocolar com as editoras)
   
- A forma de remuneração dos tradutores que, segundo o autor, é contrária ao espírito da lei

Muitas vezes este livro peca por um factor inevitável: é demasiado "universitário" e portanto científico na análise que faz do sector. Um leitor conhecedor das dinâmicas do sector fica com a clara noção de que uma abordagem mais personalizada centrada mais em conversas com editores e outros agentes do sector poderia ser mais benéfica no traçar do retrato da situação da tradução dentro do meio editorial. Por outro lado creio que falta a este livro para poder atingir outra dimensão, ter auscultado os tradutores. Tenho algumas, para não dizer muitas dúvidas, que uma generalidade dos tradutores se revejam nalguns dos pontos que o livro levanta mesmo a nível factual. Ainda assim, reitero, sendo este livro derivado de uma investigação universitária, estes pontos são inevitáveis por mais que limitem a informação.

Do mesmo modo a primeira parte do livro em que é feita uma análise comparativa da evolução sociocultural do país e da evolução do mundo editorial sofre os efeitos da inexistência de bibliografia especializada sobre o sector da edição e omite de forma quase total a própria evolução da profissão de tradutor que sofreu diversas alterações ao longo do século XX. Aqui faltou claramente um conjunto de entrevistas com tradutores com actividade de longas décadas. Essa seria a única possibilidade para colmatar informação que não está reunida em mais nenhum tipo de documento. Da mesma forma a evolução do meio editorial é tratada demasiado pela rama (ainda assim, friso, a rama possível dada a ausência de bibliografia especializada).

O rigor científico desta obra atinge o seu pináculo na suma das teorias e metodologias dos Estudos de Tradução que enformam a segunda parte do livro. Bastante completo e informativo, este capítulo dá várias bases científicas para o que será a análise que seguirá nas duas partes sequentes do livro.

A terceira parte da obra é o resultado do inquérito feito às editoras em 2008. Das 123 casas editoras contactadas, 36 responderam (eu respondi pela Cavalo de Ferro). Dessas 36, 11 informaram que pelos mais diversos motivos não responderiam ao questionário. Assim das 123 casas editoras identificadas, 25 responderam efectivamente ao inquérito. Este universo é muito reduzido para daí se extrapolar o retrato geral do sector mas, em boa verdade, é melhor do que nada.

Dos dados recolhidos, nenhum me surpreende mas acho particularmente interessante um tipo de respostas que revela a que ponto estão enraizadas determinadas "mentiras diplomáticas" no nosso sector. (O que não me surpreende tendo falado com alguns dos inquiridores do mais recente estudo sobre hábitos de leitura dos portugueses levado a cabo pelo Observatório das Actividades Culturais, que me referiam que tinham a certeza que vários dos inquiridos admitiam ler livros meramente porque "pareceria" mal não o fazerem e isto independentemente do inquérito ser anónimo. é uma questão de modelo mental latino.) 

Questões como as motivações das casas editoras que levavam à escolha de um determinado tradutor e a relevância que nelas assume a questão das aceitação das condições contratuais é um claro exemplo da mentira diplomática. Não que esse seja um factor contornável. Esta análise deve cientificamente ater-se à sua limitação. Mas aqui, como em alguns outros pontos, a existência de uma contra-perspectiva que partisse de conversas com tradutores (ou na pior das hipóteses, de um inquérito aos mesmos) teria sido útil.

Facto indesmentível mas que não faz sentido numa obra que pretende ser um estudo científico e que evita sempre a entrevista e conversa com os agentes do sector precisamente para evidenciar a sua "cientificidade" é a constante referência do que os editores admitem "à boca pequena" sobre a falta de qualidade/formação dos tradutores. na minha leitura não percebi que esta informação viesse de alguma resposta ao inquérito - aliás é um ponto recorrente ao longo da obra. Realço apenas a sua presença incongruente, não a sua veracidade.

Já o escrevi antes e disse-o em vários lugares: uma grande maioria dos tradutores que se apresentam para fazer tradução literária não têm qualidade para o fazer. (note-se que uso a expressão "grande maioria" e não "totalidade"). Como o autor deste livro refere amiúde, o trabalho do tradutor é um trabalho de criação literária (daí ele advogar um determinado método de pagamento da tradução), esse tipo de talento literário advém, digo-o pela minha experiência, de muitas leituras literárias. O tradutor que lê nas suas línguas de trabalho boa literatura em quantidade, geralmente atinge um nível de naturalidade no tratamento do texto literário que permite a sua adaptabilidade ao mesmo enquanto vaso condutor. E isto está para lá de qualquer formação (que não deixa de ter a sua importância mas que forma de modo meramente científico não treinado a sensibilidade literária).

Ainda nesta terceira parte do livro há alguns dados de relevância para um retrato do sector mas fica sempre a dúvida sobre a efectiva representatividade que as 25 editoras possam ter relativamente às 123 editoras em actividade reconhecidas pelo estudo. Na minha opinião a maior parte dos dados corresponde ao que conheci do meio até 2008. de lá para cá e devido à crise económica e à chegada de editoras de grande porte com outras filosofias de trabalho e de mercado - muitas delas (as filosofias, entenda-se) decorrentes da crise ou da adaptação de modelos de gestão corporativista americana.

Surpreendente para o autor (e para mim) a relevância que é dada pelas editoras a exigências do autor original sobre aspectos da tradução. Já tive vários autores que interferiram com capas e mesmo assim são uma minoria, agora autores nativos de outras línguas que intervenham no processo de tradução... são novidade.

O Estudo de caso que constitui a quarta parte da obra não surpreenderá ninguém que trabalhe no meio editorial há algum tempo. Será muito provavelmente a parte menos importante e interessante deste livro.

Ficam algumas questões inquietantes decorrentes de dados levantados entre a parte 3 e a parte 4 no que toca a exigências de adaptação da obra traduzida a posições ideológicas da editora (ponto reforçado na conclusão). Para além de me parecer uma questão grave e interessante, mais uma vez seria importante aqui o testemunho dos tradutores. Foi provavelmente um dos pontos mais surpreendentes da obra e espero que mereça melhor atenção em futuras investigações do autor.

No que toca à primeira das duas linhas condutoras da obra presentes ao longo do texto, o autor frisa várias vezes ao longo do texto a necessidade de maior e melhor formação dos tradutores. No que toca a formação interna das editoras para os tradutores não me parece viável dada a natureza intrínseca do perfil empresarial da editora nacional e da sua capacidade humana e económica (que o autor, aliás, muito bem descreve); já no que toca a parcerias/protocolos entre as editoras e a instituição universitária, sendo bem mais viável, ainda assim limita-se em termos potenciais ao um leque muito reduzido das editoras de grande dimensão. Imagino que possa ser bastante importante sobretudo para o livro técnico mas aquilo que verifico nas análises a testes de tradução literária que fiz ao longo dos anos não é a ausência de ferramentas ou conhecimentos técnicos, é a falta de leitura. Isso verifica-se no baixo nível de vocabulário português e na falta de sensibilidade no que concerne a sensibilidade literária. Outro dos problemas recorrentes nos testes de tradução (e que, mais uma vez, só se resolvem com muita leitura) é o desconhecimento dos correspondentes epocais. É muito difícil encontrar um tradutor capaz de verter um texto de outras épocas para uma linguagem que tem de ser o equivalente português do vocabulário dessa época.

Isso requer sensibilidade literária mas também boa cultura e muitas leituras. Dou-vos um exemplo: há uns anos fiz a tradução de um texto de Mark Twain (Excertos dos diários de Adão e Eva). O mais complicado dessa tradução foi acertar no vocabulário e tipo de linguagem a utilizar pois sendo os textos originais do começo do século XX (1904 e 1905) o correspondente em termos de linguagem e vocabulário está muito mais próximo do empregue pelos humoristas portugueses nos finais dos anos 20 e anos 30. E isso requereu leituras de André Brun, Eduardo Schwalbach, Albino Forjaz de Sampaio e outros e isto só foi possível porque eu tenho um conhecimento da literatura portuguesa ao longo dos vários momentos do século XIX e XX que me permitiram perceber qual o melhor correspondente. este tipo de conhecimento, vital para a tradução literária, não se adquire na academia.

O outro factor onde a formação não intervém mas que é essencial para a tradução literária é a naturalidade do coloquialismo literário. O diálogo em literatura é uma forma de representar (fiel ou propositadamente não fielmente o diálogo falado mas a passagem do falado para o escrito tem grandes especificidades e cria uma naturalidade de discurso que não é a mesma de língua para língua. Uma boa parte dos testes de tradução que fiz ao longo dos anos resultou na rejeição dos tradutores por incapacidade de fazer esta transposição que, para um tradutor com muitas leituras nos seus vários idiomas de trabalho acontece de forma quase natural.

Muitos outros testes de tradução foram rejeitados por motivos que, esses sim, podem e devem er trabalhados ao longo do sistema de ensino e formação: falta de cuidados na apresentação, falta de cuidados na reprodução gráfica da tradução face ao original, ausência de investigação que leva a erros de palmatória, péssimo nível de vocabulário português e conhecimento sintáctico, etc etc...
 
Antes de partir para uma questão final, a da forma de remuneração do trabalho de tradução, fazendo desde já um resumo do livro que agora se analisou, diria que é uma obra de importância pela abrangência de perspectiva em torno do sector da tradução, tão pouco abordado e estudado entre nós. Enquanto obra universitária cumpre dentro das limitações documentais as suas funções embora, no meio de tanta informação cientificamente comprovada e comprovável, admita como informação fidedigna alguns rumores e bocas que, sendo verdadeiros, não parecem ter uma fonte concreta indicada de forma científica.

A análise que a obra faz do sector da tradução recolhe dados do lado das casas editoras mas não do lado dos tradutores o que me parece uma pecha tremenda porque acho que consolidaria alguma informação e traria alguma discussão a outros pontos.

No compto geral esta obra é informativa e útil em muitos aspectos para quem queira conhecer a vertente em causado sector e do processo de edição. Em boa hora surge, aliás, agora que o mercado e o processo editorial sofre algumas alterações importantes e seria/será necessária uma reflexão do sector sobre as suas chances de sobrevivência.

APÊNDICE A ESTA RECENSÃO

Para discussão final e porque é um ponto que me incomoda verdadeiramente e com o qual de forma absoluta não concordo com o autor: a questão da forma de remuneração do trabalho de tradução.

Esta é, como indiquei no começo, uma das duas linhas condutoras da obra para o autor. As referências a esta questão aparecem um pouco por todo o livro.

O autor acusa recorrentemente as editoras de não cumprirem o espírito da lei (e portanto e inerentemente de ilegalidade). A sua posição é de que, de acordo com a lei, os tradutores deveriam ser pagos em direitos de autor (como os autores, através de uma percentagem sobre o valor de capa do livro vendido).

Admito que esta forma é, efectivamente, a norma de lei - aliás cito o artigo 172º do código de direitos de autor que o autor cita: "2 - salvo convenção em contrário, o contrato celebrado entre editor e tradutor não implica cedência nem transmissão, temporária ou permanente, a favor daquele, dos direitos deste sobre a sua tradução." 

Acontece que, ao contrário do autor, eu leio "salvo convenção em contrário" que parece ter escapado ao autor. esta pequena ressalva permite o modelo de contrato norma no mercado português e permite que continuemos a ter traduções e tradutores em Portugal.

O que Jorge Almeida e Pinho não parece perceber é a real dimensão do mercado e os números efectivos de vendas de livros (antes e depois da crise). 

Eu tenho a certeza que não conseguiria um único tradutor se lhe oferecesse um contrato de tradução nos termos em que JAeP advoga. Que tradutor nacional aceitaria ser remunerado como um autor nacional recebendo um ano depois da publicação da obra uma percentagem do preço de capa dos livros vendidos pela editora? Ainda para mais sabendo-se bem quais as vendas de livros traduzidos. 

Se a situação preconizada por JAeP fosse norma, em Portugal apenas teríamos tradutores para best-sellers. Façamos um exercício: uma editora procura um tradutor para fazer uma tradução literária complexa, digamos uma obra de um autor de qualidade premiado internacionalmente como Juan Carlos Onetti ou um prémio Nobel como Isaac Bashevis Singer, por mero exemplo, essa obra estima-se que tenha, umas 200 páginas com 2000 caracteres por página. Assim e considerando que dado as páginas de começo e final do livro e finais de capítulo o número efectivo de páginas de texto será de umas 175 páginas, considerando um pagamento norma de  8 € por cada 1800 caractéres incluíndo espaços, o tradutor receberia 1555 €. 

No modelo defendido por JAeP um tradutor receberia um ano após a publicação do livro (como o autor caso esteja ainda em domínio privado) uma percentagem de digamos 3% (considerando que um autor estrangeiro recebe em média 8% e um autor nacional 10%) sobre vendas efectivas do livro (não sobre colocações) que para um destes autores ronderá os 500 a 900 exemplares vendidos - fiquemo-nos por uns 750 a um preço de capa de 15 €. Assim o tradutor receberá 337, 5 €. Ora como também sabemos o mercado neste momento não trabalha reposições pelo que todo o título que não seja vendido volta para armazém e provavelmente não volta à livraria (muitas vezes mesmo quando há encomendas pois o lucro de um fundo de catálogo não compensa o esforço da encomenda e a política de muitas cadeiras livreiras é indicar que "está esgotado").

Ainda assim digamos que o livro mantém algumas vendas ocasionais e atinge nos 3 a 5 anos seguintes à sua publicação vendas da ordem dos 1000 exemplares. Nesse casoe  diluído pelos anos seguintes ao primeiro ano de publicação em que recebeu o referente às vendas de 750 exemplares, o tradutor receberá ainda a verba de 112,5 €.

Com esta realidade que tradutor quererá traduzir boa literatura? Não tenho dúvidas que os tradutores quererão traduzir Harry Potter, ou "O segredo", ou Nora Roberts, mas fora estas e algumas outras excepções, mesmo muita literatura comercial ficaria sem tradução.

Ainda assim e se existirem tradutores dispostos a trabalhar neste regime, são a alegria de muitos editores que podem baixar os preços de capa dos livros pois baixam o segundo maior custo na produção de um livro após a impressão e acabamento.

O que muitos agentes do sector parecem não ter ainda percebido apesar de se movimentarem neste meio há alguns anos, por vezes até décadas, é que não há número suficiente de leitores para justificar a dimensão da indústria de edição que temos. Que o nosso mercado deveria ser regrado de forma muito mais apertada e efectiva por um qualquer órgão de controlo e fiscalização (ou pelo menos por um sistema de autocontrolo como o que já sugeri em tempos à Secretaria de Estado da Cultura). E que todos os agentes do sector deveriam estar empenhados na criação de políticas de angariação de novos leitores. neste momento a grande questão é se o sector editorial sobrevive nos próximos 5 a 10 anos. 

A crise afastou a grande maioria dos denominados públicos flutantes e conduziu o mercado à sua real dimensão. As estatísticas continuam, por interesse das editoras (ainda que mal orientado) e dos restantes agentes do sector (por motivos parvos e inadequados), a ser forjadas e irreais.

Era muito importante que se criasse um curso de economia para o sector específico do livro. falta muita capacidade de fazer contas e faltam fontes fidedignas de números de um sector que parece empenhado em maquilhar-se constantemente para uma qualquer e hipotética festa que não vai acontecer.

9/04/2013

Como um gestor a olhar para um livro


Em conversa com o meu amigo e editor Vasco Silva referíamos a dificuldade que a gestão corrente tem em perceber as particularidades da gestão cultural, mormente editorial. Para quem trabalha no setor há algum tempo isso parece óbvio, mas para a maioria das pessoas essa afirmação é de tal forma abstrata que me parece necessário explicitá-la.

Como em tudo, é somente uma questão de valor. Mais propriamente uma questão de equilíbrio entre valores tangíveis e intangíveis. Trabalha-se com um produto de experiência, cuja apreensão de valor, vantagens de usufruto e satisfação dependem de mais variáveis do que a de um refrigerante ou outro objeto de grande consumo.

E quando falo de valores intangíveis, refiro-me ao que é imaterial – pouco metal sonante – mas que se transforma em riqueza indiretamente: como o valor de marca, a arquitetura e reputação empresarial (junto de fornecedores, clientes intermédios, etc.), por exemplo. Se o investimento for só no próximo produto, que deverá em 1 ou 2 anos ter um retorno de X , não se estará a acrescentar nada à empresa para além do tão necessário capital financeiro.

Não julguemos que o dinheiro compra tudo: aqui não compra. Porque só com um catálogo bem feito e pensado se conseguem obter determinadas vantagens no mercado, como a reputação e a «boa vontade» suficiente para obter críticas jornalísticas favoráveis, obter o hands-on know-how e as patentes que nos irão posicionar na frente do mercado especializado, ter a marca que todas as cadeias de livraria necessitam de ter por exigência de reputação do cliente, as parcerias necessárias para diluir custos de investimento, a arquitetura relacional para conseguir fazer ou comprar este ou aquele produto mais rentável, ou até os activos estratégicos que permitirão vender a empresa um qualquer grupo nacional ou internacional (que o diga a Assírio & Alvim, a Sextante, a Dom Quixote, a Caminho, a Teorema e tantas outras editoras que acabaram por ser compradas pelos Grupos Editoriais portugueses pelo seu catálogo e valor de marca).
Se tudo isso soa a dinheiro, infelizmente soa também a «médio e a longo prazo».

O equilíbrio é, então, necessário. Devemos conhecer o nosso mercado para saber até onde podemos investir no futuro da empresa, e até onde conseguimos de rentabilizar o capital investido com resultados a mais curto prazo. O dinheiro é preciso, mas o futuro também, e um gestor não cultural não está muito habituado a pensar em prazos alargados, não se conforma com a necessidade de investir em intangíveis quando tem tantas dívidas para pagar e pensa que, com dinheiro, tudo se resolve, como acontece muitas vezes nos produtos de grande consumo.

E depois, cada mercado editorial tem equilíbrios diferentes, trabalhando para públicos com exigências diferenciadas. Quem trabalha em poesia, em ensaio universitário ou no livro escolar sabe que não pode brincar com os intangíveis, quem aposta em cavalos mais comerciais, para públicos menos atentos e mais impulsivos, intangível é uma «coisa que não lhes assiste».

O problema do gestor comercial que trabalha com produtos culturais é que necessita de tempo e de abertura de espírito para passar a saber em que é que deve apostar e quanto para conseguir ganhar este jogo. Em edição, como em tudo, o futuro também depende do próximo produto, mas, paradoxalmente, dependerá ainda mais do passado: da marca e do fundo editorial perene que, bem geridos, se vão tornando no capital mais importante e que definirá se a editora sobreviverá.

Nuno Seabra Lopes

8/27/2013

'Amazonificação', Grupos Editoriais e Espírito do Livro

 

O tempo de férias foi propício à reflexão sobre importantes notícias que, mais uma vez, agitam as águas do mundo editorial deixando perceber que estão em curso novas transformações relevantes, e com implicações que não podem deixar de nos inquietar. Para simplificação de raciocínio, centro-me nas informações que vão chegando sobre os movimentos que se registam no universo Amazon, e naqueles que a partir da fusão entre a Penguin e a Random House se perspectivam no domínio dos grandes conglomerados editoriais.

As posições críticas que tenho manifestado relativamente à entrada de empresas tecnológicas (Amazon, Apple, Google) no mercado do livro, nomeadamente ao afirmar que estamos perante “… a intrusão de novos players que, estando no negócio editorial e livreiro, não estão no mercado da cultura…”, estão necessariamente presentes nas minhas apreensões relativamente ao futuro da leitura, independentemente do suporte físico que venha a predominar - impresso ou digital.
Neste contexto, não me surpreendem os artigos e notícias sobre a Amazon que surgiram nas últimas semanas: «New Amazon Patent Seeks to Add “DVD Extras” to eBooks» (artigo de 5/7/2013, publicado por Dean Fetzer em http://litreactor.com/); «Monopoly achieved: An invincible Amazon begins raising prices» (artigo de 8/7/2013, publicado por Alex Shepphard em http://www.mhpbooks.com/); e «Washington Post vendido ao fundador da Amazon» (notícia de 5/8/2013, em http://www.publico.pt).

Tudo se encaixa numa estratégia da Amazon, que oportunamente considerei “…de promoção e liderança da edição digital, que lhe seria bastante mais rentável do que o logisticamente complexo e oneroso comércio electrónico de livros impressos”. No entanto, o bem-sucedido desenvolvimento de conteúdos editoriais próprios e o estabelecimento de parcerias com editores de referência, associado ao encerramento de prestigiadas livrarias independentes e ao desmantelamento de importantes cadeias de livrarias, fazem crer que a Amazon pretende ir mais longe na sua estratégia e constituir-se como temível candidato à liderança do mercado editorial e livreiro, também no domínio do livro impresso.
À luz desta evolução, compreende-se melhor o porquê dos grandes movimentos de concentração iniciados com a fusão Penguin-Random House, à qual, conforme «This is what the publishing industry will look like if the Big Six become the Big Four» (artigo de 20/11/2012, publicado por Zachary M. Seward em http://qz.com/), se poderá seguir a consolidação entre os já de si gigantes HarperCollins-Simon & Schuster, e vir mesmo a provocar a reacção da Hachette e uma subsequente passagem a Big Three. As consequências não se limitarão aos efeitos referidos em «The Victims of the Penguin & Random House Merger: Literary Agents» (artigo de 27-11-2012, publicado por Ella Delany em http://www.thedailybeast.com/).

Estamos perante o contra-ataque dos grandes grupos editoriais, legítimo, mas tendente a agravar a já de si desequilibrada relação de poder face aos editores independentes; são também evidentes os riscos de a edição literária sofrer uma ainda maior degradação em favor do predomínio de bestsellers de literatura ligeira, e de a diversificação e pluralidade da oferta se verem substancialmente reduzidas. O cenário apresenta-se pouco risonho. O que não é novidade. Nos cinco séculos de vida da palavra impressa, têm sido muitas as ameaças de sobrevivência consideradas fatais para o futuro do livro e da leitura, incluindo a antevisão feita há uma centena de anos anunciando que… a então aparecida bicicleta ditaria a morte do livro!
Mas o livro tem uma magia especial. Citando Padre António Vieira: “O livro é um mudo que fala, um surdo que responde, um cego que guia, um morto que vive”. E lembrando palavras proferidas por José Saramago em Outubro de 1995: “É do leitor que todos nós dependemos e crise, se houver, é da leitura. Só há crise da leitura se houver crise de curiosidade, se o ser humano se transformar num ser sem essa espécie de «bexiga incómoda» que é a curiosidade que nos vai levar a saber um pouco mais do que aquilo que sabíamos.”

Na conjugação destas duas citações, encontro o ‘espírito do livro’. É aqui que vejo o potencial de resposta aos desafios que antes enunciei. Acredito que a curiosidade humana é inesgotável e a cultura da palavra escrita permanece viva nos leitores, autores, editores e em todos quantos vivem no mundo dos livros. Estou convicto que, nesta guerra sem quartel, sairão vencedores os que melhor interiorizarem a aventura que cada livro constitui. Não forçosamente os maiores, mas os melhores.

Duvido que a ‘amazonificação’ prevaleça, acredito no sucesso de grupos editoriais que integrem e respeitem os valores do livro, e estou convicto que se manterá a importância de editores independentes que tenham arte, e competência, para fazer valer uma relação personalizada com autores de relevo, em simultâneo com critérios editoriais de excelência, chancelas de prestígio, comunicação eficaz, uso apropriado das potencialidades digitais, e partilha efectiva de serviços logístico-administrativos.

6/26/2013

Fazer livros é brincar com o efémero.

Gianluca Foglia

Não sejamos chatos. Os livros não são eternos e para perdurar nos tempos é necessário que o vento sopre e a areia passe pelo buraco da fechadura. Afinal, nem Homero era Homero... e a gravação na pedra é mais perene do que no papel ou no servidor.

Se pouco ou nada irá ficar para a geologia, que durante os nossos tempos algo fique é ainda assim importante; chegar ao fim do dia, do ano, da respiração e ter a sensação que ainda estamos presentes no mundo, de que algo foi feito para quem cá está – a dádiva egoísta do homem.

E tudo isso para falar de trabalho...
Num mercado literário destruído pelo vício da cópia – não a pirata, mas a económica: a da busca abstrusa pelo best seller com base no que funcionou – perde-se o espaço do livro e da criação.

Publica-se para o sucesso do mês seguinte, procura-se o fenómeno do Top (assim, com maiúscula, para significar) a custo da perenidade, cria-se o livro de que ninguém se lembrará no dia seguinte. Tal como as bandas de uma só música, proliferam hoje autores de um só livro ou coleção que são, para os editores, o sucesso do efémero, a certeza de que este ano as contas estão pagas. No próximo livro as vendas quebraram a um terço e, dentro de 10 anos, ninguém do mercado quererá saber deles, tão focados estaremos no sucesso seguinte.

Matam-se os velhos pelos novos, o potencial pela certeza.

No entanto, toda a gente sabe que um autor faz-se (quase sempre) ao contrário. Começa pela diferença e, pelo seu trabalho, vai convencendo leitores a partir do cerne, mudando-lhes a casca, introduzindo-se ou «infetando», como diz Lobo Antunes.

Gianlucca Foglia não acha ser possível continuar a editar nesta corrida permanente, que a atenção terá de regressar ao autor, aquele que é capaz de manter vendas permanentes e salvaguardar o futuro do livro e da edição. Apostar na certeza lenta, em vez da lotaria que, quase sempre, falha e, no caminho, destrói o mercado.

E eu acho que ele é das únicas pessoas que atualmente está a falar sobre o futuro da edição. O resto são fait-divers digitais.

A propósito das palavras de Gianlucca Foglia, diretor editorial da italiana Feltrinelli, na sessão A edição: passado, presente, que futuro?, organizado pela Fundação José Saramago/ Casa dos Bicos.

Nuno Seabra Lopes

4/03/2013

Padre António Vieira - A Obra Completa

 
 
O Círculo de Leitores faz, uma vez mais, história na edição em Portugal! Ao expressar esta convicção, estarei certamente a ser influenciado pelos trinta anos que passei no Círculo. Acredito, apesar disso, que a opinião isenta de quem vive no mundo dos livros coincidirá com a minha apreciação.
 
Publicar pela primeira vez em quatrocentos anos, a obra completa do missionário sobre o qual Fernando Pessoa se pronunciou, considerando "É de facto o maior prosador – direi mais, é o maior artista – da língua portuguesa.", constitui mais um marco assinalável nas quatro décadas de vida do clube do livro no nosso país, ao longo das quais editou obras de grande valor literário e historiográfico, afirmando-se, justamente, como relevante e prestigiada instituição cultural.

Em À Janela dos Livros: Memória de 30 anos de Círculo de Leitores, procurei fazer uma cronologia tão detalhada e esclarecedora quanto me permitiu o engenho e arte, do que de mais relevante ocorreu na vida editorial do Círculo de Leitores e na sua relação com a sociedade, durante as três primeiras décadas de existência, o tempo correspondente ao período em que tão intensamente partilhei o sabor dos maiores sucessos e os desafios que em cada momento foi sendo necessário ultrapassar.

Amanhã, tem lugar na Aula Magna da Universidade de Lisboa a cerimónia de lançamento da Obra Completa do Padre António Vieira, conforme informação detalhada em À Janela dos Livros. Uma excelente ocasião para que aqui deixe um desafio, no sentido de ser desenvolvido e concretizado, por entidade competente, um projecto de investigação sociológica sobre o forte impacte do Círculo de Leitores na elevação do nível cultural da sociedade portuguesa, nomeadamente por via da divulgação do livro junto de centenas de milhares de famílias, do fomento de hábitos de leitura, do acesso ao conhecimento dos melhores clássicos da língua portuguesa, do incentivo à produção académica de obras de grande vulto, e da disseminação pelo grande público de obras de inegável valor historiográfico. Pela minha parte estarei disponível para, dentro das minhas possibilidades, dar o contributo que seja considerado útil.

Rui Beja

2/06/2013

O Livro de Bolso, uma história não tão recente

Um dos elogios que é regularmente feito a Francisco Lyon de Castro é o de ter sido o introdutor do livro de bolso em Portugal. Não querendo de forma alguma retirar o grande mérito desse grande Editor - mérito esse que abordarei mais adiante - , creio ser necessário um pouco de esclarecimento histórico em torno deste assunto.

Antes de Lyon de Castro havia já "livros de bolso" em Portugal. Não tinham esse nome mas o conceito e até boa parte dos mecanismos de divulgação e promoção eram os mesmos. Desde os anos 30, por exemplo, a Civilização tinha a sua colecção de grandes obras a pequenos preços. A Lello iniciou a sua pela mesma altura mas a história não principia aí.

Historicamente e a nível internacional, a designação "livro de bolso" surge de uma colecção iniciada em 1905 pelas éditions Jules Tallandier de Paris. A maior difusão começa, contudo, no mundo inglês, nos anos 30 com as edições da britânica Penguin e nos EUA da Pocket Books (hoje em dia uma divisão da Simon & Schuster). Apenas nos anos 50 e em virtude do sucesso do modelo inglês regressa ao mundo francófono através da Livre de Poche que reunia a participação de diversas casas editoras sob a regência de Henri Filipacchi. Mas estamos apenas a falar da designação "livro de bolso". O conceito em si era bem mais antigo e de invenção francesa.

O conceito é simples: oferecer literatura a baixo preço através de um formato pequeno e "portável". Inerentemente a este conceito subjaz sempre a necessária maior tiragem, absolutamente vital para compensar o editor da menor margem que retira das vendas.

Com efeito, com a massificação do acesso à obra literária, desde finais do século XVIII que edições baratas tinham tomado o lugar da famosa literatura de cordel. Em termos sociológicos é interessante verificar como autores mais ou menos comerciais começam a entender e orientar a sua escrita para um público mais generalizado. Historicamente não surpreende que essa transformação acompanhe igualmente a explosão da imprensa escrita e coincida, por sua vez, com as diversas revoltas político-sociais que marcaram esse final de século.

Nunca se saberá, imagino, quem primeiro teve a ideia, se um autor se um editor, mas a verdade é que, com o começo do século XIX, surgem também as primeiras "edições populares". Os grandes autores vêm as suas obras serem publicadas num formato de prestígio e posteriormente numa edição popular, bastante mais acessível, menos dispendiosa e consequentemente facultada a um preço bastante mais baixo, chegando, desse modo, a um público mais abrangente.

Num percurso paralelo a esse, uma literatura mais popular, de certa forma descendente directa da literatura de cordel, apanha o comboio do neo-gótico de finais do século XVIII (que virá a estar na base dos géneros policial, de terror, do Thriller ou da Ficção-científica), e toma de assalto o mercado do livro. Edições diversas das obras de Ann Radcliffe, Walpole e tantos outros no mundo inglês, de Soulié ou Sue em França (com imensos seguidores), introduzem a literatura de emoção (próxima mas ao mesmo tempo longínqua do melhor Samuel Richardson) a um público ávido de distracção e que tem no acesso ao livro e à leitura a grande distracção.

Estas edições apareciam quase todas de base em formato "popular": pequeno formato, materiais de menor qualidade, baixo custo de produção e reduzido preço de venda em tiragens de vários milhares. Como a imprensa era ainda tipografia manual e a velocidade e quantidade de impressão condicionada, os editores faziam as estimativas comerciais das suas vendas pelo género ou pelo autor, calculando, desde o princípio, que o livro atingiria impressão de mais ou menos de "x" milhares. Assim, os editores sabiam que o break-even point da produção de um livro em altas tiragens só seria coberto após diversas tiragens. Curiosamente um tipo de raciocínio que seria bastante útil fazer-se hoje em dia.

Já agora e por uma questão de precisão histórica, a maior parte das ditas "edições populares" mesmo aquelas que tinham formato maior do que os maiores livros de bolso dos nossos dias, cabiam nos enormes bolsos dos populares da época. Bolsos que eram igualmente usados para transportar intrumentos de trabalho e tudo o mais de que houvesse necessidade.

Em meados do século XIX, em Portugal, a Typographia Rollandiana, inundava o mercado com as suas edições dos autores de sensação, edições traduzidas ou romances apócrifos, ou ainda romances sem autoria explícita "ao modo de Ana Radcliffe" ou "Frederico Soulié". Eram edições em formato ligeiramente mais reduzido do que a maior parte dos formatos de bolso actuais. Outras casas editoras se lhe seguiram.

Nas últimas décadas do século XIX, o Editor David Corazzi traz a Portugal, naquela que foi uma das suas poucas viagens para fora de França, um autor chamado Jules Verne que veio a Lisboa assinar, numa enorme campanha de marketing avant la lettre e grande cobertura de imprensa, os contratos de edição para língua portuguesa. Durante a cerimónia, David Corazzi anunciou a criação da série de luxo e da edição popular. Na viragem do século XIX para o século XX, a Parceria António Maria Pereira oferecia a edição popular das obras de Camilo, imitando Corazzi, na altura já falecido e cuja editora era então de seus herdeiros e cujo nome - de pouca dura devido a disputas familiares e má gestão - fora alterado de David Corazzi Editor para Empreza de Horas de Leitura.

Ambas as edições populares inundaram o mercado a ponto de serem ainda hoje encontradas em quantidade capaz de rivalizar com a colecção Vampiro ou a Livros RTP nos escaparates das lojas de alfarrábio.

Também por cá portante, se seguiram as duas linhas de edição popular então correntes na Europa. Aliás não será de estranhar que o autor Pierre Benoit, que tinha inaugurado em França no ano de 1953 a colecção Livre de Poche, tenha sido publicado em formato de bolso pela Civilização numa das suas diversas colecções populares.

A deliciosa história da criação da Vampiro e da Livros do Brasil e da sua ligação com a Civilização não a posso contar pois não tenho todos os dados mas lanço desde já o desafio ao Nuno Medeiros - creio que até merecia um livro.

Uma das histórias que gostava de conhecer - e essa não conheço de todo - foi a passagem da mítica colecção à qual (erradamente como já referi) se atribuí a primeira aparição do livro de bolso no nosso país, a colecção Livros das Três Abelhas, que começou a ser editada pela Editorial Gleba, para a Europa-América. Qual o papel de Lyon de Castro nessa transição e quais as relações entre a editora que marcou as primeiras décadas do século XX com as suas notáveis antologias de contos e a Europa-América no seu modelo comercial assente sobre o conceito do livro de bolso, são questões às quais gostaria de ter resposta.

E aqui chego ao grande papel que teve a Europa-América de Lyon de Castro enquanto modelo industrial e comercial. De facto a grande inovação foi a criação de todo um modelo editorial e empresarial tendo por base o conceito do livro de bolso. Nada nesse processo era novo excepto a sua dimensão. Havia já várias editoras com gráfica própria, havia várias colecções e vários tipos de livros distribuídos fora do canal Livraria. Nunca, contudo, uma gráfica, a sua maquinaria, o tipo de papel, etc. tinham sido pensados em função de uma estratégia global de produto. Nunca antes a cadeia de distribuição tinha sido alargada a tantos pontos fora da habitual cadeia de distribuição dos livros. E aí, bem como nos sistemas de trabalho editorial (a tradução e revisão, sobretudo no que isso acarretava de bom e mau), a implantação de uma estratégia global foi efectivamente algo de inovador.

A Vampiro da Livros do Brasil e as suas seguidoras colecções de policial (da Minerva, da Bertrand/Ibis, da DH, etc.) nunca conseguiram ter a projecção presencial das ediçôes da Europa-América, e se estiveram próximas foi porque lucraram com o exemplo desta. Em termos de quantidade e meios, a única editora capaz de rivalizar com a Europa-América, mas que nunca acabou por fazê-lo pois optou por ocupar um segmento de qualidade bastante inferior, foi a Agência Portuguesa de Revistas/Empresa Nacional de Publicidade, editoras que surgem de embrião na empresa do Diário de Notícias e cuja história de fusões, vendas, mutação de nomes, e muito mais, daria um grande livro sobretudo pela influência social das suas publicações.

Foi da proliferação do policial de má qualidade (em boa parte causada pela sobre-exploração da fórmula) que derivou uma certa ideia de falta de qualidade associada ainda hoje à edição de bolso. A Europa-América, numa fase já tardia, caiu demasiado no logro da edição sem critério de qualidade editorial que mais ainda afundou a imagem do livro de bolso pois as traduções, por vezes verdadeiros crimes de lesa-conteúdo, já não garantiam pelo preço a compra da parte de um público mais educado e selectivo.

Pode dizer-se muito bem ou muito mal da Europa-América de Lyon de Castro, mas tem de se reconhecer a coragem deste em ter montado um pequeno império com base numa estratégia editorial, comercial, logística e industrial que lhe granjeou um pódio de entre todos os posteriores imitadores.

Só não digam que Lyon de Castro foi o introdutor do Livro de Bolso em Portugal porque não é verdade.