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3/18/2024

 50 Anos no Mundo do Livro: Da Gestão à Investigação


Projecto iniciado em 2021, desenvolvido no âmbito do plano de actividades da unidade de I&D Centro de Línguas Literaturas e Culturas da Universidade de Aveiro, publicado por Âncora Editora com prefácio de José Soares Neves e posfácio de David Callahan.

Apresentado em 14 de Março de 2024, na Sala de Âmbito Cultural do El Corte Inglés, por Paula Morão, Professora Catedrática Emérita da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e ex-Directora-Geral do Livro e das Bibliotecas.

Estruturado em estilo de narrativa biográfica e compilação documental, 50 Anos no Mundo do Livro não é uma autobiografia, não é um livro de memórias, não constitui o relato de uma história de vida. Trata-se de um testemunho escrito, desenvolvido com o objectivo de divulgar e preservar para memória futura factos, princípios e realidades que estão presentes na minha vivência e no acompanhamento da relação virtuosa entre a palavra escrita e a prática de princípios de gestão socialmente responsável no contexto da indústria cultural do livro, uma associação de valores relevante para o desenvolvimento sociocultural.

O evento constituiu, igualmente, uma oportunidade de dar contributo para a memória colectiva da luta e importância da actividade editorial e livreira pela conquista e consolidação da liberdade democrática em Portugal


3/29/2016

António Abreu - Por Flamarion Maués

Criador de editoras em Portugal e no Brasil,
morreu o editor António Abreu

Por Flamarion Maués, de São Paulo

Faleceu hoje, 20 de março de 2016, em São Paulo, o editor português António Daniel Abreu, criador das editoras Cadernos Para o Diálogo (1971), Textos Marginais (1972), Rés (1975) e Nova Crítica (1975), todas sediadas na cidade do Porto. Em 1986 ele mudou-se para São Paulo, onde vivia desde então, também exercendo a profissão de editor, à frente da editora Landy.

A notícia foi dada por sua companheira, Linda de Lima, pelo Facebook.

Conheci e entrevistei Abreu em 2012, quando escrevia minha tese de doutorado sobre as editoras políticas portuguesas do período do marcelismo e do 25 de Abril, já que suas duas primeiras editoras tiveram destacado papel na oposição à ditadura portuguesa.

É uma perda lamentável, sem dúvida. Abreu foi uma pessoa que dedicou sua vida à edição e aos livros, merece todo o nosso respeito.

A título de homenagem, reproduzo abaixo os trechos do meu trabalho que tratam das editoras Cadernos Para o Diálogo e Textos Marginais.

Para que quiser ver a tese na íntegra, ela está disponível na internet: SILVA, Flamarion Maués Pelúcio Silva. Livros que tomam partido: a edição política em Portugal, 1968-80. Tese de doutorado em História, Universidade de São Paulo, 2013. Disponível em: <http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8138/tde-07112013-131459/en.php>.

Duas editoras contra a ditadura
Flamarion Maués


Cadernos Para o Diálogo
Porto
Editor: António Daniel Abreu.
Início das edições: 1971.
Distribuição: Livraria Paisagem.

   




Editora criada em 1971 por António Daniel Abreu na cidade do Porto. Sua origem relaciona-se à atividade profissional de Abreu na Editora Paisagem (ver item sobre esta editora no Capítulo 11), onde ele trabalhava no setor de vendas.

Abreu tinha ligações com setores católicos progressistas, que faziam oposição à ditadura, e tinha feito parte da Juventude Operária Católica (JOC) e do Gedoc (Grupo de Estudos e Intercâmbio de Documentos, Informações, Experiências). O nome da editora foi inspirado na revista espanhola Cuadernos para el Diálogo[1], que circulou entre 1963 e 1978 e vinculava-se inicialmente ao pensamento democrata-cristão, “evoluindo para posições próximas à centro-esquerda, para terminar, em sua última fase, com um jornalismo de corte socialista”[2]. O mesmo grupo que editava a revista criou na Espanha, em 1965, uma editora com o mesmo nome[3].

Depois que saiu da Paisagem, no começo da década de 1970, Abreu foi trabalhar na editora Inova, de José Cruz Santos, também no Porto. Lá ficou pouco tempo, pois decidiu começar a editar por conta própria. “Comecei a editar em 1971. Eu tinha 19 anos, então a minha mãe teve que me dar a emancipação, pois eu era menor de 21 anos”, conta Abreu[4], que desde 1986 vive no Brasil.

“O Abreu, do seu trabalho de vendas, percebeu que havia espaço para fazer publicações de orientação oposta ao regime, que condiziam com os sentimentos dele de opositor da ditadura, e começou a fazê-las, com todo o atrevimento e ingenuidade”, lembra João Barrote[5], que trabalhou com Abreu na Editora Paisagem e depois colaborou com ele na editora Textos Marginais.

A primeira editora criada por António Daniel Abreu foi a Cadernos Para o Diálogo, que editou seis títulos em 1971. Entre os autores estavam Marx (Trabalho assalariado e capital), Engels (A questão do alojamento), D. Helder Câmara (Espiral de violência) e Aime Césaire (Discurso sobre o colonialismo). Este último livro, em particular, “era uma afronta para o regime, porque a palavra colonialismo tinha sido banida em Portugal”, lembra Abreu. Os outros dois títulos publicados foram O império Rockefeller e Comuna de Paris 1871, de Prosper Ollivier Lissagaray.

Tais lançamentos não passaram despercebidos pela polícia política. Abreu recorda que:

A Cadernos Para o Diálogo publicou livros, digamos, muito avançados, a polícia política, a PIDE/DGS, veio em cima de mim, apreendeu tudo, fizeram um processo, e eu tive que parar com aquilo porque não tinha mais condições. Qualquer livro que saísse eles vinham em cima de mim.

Um bom exemplo dessa perseguição foi a censura ao livro Discurso sobre o colonialismo, de Aime Césaire. O texto foi retirado da revista francesa Présence africaine, trazida clandestinamente para Portugal por membros do PCP. O livro começou a ser distribuído no dia 6 de dezembro de 1971 e dois dias depois já era de conhecimento da PIDE/DGS[6]. Abreu diz que “neste caso foram informadores infiltrados na gráfica que terão entregue uma cópia do livro directamente às autoridades quando este estava pronto para ser distribuído”[7].

O relatório da DGS sobre o livro é curto e direto: “O autor é negro, comunista e foi em tempos deputado francês. Trata-se duma diatribe contra a civilização ocidental, numa pseudo defesa das civilizações negra, oriental e índia. Para proibir”[8].

Para tentar escapar à perseguição e ao estigma que a Cadernos Para o Diálogo tinha criado junto à PIDE, Abreu resolveu encerrá-la e iniciar uma outra editora. “Foi quando eu comecei a Textos Marginais, com uma proposta diferente, mais aberta”, diz Abreu.

Assim, a existência da Cadernos Para o Diálogo foi curta, cerca de um ano apenas, com seis títulos publicados, todos com padrão gráfico e editorial profissional e distribuídos pela Livraria Paisagem. A editora foi vítima das perseguições policiais e da censura da época, que acabaram por inviabilizar a sua continuidade. Dito de outra forma, a editora “[...] desapareceu somente por motivos coercitivos”[9].

Abreu criou mais três editoras em Portugal – Textos Marginais, Rés e Nova Crítica –, sempre no Porto. Em 1986 mudou-se para São Paulo, onde vive desde então, também exercendo a profissão de editor, à frente da editora Landy. 


Textos Marginais
Porto
Editor: António Daniel Abreu.
Início das edições: 1972.
Distribuidor: Dinalivros / Brasil: Martins Fontes.

 





Editora criada por António Daniel Abreu na cidade do Porto, em 1972, para dar continuidade à sua atividade de editor. Abreu havia criado no ano anterior a editora Cadernos Para o Diálogo, que havia tido muitos problemas com a polícia política e a censura, devido aos títulos publicados.

A criação da Textos Marginais foi a forma encontrada por Abreu para tentar escapar a esta perseguição, já que qualquer título que viesse a ser publicado pela Cadernos Para o Diálogo estava fadado à censura e à apreensão. O nome da nova editora parece ter sido inspirado pela coleção Cuadernos Marginales, da Editorial Tusquets, de Barcelona, criada em 1969[10].

Os livros editados pela Textos Marginais se caracterizavam pelo marcado caráter político e ideológico ligado ao pensamento transformador, de esquerda e marxista, mas não tocavam diretamente na questão colonial, que, na opinião de Abreu, era o ponto que mais incomodava o regime. Diz ele:

Antes do 25 de Abril havia uma “liberdade vigiada” pela polícia política. Os livros eram isentos de censura [prévia], mas eram apreendidos quando ultrapassavam as barreiras da “legalidade” imposta. Havia algumas coisas que eles não permitiam de jeito nenhum. Em relação aos clássicos, Marx, Engels, a perseguição não era tão grande, mas as coisas ligadas aos movimentos coloniais eles não perdoavam de jeito nenhum.[11]

Antes do 25 de Abril a Textos Marginais publicou livros como: O sistema irracional, de Paul Baran e Paul Sweezy (1972); A guerra civil de Espanha, de Andrés Nin (1972); Contribuição para a história do cristianismo primitivo, de Karl Marx e Friedrich Engels (1972); Os cristãos e a libertação dos povos, de Yves Jolif e outros (1972); Uma educação para a liberdade, de Paulo Freire (1972); Discurso sobre as artes e as ciências, de Jean-Jacques Rousseau (1972); O novo mundo industrial e societário e outros textos, de Charles Fourier (1973); e Império e imperialismo americano, Celso Furtado e outros (1973).

António Abreu recorda que:
Os livros da Textos Marginais eram um sucesso. Quando fiz o primeiro eu tinha um certo receio, porque a polícia vinha sempre em cima de mim, então eu comecei com 1.500 exemplares, que já saíam praticamente vendidos. Aí eu fui aumentando a tiragem até que chegou a 10 mil a tiragem inicial. E vendia tudo.

A partir do quinto ou do sexto livro editado, Abreu passou a contar com a assessoria de João Barrote, com quem havia trabalhado na Editora Paisagem, e que em 1973 criou as Publicações Escorpião/Textos Exemplares. Barrote fazia a supervisão das traduções e também indicava textos para edição. “Mas a grande maioria era eu mesmo que selecionava”, afirma Abreu.

Os recursos investidos na editora eram de Abreu. “Na verdade o investimento era quase nulo, porque os livros já saíam quase todos vendidos”, diz ele.

Um dos maiores sucessos da editora foi o livro O combate sexual da juventude, de Wilhelm Reich, publicado em 1972, que vendeu quase 30 mil exemplares. “Quando eu resolvi editar este livro todo mundo disse que eu estava louco, que eu seria preso, mas resolvi editar assim mesmo. Foi um sucesso, vendeu uns 20 mil, 30 mil exemplares. Eu tirei os primeiros 5 mil e vendeu tudo em 24 horas”, lembra Abreu.

“Com a Textos Marginais os problemas com a censura e a PIDE/DGS foram poucos”, diz. Ele lembra que teve problemas em 1972, quando uma nova Lei de Imprensa reforçou a exigência de registro na Secretaria de Estado da Comunicação Social para se poder editar. “Como eu não estava inscrito lá, eles fizeram um processo por conta do livro A medicina e a vida hospitalar na República Popular da China. Aí fiquei praticamente proibido de editar, meu nome não podia aparecer nos livros”.

Em 1973 Abreu estava em idade militar e foi enviado para Angola, onde ficou 21 meses. “Com o meu histórico com a PIDE, fui pra lá com uma espécie de ‘estatuto de revolucionário’, que eu nunca tive de fato”, lembra. Mas mesmo na África Abreu conseguiu dar continuidade às edições, inclusive realizando algumas revisões de textos que lhe eram enviados por correio.

Quando deu-se o 25 de Abril, Abreu estava em Angola, mas pouco tempo depois já havia retornado a Lisboa .

Depois do 25 de Abril os livros continuaram vendendo bem, conta Abreu. Um indicador desses bons resultados é o fato de três títulos da editora terem aparecido na secção “Os best-seller da quinzena” do jornal Expresso, em 1974 e 1975. O livro O combate sexual da juventude, de W. Reich, apareceu em 5º lugar (24/5/1975), em 3º (7/6/1975) e em 9º (21/6/1975). Já a obra de Paulo Freire, Uma educação para a liberdade, foi mencionada em 10º lugar em 25/1/1975. E A nossa arma é a greve, reunião de textos de Franz Mehring, Rosa Luxemburgo e Emile Vandervelde, surgiu em 7º lugar em 21/6/1975[12].

Outros títulos editados a partir de 1974 foram: Uma iniciação à economia, de Charles Rouge (1974); Teoria e história do capitalismo monopolista, de Harry Magdoff, Paul Baran e Paul Sweezy (1974); A aplicação da psicanálise à investigação histórica, de Wilhelm Reich (1974); Progresso social e liberdade, de Herbert Marcuse (1974); Viver em Moscovo, viver em Nova York, de K. S. Karol e Herman Schreiber (1975); Inquérito operário e luta política, com textos de K. Marx e Mao Tsé-tung (1975); Socialismo, casamento e família: a doutrina socialista do casamento, de David Riazanov (1975); e As três fontes do marxismo: a obra histórica de Karl Marx, de Karl Kautsky (1975).

Mas os novos tempos trouxeram mudanças para o setor editorial:
As coisas mudaram radicalmente. Antes do 25 de Abril o livro saía com o rótulo de proibido, então havia todo um mercado paralelo, que se formou em função disso, as livrarias recebiam os livros que sabiam que seriam proibidos e já tinham uma forma de os vender, recebiam os livros e nem expunham, ficavam debaixo do balcão e havia os clientes certos que iam lá e compravam. Eram tiragens de 3 mil, 4 mil exemplares e vendia tudo. Normalmente uns 30% ou 40% da tiragem eram já destinados para a apreensão, a gente já contava com aquilo. Com o 25 de Abril surgiram dezenas de editoras, e naturalmente eu também perdi espaço, eu tive que me afastar de algumas coisas e mudar o rumo.

Abreu lembra, com ironia, que “Com o 25 de Abril todos se transformaram em revolucionários, até alguns que eram ligados ao antigo regime foram parar no Partido Comunista”. Mas, depois de cerca de dois anos em que a agitação política foi intensa e vendeu-se livros políticos como nunca em Portugal – de abril de 1974 até o final de 1975 –, o mercado para este tipo de livro começou a diminuir. “Depois, já em 1976-78, começou a haver uma definição de mercado, porque o mercado era muito bagunçado. O mercado começou a ser muito mais seletivo, ficaram alguns, a Afrontamento, a Centelha, o resto caiu tudo”, diz Abreu, que completa: “O interesse pelo livro político caiu muito. O interesse era motivado, em grande parte, pela repressão política”.

Já em 1975 Abreu partiu para uma nova empreitada, criando a editora Rés em sociedade com Reinaldo Carvalho (ver item sobre esta editora no Capítulo 11).

António Abreu avalia da seguinte forma a atuação das editoras políticas em Portugal no período que precede ao 25 de Abril e nos anos imediatamente seguintes ao fim da ditadura:

Acho que as editoras que publicaram livros políticos tiveram um papel importante na formação política, porque não existia formação política em Portugal devido ao longo período da ditadura. A maioria dessas pequenas editoras era ligada a algum movimento. Elas não tinham uma visão comercial, eram idealistas que faziam aqueles livros.

Todos os títulos editados pela Textos Marginais eram de autores estrangeiros, com exceção de uma única obra: Miséria de cinema, de António Faria, publicado em maio de 1974. Os livros tinham tratamento editorial e gráfico profissional, e a distribuição era feita pela Dinalivro.

A editora atuou até 1977, tendo publicado 28 títulos. O período de maior atuação foi entre 1972 e 1974, quando saíram 21 títulos. Em 1975 foram editados apenas quatro, em 1976 apenas um, e 1977 dois títulos. Os três últimos títulos já saíram em edições feitas pela Dinalivro, a quem Abreu havia vendido a Textos Marginais em fins de 1975.

Em alguns livros da Textos Marginais aparece o seguinte crédito: “Edição: Henrique A. Carneiro”.  Como esclareceram-me António Abreu, José de Sousa Ribeiro[13], da editora Afrontamento, e João Barrote[14], este senhor era um dos proprietários da Gráfica Firmeza, do Porto, onde foram impressos muitos livros de caráter político naqueles anos. O seu nome aparecia para cumprir a exigência legal de que houvesse um editor autorizado que fosse responsável pela publicação – e também para proteger os reais editores de possíveis problemas com a polícia política. Mas de fato o senhor Henrique A. Carneiro não era o editor daquelas obras, mas sim o tipógrafo responsável por sua impressão. A menção de seu nome como responsável pela edição ocorre em livros de muitas outras editoras do Porto (ver item sobre a Editora Textos Políticos, neste capítulo).

(Extraído de: SILVA, Flamarion Maués Pelúcio Silva. Livros que tomam partido: a edição política em Portugal, 1968-80. Tese de doutorado em História, Universidade de São Paulo, 2013. Disponível em: <http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8138/tde-07112013-131459/en.php>.)




[1] Conforme lembrou João Barrote em mensagem eletrônica enviada em 28/6/2011.
[2] DAVARA TORREGA, Francisco Javier. “La aventura informativa de Cuadernos para el diálogo”. Estudios sobre el Mensaje Periodístico, nº  201, 2004, p. 201-220. Disponível em: <http://revistas.ucm.es/index.php/ESMP/article/view/ESMP0404110201A/12595>. Acesso em 26/10/2012.
[3] MORET, Tiempo de editores, op. cit., p. 296.
[4] Entrevista com António Daniel Abreu, São Paulo, 23/8/2012. Todas as demais falas de Abreu provêm desta entrevista.
[5] Entrevista com João Barrote, freguesia de Arnoia, concelho de Celorico de Bastos, distrito de Braga, 22/6/2011.
[6] CÉSAR, Felipa. “Notas sobre o fac-símile da publicação Cadernos para o Diálogo 2”. In: CÉSAIRE, Aimé. Discurso sobre o colonialismo. Edição fac-similar. Berlin: Bom Dia, 2012.
[7] Ibidem.
[8] Relatório 9253 da DGS sobre o livro Discurso sobre o colonialismo, datado de 11 de janeiro de 1972, assinado por Simão Gonçalves. Reproduzido em CÉSAR, op. cit.
[9] Tal afirmação aparece na contracapa do livro O que é uma constituição política?, de Ferdinand Lassalle, que em 1976 inaugurou a nova série da coleção Cadernos Para o Diálogo, recriada por Abreu na editora Nova Crítica (ver item sobre esta editora no Capítulo 11).
[10] Conforme lembrou João Barrote em mensagem eletrônica enviada em 28/6/2011.
[11] Entrevista com António Daniel Abreu, São Paulo, 23/8/2012. Todas as demais declarações de Abreu provêm desta entrevista.
[12] “Os best-seller da quinzena”. Secção do jornal Expresso, 1974 e 1975. Hemeroteca Municipal de Lisboa.
[13] Entrevista com José de Sousa Ribeiro, Porto, 24/3/2011.
[14] Entrevista com João Barrote, Arnoia, 22/6/2011.

11/13/2015

Crítica Editorial

Desta feita o crítico sou eu.

Ou melhor, a partir desta data, e com uma periodicidade na pior das hipóteses quinzenal, farei uma coluna de crítica de livros do ponto de vista editorial. Nada de falar sobre autores e enredos, coisas do âmbito da crítica literária: eu, é mais livros.

Mas acima de tudo, criticar edição não é dizer que se sabe fazer melhor. Como editor percebo melhor do que ninguém as contingências da profissão e as dificuldades dos colegas (excesso de trabalho, hierarquia de relações com outros departamentos e autores, etc., etc.) que concorrem para que, por vezes, algumas coisas corram menos bem. Todos erram, eu também erro.

No entanto, editar é uma arte maior que merece a atenção de uma crítica especializada, e ao analisarmos o trabalho efectuado estamos a informar o público e a ajudar a criar critérios que definam o que é um bom trabalho editorial. Estamos, igualmente, a dignificar uma profissão que não merece ficar escondida por detrás do trabalho do autor.

Assim sendo, do editing à revisão, da tradução à ilustração, dos materiais à produção, passando pelo design e pela estratégia comercial e de promoção, tudo deverá ser alvo de um olhar atento.

Por fim, refira-se que uma crítica tem sempre algo de opinião e visão do próprio. Aquilo que eu observo como um defeito pode, por vezes, ser analisado de forma contrária e até comprovada com mais certeza, pelo que o contraditório é sempre interessante. Afinal, nada é mais científico do que a crítica, a economia e a meteorologia.

Espero que gostem.
Nuno Seabra Lopes

12/03/2013

Morreu André Schiffrin


Morreu ontem um dos mais importantes pensadores da edição moderna, André Schiffrin.

Filho de um famoso editor e ele mesmo também editor por mais de 50 anos, foi também autor de obras tão importantes como «O Negócio dos Livros», e «A Edição sem Editores».

Sempre ligado aos movimentos socialistas americanos, tornou-se num dos mais contundentes críticos do resultado do processo de concentração editorial, em particular pela forma como os objetivos das novas estruturas empresariais não se coadunavam com o funcionamento do negócio do livro.

Para saber mais o melhor não é ir à wikipédia, mas sim ler as suas obras, algumas delas disponíveis em Portugal, em particular a recente edição de uma das suas obras fundamentais, pela Letra Livre.

10/07/2013

Os Editores Não se Abatem


Vai ser apresentado o segundo volume da colecção «Protagonistas da Edição», da autoria da crítica literária e jornalista Sara Figueiredo Costa e com edição da Booktailors - consultores editoriais.

Esta colecção, composta por longas entrevistas atuais a indivíduos que marcaram o campo editorial da edição em Portugal, segue na esteira dos editores de relevo e, após uma abertura solene com o histórico Fernando Guedes, desenvolve com o testemunho de Carlos da Veiga Ferreira, um editor marcante na edição de literatura estrangeira de qualidade à frente da Editorial Teorema e, atualmente, na jovem chancela Teodolito.

O título, em referência ao clássico negro americano de Horace Maccoy, remete para o episódio da saída litigiosa do Grupo Leya, quando o editor se revoltou com a falta de importância que a direção atribuía às competências e experiência dos editores.

Na expectativa de que este e outros episódios sejam abordados nesta obra, em particular o período de cisão editorial da passagem do milénio que originou a, atualmente extinta, União de Editores Portugueses, iremos estar atentos ao lançamento deste livro, em particular pela proverbial coragem de Carlos da Veiga Ferreira em dizer tudo aquilo que sabe e pensa, que tornará este um livro interessante para quem gosta da «história privada» do mundo editorial.

8/27/2013

'Amazonificação', Grupos Editoriais e Espírito do Livro

 

O tempo de férias foi propício à reflexão sobre importantes notícias que, mais uma vez, agitam as águas do mundo editorial deixando perceber que estão em curso novas transformações relevantes, e com implicações que não podem deixar de nos inquietar. Para simplificação de raciocínio, centro-me nas informações que vão chegando sobre os movimentos que se registam no universo Amazon, e naqueles que a partir da fusão entre a Penguin e a Random House se perspectivam no domínio dos grandes conglomerados editoriais.

As posições críticas que tenho manifestado relativamente à entrada de empresas tecnológicas (Amazon, Apple, Google) no mercado do livro, nomeadamente ao afirmar que estamos perante “… a intrusão de novos players que, estando no negócio editorial e livreiro, não estão no mercado da cultura…”, estão necessariamente presentes nas minhas apreensões relativamente ao futuro da leitura, independentemente do suporte físico que venha a predominar - impresso ou digital.
Neste contexto, não me surpreendem os artigos e notícias sobre a Amazon que surgiram nas últimas semanas: «New Amazon Patent Seeks to Add “DVD Extras” to eBooks» (artigo de 5/7/2013, publicado por Dean Fetzer em http://litreactor.com/); «Monopoly achieved: An invincible Amazon begins raising prices» (artigo de 8/7/2013, publicado por Alex Shepphard em http://www.mhpbooks.com/); e «Washington Post vendido ao fundador da Amazon» (notícia de 5/8/2013, em http://www.publico.pt).

Tudo se encaixa numa estratégia da Amazon, que oportunamente considerei “…de promoção e liderança da edição digital, que lhe seria bastante mais rentável do que o logisticamente complexo e oneroso comércio electrónico de livros impressos”. No entanto, o bem-sucedido desenvolvimento de conteúdos editoriais próprios e o estabelecimento de parcerias com editores de referência, associado ao encerramento de prestigiadas livrarias independentes e ao desmantelamento de importantes cadeias de livrarias, fazem crer que a Amazon pretende ir mais longe na sua estratégia e constituir-se como temível candidato à liderança do mercado editorial e livreiro, também no domínio do livro impresso.
À luz desta evolução, compreende-se melhor o porquê dos grandes movimentos de concentração iniciados com a fusão Penguin-Random House, à qual, conforme «This is what the publishing industry will look like if the Big Six become the Big Four» (artigo de 20/11/2012, publicado por Zachary M. Seward em http://qz.com/), se poderá seguir a consolidação entre os já de si gigantes HarperCollins-Simon & Schuster, e vir mesmo a provocar a reacção da Hachette e uma subsequente passagem a Big Three. As consequências não se limitarão aos efeitos referidos em «The Victims of the Penguin & Random House Merger: Literary Agents» (artigo de 27-11-2012, publicado por Ella Delany em http://www.thedailybeast.com/).

Estamos perante o contra-ataque dos grandes grupos editoriais, legítimo, mas tendente a agravar a já de si desequilibrada relação de poder face aos editores independentes; são também evidentes os riscos de a edição literária sofrer uma ainda maior degradação em favor do predomínio de bestsellers de literatura ligeira, e de a diversificação e pluralidade da oferta se verem substancialmente reduzidas. O cenário apresenta-se pouco risonho. O que não é novidade. Nos cinco séculos de vida da palavra impressa, têm sido muitas as ameaças de sobrevivência consideradas fatais para o futuro do livro e da leitura, incluindo a antevisão feita há uma centena de anos anunciando que… a então aparecida bicicleta ditaria a morte do livro!
Mas o livro tem uma magia especial. Citando Padre António Vieira: “O livro é um mudo que fala, um surdo que responde, um cego que guia, um morto que vive”. E lembrando palavras proferidas por José Saramago em Outubro de 1995: “É do leitor que todos nós dependemos e crise, se houver, é da leitura. Só há crise da leitura se houver crise de curiosidade, se o ser humano se transformar num ser sem essa espécie de «bexiga incómoda» que é a curiosidade que nos vai levar a saber um pouco mais do que aquilo que sabíamos.”

Na conjugação destas duas citações, encontro o ‘espírito do livro’. É aqui que vejo o potencial de resposta aos desafios que antes enunciei. Acredito que a curiosidade humana é inesgotável e a cultura da palavra escrita permanece viva nos leitores, autores, editores e em todos quantos vivem no mundo dos livros. Estou convicto que, nesta guerra sem quartel, sairão vencedores os que melhor interiorizarem a aventura que cada livro constitui. Não forçosamente os maiores, mas os melhores.

Duvido que a ‘amazonificação’ prevaleça, acredito no sucesso de grupos editoriais que integrem e respeitem os valores do livro, e estou convicto que se manterá a importância de editores independentes que tenham arte, e competência, para fazer valer uma relação personalizada com autores de relevo, em simultâneo com critérios editoriais de excelência, chancelas de prestígio, comunicação eficaz, uso apropriado das potencialidades digitais, e partilha efectiva de serviços logístico-administrativos.

6/18/2013

Edição: passado, presente, que futuro?



É já depois de amanhã, dia, 20, pelas 18h30, nas Fundação José Saramago / Casa dos Bicos, em Lisboa, que se irá realizar o um encontro de Editores de Portugal, Espanha e Itália para discutir o estado da Edição.

Para todos os que seguem este blogue é um encontro a não perder, com a presença de alguns do mais importantes editores portugueses e a presença de dois grandes editores internacionais, Pilar Reyes, diretora editorial da marca gigante (e recentemente adquirida pela Bertelsmann) Alfaguara, e Gianluca Foglia, diretor editorial da histórica (e também bastante grande) G. Feltrinelli Editore.

Facebook do evento

5/27/2013

O Negócio dos Livros, de André Schiffrin

Foi publicado em Portugal um dos mais importantes textos sobre o negócio editorial e o processo de concentração que ocorreu na Europa.

O livro, com mais de 10 anos mas cada vez mais atual, pode ser agora lido na tradução portuguesa pela Letra Livre.

Pedro Marques escreveu sobre a obra, ler aqui.

3/26/2013

Grupo Lidel celebra 50º Aniversário

 

Fundada por Frederico Annes, em 15 de Março de 1963, com o objectivo de promover e distribuir em Portugal editoras estrangeiras de livros técnicos e científicos, a Lidel reune as mais fortes razões para celebrar com orgulho o êxito obtido ao longo dos seus primeiros cinquenta anos de actividade no mundo dos livros.

Ganho o conhecimento do mercado e adquirido o saber como actuar nos domínios que motivaram a sua constituição, a empresa lançou-se em 1989 no mercado da edição, começando pela tradução de dois livros estrangeiros no âmbito da medicina - os Manuais de Enfermagem Pediátrica e Obstétrica -, a que se seguiram os livros Projectos Industriais e Português sem Fronteiras. Uma gestão dinâmica, criteriosa e sustentada, conduziu rapidamente à liderança do mercado nacional de livros técnicos, nomeadamente nas áreas da Medicina e de Ensino de Português Língua Estrangeira e Língua Segunda, onde pontificam múltiplos especialistas portugueses. Gestão, Fiscalidade, Química, Biologia, Engenharias, Geomática, Hotelaria e Turismo, constituem, igualmente, domínios de excelência na programação editorial.

Em 1991 iniciou-se uma nova fase de crescimento, tendo sido criadas a FCA - Editora de Informática, que veio a tornar-se líder na publicação de livros sobre tecnologias de informação, e a ETEP - Edições Técnicas e Profissionais, com publicações dirigidas ao ensino técnico-profissional e também às áreas de Automação, Robótica, Electrónica e Secretariado. Posteriormente, em 1910, foi lançada a marca PACTOR, dedicada às Ciências Sociais e da Política Contemporânea.

Seguindo o seu lema de sempre - O livro à procura do Leitor -, o Grupo Lidel mantém-se igualmente na esfera familiar do seu fundador, hoje com 92 anos, sendo gerida pelo seu filho, também Frederico Annes, e tendo já na Direcção Comercial a representante da 3ª geração, Rita Annes.

Pelas razões assinaladas, o percurso do Grupo Lidel é verdadeiramente notável, especialmente se ao que já foi dito acrescentarmos o  grande significado que decorre de o sucesso editorial, comercial e económico, ocorrer numa empresa familiar independente de qualquer grupo económico ou editorial, e num mercado altamente especializado, concorrencial e que enfrenta os fortes desafios colocados pela cópia ilegal e pela evolução tecnológica associada à nova era da Informação Globalizada.

Parabéns ao Grupo Lidel, e à família Annes, pelo sucesso de 50 anos, pelo raro exemplo que constitui e pela capacidade de enfrentar o futuro, a nível nacional e internacional,  conforme tão claramente ficou expresso na sessão comemorativa que teve lugar no passado dia 22, na Fundação Oriente.

Rui Beja
 

3/06/2013

O que é ser editor


Trabalhando em edição há mais de 13 anos – e conhecendo ou sendo amigo de uma muito significativa parte dos profissionais – sei que irei dizer aqui coisas que irão magoar algumas pessoas. No entanto – e não sendo uma questão pessoal –, este ponto merece alguma reflexão.

Ser editor é ter a capacidade extraordinária de fazer duas coisas:
  • Criar um bom catálogo;
  • Criar bons livros.

Dito assim até parece simples, mas desenganem-se aqueles que julgam que assim é.

Criar um bom catálogo é ter a capacidade de associar vários elementos e conhecimentos. Ter uma perceção clara do que se quer publicar (com coerência, cumprindo as expectativas dos leitores e da imprensa), ter a capacidade de «encontrar» os livros certos, e publicá-los para um grupo alargado de leitores capaz de rentabilizar o negócio e fazê-lo prossegui-lo.

Ser editor não é receber catálogos (ou sentar-se à mesa com o agente), escolher de uma lista limitadíssima de produtos genéricos que representam menos 0,5% do que foi publicado no mundo – valor extrapolado por mim −, comprando somente porque tem boas tendências de venda internacional, selos interessantes na capa (prémios, etc.), temas que andam a circular no programa Querida Júlia, e muitas editoras interessadas em comprar.

Ah, e porque leram e até acharam piada, o que para o gestor de marca ou o diretor comercial, ou de marketing, nem interessa por aí além.

Ser editor também não é publicar «maçãs» e, oh!, não deu, vamos agora tentar «peras», ou «quivis». Isso revela que não se sabe nada do se publica, que não se sabe ler, que se é só mais um «comercial» com óculos de massa e cotoveleiras que trabalha na fase anterior, procurando descobrir o próximo bestseller.

Quanto ao ponto a) estamos conversados. Em relação ao ponto b) a questão é ainda mais complexa...

Devo começar por diferenciar dois tipos de trabalho com os livros: trabalhar produtos estrangeiros, já construídos e finalizados para esses mercados, ou com produtos nacionais em bruto. Não desmerecendo o trabalho com livro estrangeiro, criar livros de raiz é bem mais complexo e entusiasmante, e revelador das verdadeiras capacidades do editor.

Não quero com isso dizer que fazer livros estrangeiros seja trabalhar com produtos simples, não é só saber descongelar, meter no forno e dar-lhe uma boa apresentação – sim, por ora já viram que sou fascinado por cozinha −, pois é um trabalho complexo envolvendo a possível adaptação necessária, escolha e controlo da tradução e da revisão, bom layout de paginação e design e uma capa interessante – caso não se compre a original. As diferenças entre fazer isto bem ou mal são mais do que visíveis no nosso mercado. Mas recordemo-nos que a edição é uma indústria, e ser editor é trabalhar na primeira fase dessa indústria: a de investigação e desenvolvimento. Comprar maquetas e ajustá-las pode ser difícil e interessante, mas não é tão entusiasmante ou revelador das capacidades criativas de um editor.

Editar é olhar para o mercado e pensar nos produtos. Saber como se constitui um livro e que ferramentas servem para quê de modo a criar e recriar o livro certo da forma ideal.

Em termos de trabalho com autores não é só ter a capacidade de dizer «gosto», «não gosto» ou «trabalha mais», é preciso saber especificar: que esta personagem tem este e aquele problema que pode ser resolvido desta e daquela forma; que este capítulo estraga o ritmo; para meter uma peripécia e aliviar a tensão; para abordar este tema ou um outro; de refletir sobre algumas questões; para cortar as frases e acelerar o ritmo; não usar terminologias que não funcionam; pedir para mudar o cenário; tirar adjetivos; eliminar «bengalas», etc. É ter a capacidade de ajudar os autores: fazer brainstorming de abordagens a temas, trazer exemplos de resolução de outros casos, arranjar material de consulta e informação adicional para estimular ideias, chatear os autores para que eles trabalhem.

Ser verdadeiramente editor é ter a capacidade de fazer mais. É ser-se um cozinheiro. Pensar nos livros antes de eles existirem, escolher cuidadosamente os ingredientes e saber juntá-los (quem escreve, o que escreve, como escreve, que abordagem ter, como organizar o livro, que extratextos necessita, quem os faz, como deve ser o design, a paginação, o formato, etc.). E isso é muito difícil. É preciso saber-se exatamente o que se quer, e como se quer para que o público goste e compre.

Podem dizer: e tempo, hein!? Pois, de facto falta muitas vezes o tempo, as competências e a formação, e até a leitura necessária ou a capacidade crítica, entre várias outras coisas.

Mas, ser editor não é ser revisor. Ser editor não é ser tradutor. Ser editor não é ser paginador. Para coordenar estas tarefas de produção um estagiário bem orientado faz milagres, enquanto se prepara para a fase seguinte, a de ser editor. Se perdermos menos tempo com tantos livros para queimar e tarefas que pouco valor acrescentam – «esta vírgula fica bem aqui?» −, talvez tenhamos tempo «a perder» para estas tarefas que são as únicas capazes de criar valor e livros que valham a pena e possam ser um sucesso. Como queremos ter sucesso com livros feitos em cima do joelho?

Ter produtos nossos, mais lógicos e pensados para o nosso mercado é essencial. Um apfelstrudel pode até ser um doce maravilhoso que meia dúzia de pessoas compram em Portugal, no Lidl, congelado, mas a quantidade de pessoas a comer pastéis de nata é bem maior em Portugal, e parece que lá por Belém até os turistas fazem fila. Afinal de contas, ninguém viria cá para comer um apfelstrudel.

Nuno Seabra Lopes

2/13/2013

LeYa-se


Passados que estão mais de cinco anos desde a formação do Grupo LeYa, é altura de olhar para trás e observar o percurso de um grupo que veio para ficar.

Quando, em 2007, o «barão» financeiro Miguel Pais do Amaral, aka Conde da Anadia, descendente direto do Marquês de Pombal e D. Pedro IV (I do Brasil), iniciou um processo de aquisição de muitas das principais editoras portuguesas com o objetivo de criação de um grupo editorial, poucos acreditaram que este fosse um processo para durar. Empresário ligado à velocidade (de investimentos e de veículos motorizados), muitos vaticinavam a este seu Grupo um futuro rápido, detido por alguém mais interessado em emagrecer e vender − em parte ou por inteiro, a qualquer outro grupo internacional mais orientado para a fileira do livro − do que em reunir uma equipa capaz de fazer um trabalho árduo de criação de um importante grupo do mercado editorial português.

Cinco anos volvidos, percebe-se que todos os que assim pensavam estavam errados. Observa-se um trabalho coerente, difícil mas profissional, de gente que conhece as dificuldades do mercado e, ainda assim, permanece. Tendo surgido no dealbar desta «Grande Depressão», o Grupo LeYa trouxe inovação, qualidade e uma forma nova de trabalhar «para o público final». Apesar de restritas às políticas do Grupo, as marcas iniciais mantêm-se autónomas, com coerência de catálogo, mantendo – à exceção de três ou quatro casos infelizes, como o do José Oliveira e o do Marcelo Teixeira, vítimas de um Grupo que não os soube colocar nas funções devidas – as grandes figuras editoriais que fizeram e fazem aquela casa.

Com uma estratégia de branding suave mais permanente (assente numa imagem estável, na Feira do Livro e no Prémio LeYa), o Grupo é hoje uma referência no mercado editorial onde, em reconhecimento, ombreia e muitas vezes ultrapassa o grande gigante do mercado português, a Porto Editora / Bertrand (as eternas top of mind do mercado português, fruto de anos de presença no escolar e de uma rede alargada de retalho).

Se a estratégia inicial do Grupo parece não ter sido alcançada – a valorização dos seus conteúdos, em particular os autores de língua portugueses a uma escala mais global –, o seu propósito foi-o. A LeYa é hoje a editora dos autores de Língua Portuguesa, pelo menos no que a Portugal diz respeito, com uma aposta forte em consagrados e em jovens autores. E o pouco sucesso internacional deve-se mais a fatores exógenos e à pouca relevância e apoio que a língua portuguesa tem no mundo, do que ao trabalho de quem lá está. O Brasil, atualmente o maior sucesso do Grupo, deve-se não tanto à «ponte» entre os dois lados do rio Atlântico (como diz o grande Onésimo Teotónio de Almeida) mas ao excelente trabalho «brasileiro» da editora LeYa no Brasil.

Em relação a despedimentos e atrasos nos pagamentos, ocasionados por alturas da fusão e/ou recentes anos de agravamento da crise, as mesmas verificaram-se e verificam-se em praticamente todas as empresas editoriais e, diria mesmo, em todas as empresas deste país, mas recordemo-nos que a LeYa mantém-se como um dos grandes editores e empregadores editoriais em Portugal e um agente ativo na renovação e dinamização do mercado de trabalho.

Relativamente ao mercado e à concorrência, o Grupo acabou por suscitar algumas reações iniciais, mas que rapidamente se desvaneceram após a aquisição do Grupo Bertrand/Círculo pela Porto Editora ou a adoção de práticas semelhantes pelos concorrentes, estando atualmente tudo (infelizmente) igual mas, com a crise, pior. A tentativa de criação de uma rede própria (juntamente com a CE) não parece ter tido grandes resultados, nem foi uma aposta forte do Grupo, mais preocupados com os conteúdos e com o desenvolvimento de novas formas de chegar ao cliente, continuando a acreditar que é o cliente e não o canal que vende os livros – em Portugal essa realidade ainda não está provada...

Passados cinco anos o Grupo LeYa parece que veio para ficar por mais uns anos, agora com a experiência e a expectativa gerada em torno do mundo digital – que, agora sim, bate à porta e promete alterar o equilíbrio de forças do retalho.

Não mais um outsider, o Grupo LeYa ajudou a acalmar o setor (terminou com as divergências no meio associativo) e deu um toque mais profissional ao mundo da edição, que ainda acha que tudo o que se passa no mercado é uma ofensa pessoal. Desde o início colocado por muitos «do outro lado da barricada», o Grupo LeYa merece ser hoje visto como o membro ativo e dinamizador que, ao longo destes cinco anos, provou ser.

Nuno Seabra Lopes

2/02/2013

Democracia Editorial

Bárbara Bulhosa, editora e proprietária da Tinta da China Edições. 

Reflexão sobre responsabilidade editorial, quando a editora Bárbara Bulhosa é constituída arguida por publicar o livro Diamantes de Sangue, do jornalista angolano Rafael Marques.

É dos livros e está nos livros: a palavra escrita constitui o mais poderoso instrumento de liberdade democrática e a sua publicação em livro dá-lhe a força e a perenidade que assusta os fracos de espírito e os ditadores com provas dadas. Em entrevista recente à revista Visão, o jornalista, cronista e escritor António Mega Ferreira, que na segunda metade dos anos oitenta também exerceu como editor, refere: “Tenho um lápis, oferecido por uma amiga, que tem a seguinte inscrição: «This machine kills fascists» …”. Lapidar!

O tema do livro agora posto judicialmente em causa, o seu autor e as personagens envolvidas no enredo, não constituem a essência desta reflexão. São o que são, ou o que deixam de ser. A questão principal que, neste caso, me interessa realçar, é o significado de ser Editor, a coragem necessária para ser Editor e a constatação de que não há revolução digital que substitua o Editor como agente maior da divulgação plural do pensamento, da cultura e do exercício democrático da cidadania responsável. Se assim o quiserem entender, é o exteriorizar da satisfação de quem nunca foi editor, mas viveu, trabalhou e conviveu de próximo com grandes Editores, por poder confirmar que a função de Editor se mantém viva e se recomenda.

Sabemos, pela história deste nosso país, o que foi o controlo, a perseguição e a repressão a que os editores portugueses estiveram sujeitos durante o período do Estado Novo. Não citando nomes, porque foram muitos e não quero cometer a injustiça de não mencionar alguns deles, sabemos como foi fulcral o papel dos editores para, servindo de charneira entre autores proibidos pela censura e livreiros que se arriscaram para os fazer chegar aos seus leitores, darem corpo e forma a obras da maior relevância que, de outro modo, dificilmente teriam visto a luz do dia. Sabemos também como, mesmo depois da institucionalização da democracia em Portugal, vários editores souberam resistir a pressões, directas ou indirectas, para condicionar a publicação de um qualquer livro. Não nos esqueçamos, meramente a título de exemplo, da saga que rodeou a publicação pelo editor Nelson de Matos, em 1989 e em co-edição D. Quixote – Círculo de Leitores, dos Versículos Satânicos, de Salmon Rushdie.

Noutro tempo e de outro modo, também os editores de hoje precisam de ter coragem. Ao editar Diamantes de Sangue, na sua Tinta-da-China, Bárbara Bulhosa constitui um exemplo vivo da coragem que se mantém indissociável do exercício como Editor. Neste caso, com a particularidade de estarmos perante o estatuto, cada vez menos comum, mas também cada vez mais relevante, de uma casa editorial independente de grupos editoriais ou económicos. Vale no entanto a pena sublinhar, que também nos grupos editoriais existem Editores com a necessária coragem e aos quais é atribuída a devida independência, dentro, necessariamente, dos princípios gerais que permitem assegurar a necessária coerência global. Permito-me, no entanto, expressar as minhas dúvidas sobre o comportamento que os grandes conglomerados de raiz não editorial, como a Amazon, a Google, ou a Apple, têm em mente neste domínio.

Parabéns Bárbara Bulhosa. A solidariedade dos seus colegas Editores está certamente consigo.

Rui Beja

11/30/2012

Editor em tempos de mudança

Fonte: Salon.com


Na sequência do post do João Carlos Alvim, resolvi dar a minha própria visão do assunto; em larga medida suscitada também pela «conversa» entre José Afonso Furtado e Gustavo Cardoso, na terça-feira passada.

Não haja dúvida, os tempos mudaram, a nossa vida é digital.
Vivemos num mundo onde tudo se regista e todos os nossos atos são informação a ser tratada, trabalhada e utilizada; um mundo onde a verdade é consumer driven, tanto nas hierarquias e temáticas, como nas visões e nível de desenvolvimento. Por outras palavras, não conseguimos acompanhar a mudança tecnológica operada pelo mundo digital, tendo esta destruído o sistema de mediação existente, e ainda nada surgiu para o substituir: andamos à deriva.

Não sabemos o que nos jornais é verdade ou importante (a própria função do jornalista deixou de ser de mediação, para ser de replicação ou criação de informação, com o objetivo de se construírem produtos adequados às necessidades financeiras – de angariação de públicos e de publicidade), o que no Facebook é mentira, idiotice ou equívoco, o que nos livros é pertinente ou de qualidade. Na falta de mediadores capazes e vocacionados para o mundo digital, surgem os «gurus» da opinião pública (os famosos opinion makers, com ideias sobre tudo e mais alguma coisa), vulgarizando o conhecimento numa versão de Wikipédia humana.

O editor, elemento histórico de mediação entre os milhares de conteúdos existentes e o público, deixa cada vez mais de o ser: só nos EUA 50% das publicações são publish on demand e, mesmo entre os restantes livros (edição comercial), a quase totalidade da produção não depende da mediação de qualidade ou de pertinência, de ética ou responsabilidade, mas da avaliação mercadológica da obra. «Adequação» passou a ser um termo demasiado utilizado para explicar esta potenciação das desigualdades de conhecimento e esta desresponsabilização sobre a pertinência das coisas na sociedade. Adequação ao público: se ele quer lixo, é lixo o que se lhe dá; adequação aos parceiros comerciais: prioridade ao aumento das rentabilidades, através do reforço de premissas como a velocidade e o volume das vendas, bem como outros fatores potenciadores (estratégias de preço baixo, campanhas, star system e obras de elevada plataforma de acesso a público) ou contribuintes diretos dos resultados financeiros (venda de espaços, participação em catálogos, etc.), pois são empresas e o «adequado» para uma empresa é ganhar dinheiro, e não ajudar a sociedade.

Já não é possível saber onde está nem como aceder à qualidade (na definição social de livro de qualidade como objeto pertinente, fidedigno, consistente, eticamente responsável e com benefícios para o aumento do conhecimento e da cidadania) por falta de interesse de todas as partes, pelo excesso de informação, pela maior pertinência de premissas económicas de triagem, pela alteração da política de acessos aos canais e de validação dos conteúdos.

O livro, antes o objeto referencial − aquele que era feito para refletir, para analisar − perde para o público atual a sua função, transforma-se na próxima vítima da mudança digital. Não é o «livro digital» que irá destruir «os livros», é a incapacidade de percebermos que sociedade queremos e qual o seu papel.

É hoje mais importante saber que se «pode aceder a qualquer momento» à verdade com uma ida ao Facebook ou à Wikipédia, do que ler de facto os artigos, livros e enciclopédias (maioritariamente online), pensados e analisados, construídos com interação de múltiplas fontes e cuidados éticos definidos.

Tal como se vê a morte dos jornalistas ou dos bibliotecários, os outros mediadores como os editores (e posteriormente até os professores e os educadores) arriscam-se a perder a sua função no mundo nesta fase de mudança e confusão. E já faltou mais para se começar a ponderar na necessidade real de educação formal, pelo menos da base humanista dessa formação.

Neste mundo em mudança os agentes esquecem-se de que as humanidades são a principal ferramenta que temos para pensar (a língua, história, geografia, filosofia, etc., são a raiz da estruturação mental, da interpretação do mundo e da lógica de construção e de atuação nele, tal como a matemática o é para as engenharias). Não saber relacionar, não ter referências históricas, geográficas ou de enquadramento de pensamento é incapacitar os nossos jovens até para a mais simples das ações relacionais (para saber mais ler Marshall McLuhan). Aquilo que para nós é um dado adquirido, para muitos novos públicos é uma incógnita e até o uso do Google para algo diferente daquilo que estão habituados (procurar música, séries, famosos, etc.) poderá ser como uma viagem na selva para um miúdo da cidade (ler também este artigo sobre a forma como o Google transforma a nossa atividade cognitiva).

Mas a necessidade de mediadores nunca foi tão grande. Cabe só aos mesmos mediadores, entre eles os editores, voltarem a provar ao mundo o porquê da sua existência e não demitirem-se da sua função; antes de passarem a ser obsoletos; antes de os livros passarem a ser escolhidos por um gráfico Excel e os textos trabalhados por um qualquer Google editor ou translator.

Nuno Seabra Lopes

11/15/2012

Sobre editores, uma visão para autores

Observo que existe interesse por parte dos autores em relação ao mundo da edição e da forma de se relacionar com ele, por isso resolvi fazer este pequeno texto introdutório, para evidenciar algumas das características que definem o enquadramento mental de cada um neste setor.



Gostaria, neste texto, de destacar que, quando se fala de edição, e apesar de se trabalhar eminentemente com uma matéria-prima cultural e/ou informacional, estamos a falar de uma indústria.

Mais do que o famoso binómio economia/cultura (ex libris que muitos estudos nos anos 1980...) há que referir que, dependendo da posição em que se está neste setor e das características dos agentes, a forma como se posicionam nesse binómio e o resultado real da sua ação pode variar bastante.

Ou seja, se para muitos autores a escrita é fruto de uma paixão, outros há que a entendem de forma fria e profissional, enquanto profissionais da escrita que o são, e podem ver o seu trabalho como uma profissão ao serviço de uma indústria, de um cliente. O caso do James Patterson é mais do que conhecido, mas também poderemos encontrar por cá alguns que veem na escrita um trabalho concreto, fruto de encomendas mais ou menos explícitas do mercado ou das editoras.

Se, da parte de alguns autores, isso já acontece, imagine-se da parte de quem lida há anos e anos com inúmeros textos de diversas valias (e toda a gente concorda que se publicam demasiadas coisas desinteressantes). Por mais paixão que haja da parte de um editor – e há muito mais do que o habitual, daí ter escolhido esta profissão − passa a haver imediatamente uma triagem fina entre os livros pelos quais os editores têm paixão e aquilo que veem como trabalho. Ao fim de alguns anos, a maior parte dos livros publicados são essencialmente trabalho e a paixão cultural fica restrita a alguns poucos livros e autores.

Recordo-me de alguns editores que referiam ler frequentemente livros diferentes daqueles que publicam, como o ex-editor da Pergaminho, Mário Moura. Se isso acontece com os editores, que trabalham diretamente com os autores, imagine-se então outros agentes do circuito, como distribuidores, agentes comerciais, responsáveis por direitos, responsáveis de marketing, etc.



Naturalmente, cada caso é um caso e há ainda alguns editores em Portugal que trabalham com absoluta paixão, como Vítor Silva Tavares (&Etc.) ou Luís Oliveira (Antígona), só para dar exemplos de alguém que ninguém duvide.

Acima de tudo, os autores devem perceber que muitos daqueles são profissionais de uma indústria, que trabalham para uma indústria. Que pegam numa matéria-prima e fazem um protótipo industrial que é reproduzido massivamente, ou que pegam nesse produto e vão fazer o máximo para o vender.

Todos eles sabem que um livro não é o original, apesar de ter muitas vezes um acréscimo significativo de capital criativo único – por parte de tradutores, designers, editores, paginadores, especialistas gráficos, etc. −, da mesma forma que um CD não é um concerto. Se um livro é guilhotinado, há mais 1000 por aí e, se não houver, há o ficheiro ou o original e podemos fazer mais 1 milhão, se interesse houver.

Como veículo de transmissão e comercialização é um objeto apaixonante mas essa paixão não deve ser confundida com o texto artístico. É apenas o veículo para dele usufruirmos e a paixão sobre ele deve manifestar-se noutras alturas, como se manifesta. Aliás, os editores serão dos maiores apaixonados e colecionadores de livros fora do seu local de trabalho.

Apesar disso, o editor é o melhor profissional que o autor pode ter ao seu lado para que a obra consiga chegar aos leitores da melhor forma possível. Ele é um parceiro imprescindível não só para abrir o caminho do mercado, mas também pela experiência e conhecimentos que tem que permitem pegar num texto e associar outros tantos profissionais criativos capazes de criar um livro: o resultado de um trabalho de equipa. Da mesma forma que um encenador necessita de atores, diretor de autores, cenógrafos, assistentes de palco, pessoal da limpeza e rececionistas para ter uma peça em palco, um autor necessita de uma equipa capaz de fazer um livro.

Ao contrário do que se pensa, não é o autor que faz o livro. O autor escreve o texto e dá a parte mais importante, mas só em conjunto com o editor que se faz, de facto, um livro.

Os autores com verdadeira capacidade e interesse devem primeiro perceber, e sem ilusões, o que pretendem com a publicação (aka industrialização) da sua escrita, e só depois procurar o editor que melhor se coadune com aquilo que, de facto, quer. Não será preciso dizer que os editores são iguais às restantes pessoas: há os diligentes, os apaixonados, os desinteressados, os ambiciosos, os egocêntricos, os invejosos, os incompetentes, os profissionais, os difíceis, os geniais e até, com sorte, o editor perfeito para si.

Nuno Seabra Lopes