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8/10/2019

Os editores portugueses por Serafim Ferreira


Pedro Piedade Marques continua o seu excepcional trabalho de recolha de materiais sobre a história da edição recente em Portugal. Depois da publicação da fotobiografia sobre Fernando Ribeiro de Mello (Edições Afrodite de sua fama), republica o livro «Olha de Editor» do editor Serafim Ferreira (1939-2015) em edição revista e aumentada.

Nesse livro, originalmente publicado em 1999, Serafim Ferreira traça pequenos esquissos (pequenos mas precisos e preciosos) sobre os editores portugueses que fizeram o século XX da edição nacional. Os realmente relevantes, os realmente marcantes.

Tirando estes editores poucos ficam que valha mencionar. Aliás a necessária menção de outros editores deve-se mais a inovação logística ou técnica mais do que a uma ideologia e/ou a um conceito editorial. Daí não aparecerem nesta edição referidos os nomes de Lyon de Castro ou Cruz Santos entre alguns mais. Daí também não os editores que fizeram a edição portuguesa mas cuja obra começou no século XIX (Francisco Franco, Davide Corazzi, António Maria Pereira, etc.).

Num país em que a memória de qualquer área de negócio é tratada com desdém e desinteresse, este livro é uma pérola para uma área em que parece haver ainda menos memória do que em muitas outras.

5/30/2014

América, América!


Acabei de ler recentemente Another Life de Michael Korda, uma leitura que tinha iniciado há muitos anos e interrompi para priorizar outras leituras.

Korda foi, para quem não saiba, editor chefe da Simon & Schuster durante largas dezenas de anos. Era-o ainda em 2000 quando publicou este livro. Mas é muito mais do que isso: Korda é também o autor de um romance best-seller (baseado na vida da sua tia, a actriz Merle Oberon), de biografias de grandes personalidades e mesmo de um livro de auto-ajuda que bateu vários recordes de vendas; como tal este é um editor/autor que conhece os dois lados da barricada.

Em Another Life, Korda escreve as suas memórias como só um bom editor pode fazer: apagando-se. As suas memórias são os retratos dos seus autores, dos seus colegas editores, dos gestores das editoras, das mudanças na organização das editoras e grupos editoriais e das evoluções do mercado.

Neste volume podem encontrar-se algumas das melhores anedotas (verídicas, na sua maior parte) sobre o meio editorial norte-americano mas também, num registo mais sério, a história da casa Simon & Schuster, uma das mais importantes dos Estados Unidos; considerações simples mas brilhantes na sua simplicidade sobre o trabalho editorial, as suas dificuldades e prazeres - considerações essas que me apeteceria transcrever linha por linha, palavra a palavra neste blogue não fosse o facto de que acabaria por transcrever largas dezenas de páginas; uma narração factual das transformações da indústria do livro nos EUA - sem ceder à tentação (ou impossibilitado de o fazer) de aplicar juízos valorativos (como o fez, por exemplo, André Schiffrin no seu O negócio dos livros); e uma descrição detalhada do funcionamento do mundo editorial norte-americano desde as funções mais básicas (Korda entrou no mundo da edição primeiro como leitor e posteriormente como assistente editorial, vulgo servo) às estratégias de gestão e políticas estruturais.

Não vou entrar em grandes detalhes: este é um livro muito importante para quem trabalha na área do livro seja para editores, autores ou livreiros, comerciais ou quaisquer outros, mas é também uma obra essencial para perceber o mundo de diferenças que existe na edição de livros nos EUA e a que se faz por cá.

A importância do "editing" de todos os livros publicados, por mais ou menos literários que sejam, chocaria a maior parte dos autores portugueses que se escandalizam quando o editor sugere trocar uma vírgula ou cortar uma frase. E, verdade seja dita, despoja as obras de credibilidade artística. Por outro lado, o livro explica-nos perfeitamente o porquê da lógica ecléctica e da falta de identidade das editoras americanas cujos catálogos podem e geralmente misturam obras literárias com auto-ajuda, biografias de vedetas ou importantes ensaios sócio-políticos com livros de dieta ou espiritualidade new-age, etc. Korda que reflecte, até no ecletismo da sua produção literária, o meio em que trabalha, acaba de forma indirecta por nos explicar que o público norte-americano é muito diferente do europeu - até do britânico (e como!).

O curioso, e permitam-me agora que me afaste do livro de Michael Korda (sem nunca o perder de vista), é que nós por cá, com séculos de uma indústria do livro a mais do que os norte-americanos, olhamos para eles como uma bitola do que o futuro nos reserva.

Deveria bastar-nos o facto de os norte-americanos terem números fiáveis sobre o seu mercado para percebermos que as diferenças são inultrapassáveis. Mesmo nos mercados mais organizados a nível europeu, os editores e os bons gestores de editoras sabem o valor relativo dos números e a sua imprecisão no que toca à nossa indústria em particular. Não vou referir a crónica ausência de números fiáveis em Portugal pois essa deve-se a motivos muito diferentes que, em parte, já foram abordados nas primeiras entradas deste blogue.

É, chegado a este ponto, que vejo os riscos tremendos que corremos ao seguir modelos que foram pensados para públicos com uma realidade socio-cultural diferente da nossa. Lembra-me o calor horroroso que os alunos da minha geração sentiam em várias escolas modelo construídas em Portugal sobre modelos arquitectónicos escandinavos concebidos para aproveitar as poucas horas de sol desses países. E no entanto esses modelos arquitectónicos tinham sido importados porque faziam parte de um dos melhores sistemas educativos do mundo - curiosamente nunca se aproveitaram as boas lições das filosofias de ensino escandinavo que defendiam o ensino "criativo" ao invés do "expositivo".

Claro que enquanto as estratégias das empresas da área do livro forem geridas por gestores e directores gerais formados com cursos também eles "gerais" de gestão (e não seguindo a recomendação da UNESCO para a criação de gestores com formação específica para as indústrias culturais) continuaremos a seguir modelos norte-americanos e a cair em erros de "casting" tremendos porque os gestores para gerir têm de ter números e os números que existem são, das duas uma, números americanos que reflectem outra realidade e outro público com outros hábitos de compra, ou números europeus que não fazem sentido nem apresentam comportamentos lógicos (e portanto previsíveis) do público precisamente porque os consumidores de produtos culturais são por natureza idiossincráticos, imprevisíveis e erráticos e o segredo, para os conhecer, é estar entre eles, é ser um deles.

Mesmo em relação ao público americano Korda admite essa realidade mas não se debruça sobre ela (provavelmente, repito, porque não lhe é possível fazê-lo dado a sua posição dentro da indústria do livro), mesmo ele admite a incerteza dos números e a imprevisibilidade dos sucessos literários. Acima de tudo, Korda admite a grande distância que vai de quem trabalha nas editoras para o leitor e apesar de tocar nesse aspecto não o problematiza, dando-o como adquirido. Nós por cá já ultrapassamos essa batalha que decorreu com o advento da literatura popular de finais do século XVIII, meados do século XIX - uma época em que praticamente não existiam sequer gráficas no território dos actuais EUA, quanto mais editoras... É preciso perceber isto, é vital termos perspectiva histórica da indústria do livro para não continuarmos a perpetuar erros.

Como em todas as indústrias com muitos anos de existência, é fundamental que quem dita as suas estratégias de crescimento ou mesmo de manutenção, saiba o que aconteceu no mercado há 50, 100, 200 anos. Esse sim, é o conhecimento que permite tornar o negócio, as suas mutações e a especificidade do seu público, categorizáveis e mais previsíveis.

10/17/2013

A edição política e o 25 de Abril: Ação editorial e engajamento

É já na próxima segunda feira, dia 21 de outubro de 2013, às 19:00 horas na Biblioteca-Museu República e Resistência – Grandella, na Estrada de Benfica, 419, em Lisboa que irá ser apresentada a tese de Doutoramento de Flamarion Manués, investigador do Instituto de História Contemporânea/FCSH/UNL e doutorado em História pela Universidade de São Paulo, no Brasil.

O autor tem estado em Portugal nos últimos anos a fazer o levantamento das editoras políticas que surgiram no período do Marcelismo e pós 25 de Abril, tendo já organizado anteriormente uma série de encontros muito interessantes com editores dessa época.

Para todos aqueles que se interessam pela história da edição em Portugal esta é uma oportunidade rara.

10/08/2013

Os Livreiros e o Seu Património

Foto histórica dos livreiros que ainda hoje se situam junto ao Sena, em Paris.

É já no próximo dia 22 de Outubro de 2013, 3.ª feira, às 18h15, na Biblioteca Municipal Camões − Largo do Calhariz, 17 – 2.º esq.º (junto ao Elevador da Bica, Lisboa)− que irá acontecer o 1.º Encontro «Os livreiros e o seu património».

O evento visa contribuir para a preservação e divulgação da memória e património dos livreiros e da edição portuguesa do período contemporâneo, e conta com a participação de Fátima Ribeiro de Medeiros (docente e investigadora de literatura, mediadora e animadora de leitura na Livraria Culsete, Setúbal) e Pedro Oliveira (livreiro e alfarrabista, ex-livreiro da Livraria Sá da Costa).

Luís Bernardo (subdirector do Centro de História da Cultura) apresentará número da revista Cultura com dossiê sobre a edição e o seu património.

10/07/2013

Os Editores Não se Abatem


Vai ser apresentado o segundo volume da colecção «Protagonistas da Edição», da autoria da crítica literária e jornalista Sara Figueiredo Costa e com edição da Booktailors - consultores editoriais.

Esta colecção, composta por longas entrevistas atuais a indivíduos que marcaram o campo editorial da edição em Portugal, segue na esteira dos editores de relevo e, após uma abertura solene com o histórico Fernando Guedes, desenvolve com o testemunho de Carlos da Veiga Ferreira, um editor marcante na edição de literatura estrangeira de qualidade à frente da Editorial Teorema e, atualmente, na jovem chancela Teodolito.

O título, em referência ao clássico negro americano de Horace Maccoy, remete para o episódio da saída litigiosa do Grupo Leya, quando o editor se revoltou com a falta de importância que a direção atribuía às competências e experiência dos editores.

Na expectativa de que este e outros episódios sejam abordados nesta obra, em particular o período de cisão editorial da passagem do milénio que originou a, atualmente extinta, União de Editores Portugueses, iremos estar atentos ao lançamento deste livro, em particular pela proverbial coragem de Carlos da Veiga Ferreira em dizer tudo aquilo que sabe e pensa, que tornará este um livro interessante para quem gosta da «história privada» do mundo editorial.

6/14/2013

Livros que tomam partido: a edição política em Portugal, 1968-80

Fonte e espelho das grandes transformações sociopolíticas ocorridas no nosso país, a edição em Portugal ao longo do século XX é tema ainda pouco aprofundado por especialistas, académicos e investigadores, apesar da relevância que o seu estudo e divulgação deveriam merecer. Conforme refere Pedro Marques em texto publicado na revista LER de Outubro de 2012: “O século XX permanece estranhamente arredio da historiografia portuguesa do livro e da edição, como se fosse um objecto complexo demais para ser abordado doutra forma que não seja por estudos de parcelas temporais”.

É neste contexto que merece uma saudação muito especial a tese de doutoramento defendida no passado dia 7 de Junho, por Flamarion Maués Pelúcio Silva, no âmbito do Programa de História Social do Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. O autor desenvolveu um trabalho de grande mérito, vivendo e convivendo em Portugal com cotados especialistas e experientes protagonistas, a que acresceu inúmeras entrevistas, intervenção em conferências, e a consulta extensa e intensa de documentação essencial para a compreensão, enquadramento e obtenção de conclusões válidas sobre a matéria que se propôs investigar.
A tese - Livros que tomam partido: a edição política em Portugal, 1968-80 - cuja divulgação e reprodução total ou parcial, por qualquer meio convencional ou electrónico, é permitida para fins de estudo e pesquisa desde que citada a fonte, é assim resumida pelo seu autor:

O objetivo deste trabalho é analisar a atuação das editoras de livros de caráter político em Portugal entre 1968 e 1980, a fim de verificar o papel político, cultural e ideológico que desempenharam no processo de transformações pelo qual passou o país nesse período. Para isso, busquei: a) identificar as editoras que realizaram essas publicações e examinar as vinculações políticas que tinham; b) realizar o recenseamento das obras de caráter político publicadas no período em estudo; c) identificar as pessoas e organizações responsáveis por essas editoras e publicações.

A partir dos dados levantados procuro entender como atuavam estes editores, quais suas motivações políticas, ideológicas e empresariais, como organizavam as editoras do ponto de vista intelectual e comercial, e qual o peso das vinculações políticas na vida das editoras.

Em termos cronológicos, o período em foco começa em 1968, com o afastamento por motivos de saúde de Salazar do poder e sua substituição por Marcelo Caetano, e vai até 1980, com a formação do primeiro governo de direita após o fim da ditadura em 25 de abril de 1974.

Uma síntese do trabalho mostra que existiram pelo menos 137 editoras que publicaram livros de caráter político em Portugal entre 1968 e 1980, tendo editado cerca de 4.600 títulos políticos no período. Este trabalho apresenta estudos sintéticos sobre 106 destas editoras.

Minha tese é que estas editoras conformaram o que podemos chamar de edição política no país. Ao realizar um trabalho editorial que vinculava de modo direto engajamento político e ação editorial, estas editoras – e seus editores – atuaram com clara intenção política de intervenção social, tornando-se sujeitos ativos no processo político português no período final da ditadura e nos primeiros anos de liberdade política.
Congratular Flamarion Silva e fazer votos para que o exemplo deste amigo brasileiro sirva de incentivo aos investigadores portugueses no domínio do livro e da leitura, constitui certamente a melhor forma de celebrar a importância desta sua obra para a historiografia da edição em Portugal.

4/03/2013

Padre António Vieira - A Obra Completa

 
 
O Círculo de Leitores faz, uma vez mais, história na edição em Portugal! Ao expressar esta convicção, estarei certamente a ser influenciado pelos trinta anos que passei no Círculo. Acredito, apesar disso, que a opinião isenta de quem vive no mundo dos livros coincidirá com a minha apreciação.
 
Publicar pela primeira vez em quatrocentos anos, a obra completa do missionário sobre o qual Fernando Pessoa se pronunciou, considerando "É de facto o maior prosador – direi mais, é o maior artista – da língua portuguesa.", constitui mais um marco assinalável nas quatro décadas de vida do clube do livro no nosso país, ao longo das quais editou obras de grande valor literário e historiográfico, afirmando-se, justamente, como relevante e prestigiada instituição cultural.

Em À Janela dos Livros: Memória de 30 anos de Círculo de Leitores, procurei fazer uma cronologia tão detalhada e esclarecedora quanto me permitiu o engenho e arte, do que de mais relevante ocorreu na vida editorial do Círculo de Leitores e na sua relação com a sociedade, durante as três primeiras décadas de existência, o tempo correspondente ao período em que tão intensamente partilhei o sabor dos maiores sucessos e os desafios que em cada momento foi sendo necessário ultrapassar.

Amanhã, tem lugar na Aula Magna da Universidade de Lisboa a cerimónia de lançamento da Obra Completa do Padre António Vieira, conforme informação detalhada em À Janela dos Livros. Uma excelente ocasião para que aqui deixe um desafio, no sentido de ser desenvolvido e concretizado, por entidade competente, um projecto de investigação sociológica sobre o forte impacte do Círculo de Leitores na elevação do nível cultural da sociedade portuguesa, nomeadamente por via da divulgação do livro junto de centenas de milhares de famílias, do fomento de hábitos de leitura, do acesso ao conhecimento dos melhores clássicos da língua portuguesa, do incentivo à produção académica de obras de grande vulto, e da disseminação pelo grande público de obras de inegável valor historiográfico. Pela minha parte estarei disponível para, dentro das minhas possibilidades, dar o contributo que seja considerado útil.

Rui Beja

3/26/2013

Grupo Lidel celebra 50º Aniversário

 

Fundada por Frederico Annes, em 15 de Março de 1963, com o objectivo de promover e distribuir em Portugal editoras estrangeiras de livros técnicos e científicos, a Lidel reune as mais fortes razões para celebrar com orgulho o êxito obtido ao longo dos seus primeiros cinquenta anos de actividade no mundo dos livros.

Ganho o conhecimento do mercado e adquirido o saber como actuar nos domínios que motivaram a sua constituição, a empresa lançou-se em 1989 no mercado da edição, começando pela tradução de dois livros estrangeiros no âmbito da medicina - os Manuais de Enfermagem Pediátrica e Obstétrica -, a que se seguiram os livros Projectos Industriais e Português sem Fronteiras. Uma gestão dinâmica, criteriosa e sustentada, conduziu rapidamente à liderança do mercado nacional de livros técnicos, nomeadamente nas áreas da Medicina e de Ensino de Português Língua Estrangeira e Língua Segunda, onde pontificam múltiplos especialistas portugueses. Gestão, Fiscalidade, Química, Biologia, Engenharias, Geomática, Hotelaria e Turismo, constituem, igualmente, domínios de excelência na programação editorial.

Em 1991 iniciou-se uma nova fase de crescimento, tendo sido criadas a FCA - Editora de Informática, que veio a tornar-se líder na publicação de livros sobre tecnologias de informação, e a ETEP - Edições Técnicas e Profissionais, com publicações dirigidas ao ensino técnico-profissional e também às áreas de Automação, Robótica, Electrónica e Secretariado. Posteriormente, em 1910, foi lançada a marca PACTOR, dedicada às Ciências Sociais e da Política Contemporânea.

Seguindo o seu lema de sempre - O livro à procura do Leitor -, o Grupo Lidel mantém-se igualmente na esfera familiar do seu fundador, hoje com 92 anos, sendo gerida pelo seu filho, também Frederico Annes, e tendo já na Direcção Comercial a representante da 3ª geração, Rita Annes.

Pelas razões assinaladas, o percurso do Grupo Lidel é verdadeiramente notável, especialmente se ao que já foi dito acrescentarmos o  grande significado que decorre de o sucesso editorial, comercial e económico, ocorrer numa empresa familiar independente de qualquer grupo económico ou editorial, e num mercado altamente especializado, concorrencial e que enfrenta os fortes desafios colocados pela cópia ilegal e pela evolução tecnológica associada à nova era da Informação Globalizada.

Parabéns ao Grupo Lidel, e à família Annes, pelo sucesso de 50 anos, pelo raro exemplo que constitui e pela capacidade de enfrentar o futuro, a nível nacional e internacional,  conforme tão claramente ficou expresso na sessão comemorativa que teve lugar no passado dia 22, na Fundação Oriente.

Rui Beja
 

3/01/2013

Com pés e cabeça

No colofão do livro "Sem pés nem cabeça": 


A terceira edição d'este livro se concluiu a dez de Agosto de mil novecentos e vinte... André Brun o escreveu com a graça de Deus e a que tem... Guimarães e C.ª o editaram... A imprensa de Manuel Lucas Torres, sita na R. do Diário de Notícias, 61, o compôz e imprimiu... O público o comprará...

 Fonte: http://conversamuitaconversa.blogspot.pt/2012/05/o-meu-primeiro-fato-de-mascara-por.html

2/06/2013

O Livro de Bolso, uma história não tão recente

Um dos elogios que é regularmente feito a Francisco Lyon de Castro é o de ter sido o introdutor do livro de bolso em Portugal. Não querendo de forma alguma retirar o grande mérito desse grande Editor - mérito esse que abordarei mais adiante - , creio ser necessário um pouco de esclarecimento histórico em torno deste assunto.

Antes de Lyon de Castro havia já "livros de bolso" em Portugal. Não tinham esse nome mas o conceito e até boa parte dos mecanismos de divulgação e promoção eram os mesmos. Desde os anos 30, por exemplo, a Civilização tinha a sua colecção de grandes obras a pequenos preços. A Lello iniciou a sua pela mesma altura mas a história não principia aí.

Historicamente e a nível internacional, a designação "livro de bolso" surge de uma colecção iniciada em 1905 pelas éditions Jules Tallandier de Paris. A maior difusão começa, contudo, no mundo inglês, nos anos 30 com as edições da britânica Penguin e nos EUA da Pocket Books (hoje em dia uma divisão da Simon & Schuster). Apenas nos anos 50 e em virtude do sucesso do modelo inglês regressa ao mundo francófono através da Livre de Poche que reunia a participação de diversas casas editoras sob a regência de Henri Filipacchi. Mas estamos apenas a falar da designação "livro de bolso". O conceito em si era bem mais antigo e de invenção francesa.

O conceito é simples: oferecer literatura a baixo preço através de um formato pequeno e "portável". Inerentemente a este conceito subjaz sempre a necessária maior tiragem, absolutamente vital para compensar o editor da menor margem que retira das vendas.

Com efeito, com a massificação do acesso à obra literária, desde finais do século XVIII que edições baratas tinham tomado o lugar da famosa literatura de cordel. Em termos sociológicos é interessante verificar como autores mais ou menos comerciais começam a entender e orientar a sua escrita para um público mais generalizado. Historicamente não surpreende que essa transformação acompanhe igualmente a explosão da imprensa escrita e coincida, por sua vez, com as diversas revoltas político-sociais que marcaram esse final de século.

Nunca se saberá, imagino, quem primeiro teve a ideia, se um autor se um editor, mas a verdade é que, com o começo do século XIX, surgem também as primeiras "edições populares". Os grandes autores vêm as suas obras serem publicadas num formato de prestígio e posteriormente numa edição popular, bastante mais acessível, menos dispendiosa e consequentemente facultada a um preço bastante mais baixo, chegando, desse modo, a um público mais abrangente.

Num percurso paralelo a esse, uma literatura mais popular, de certa forma descendente directa da literatura de cordel, apanha o comboio do neo-gótico de finais do século XVIII (que virá a estar na base dos géneros policial, de terror, do Thriller ou da Ficção-científica), e toma de assalto o mercado do livro. Edições diversas das obras de Ann Radcliffe, Walpole e tantos outros no mundo inglês, de Soulié ou Sue em França (com imensos seguidores), introduzem a literatura de emoção (próxima mas ao mesmo tempo longínqua do melhor Samuel Richardson) a um público ávido de distracção e que tem no acesso ao livro e à leitura a grande distracção.

Estas edições apareciam quase todas de base em formato "popular": pequeno formato, materiais de menor qualidade, baixo custo de produção e reduzido preço de venda em tiragens de vários milhares. Como a imprensa era ainda tipografia manual e a velocidade e quantidade de impressão condicionada, os editores faziam as estimativas comerciais das suas vendas pelo género ou pelo autor, calculando, desde o princípio, que o livro atingiria impressão de mais ou menos de "x" milhares. Assim, os editores sabiam que o break-even point da produção de um livro em altas tiragens só seria coberto após diversas tiragens. Curiosamente um tipo de raciocínio que seria bastante útil fazer-se hoje em dia.

Já agora e por uma questão de precisão histórica, a maior parte das ditas "edições populares" mesmo aquelas que tinham formato maior do que os maiores livros de bolso dos nossos dias, cabiam nos enormes bolsos dos populares da época. Bolsos que eram igualmente usados para transportar intrumentos de trabalho e tudo o mais de que houvesse necessidade.

Em meados do século XIX, em Portugal, a Typographia Rollandiana, inundava o mercado com as suas edições dos autores de sensação, edições traduzidas ou romances apócrifos, ou ainda romances sem autoria explícita "ao modo de Ana Radcliffe" ou "Frederico Soulié". Eram edições em formato ligeiramente mais reduzido do que a maior parte dos formatos de bolso actuais. Outras casas editoras se lhe seguiram.

Nas últimas décadas do século XIX, o Editor David Corazzi traz a Portugal, naquela que foi uma das suas poucas viagens para fora de França, um autor chamado Jules Verne que veio a Lisboa assinar, numa enorme campanha de marketing avant la lettre e grande cobertura de imprensa, os contratos de edição para língua portuguesa. Durante a cerimónia, David Corazzi anunciou a criação da série de luxo e da edição popular. Na viragem do século XIX para o século XX, a Parceria António Maria Pereira oferecia a edição popular das obras de Camilo, imitando Corazzi, na altura já falecido e cuja editora era então de seus herdeiros e cujo nome - de pouca dura devido a disputas familiares e má gestão - fora alterado de David Corazzi Editor para Empreza de Horas de Leitura.

Ambas as edições populares inundaram o mercado a ponto de serem ainda hoje encontradas em quantidade capaz de rivalizar com a colecção Vampiro ou a Livros RTP nos escaparates das lojas de alfarrábio.

Também por cá portante, se seguiram as duas linhas de edição popular então correntes na Europa. Aliás não será de estranhar que o autor Pierre Benoit, que tinha inaugurado em França no ano de 1953 a colecção Livre de Poche, tenha sido publicado em formato de bolso pela Civilização numa das suas diversas colecções populares.

A deliciosa história da criação da Vampiro e da Livros do Brasil e da sua ligação com a Civilização não a posso contar pois não tenho todos os dados mas lanço desde já o desafio ao Nuno Medeiros - creio que até merecia um livro.

Uma das histórias que gostava de conhecer - e essa não conheço de todo - foi a passagem da mítica colecção à qual (erradamente como já referi) se atribuí a primeira aparição do livro de bolso no nosso país, a colecção Livros das Três Abelhas, que começou a ser editada pela Editorial Gleba, para a Europa-América. Qual o papel de Lyon de Castro nessa transição e quais as relações entre a editora que marcou as primeiras décadas do século XX com as suas notáveis antologias de contos e a Europa-América no seu modelo comercial assente sobre o conceito do livro de bolso, são questões às quais gostaria de ter resposta.

E aqui chego ao grande papel que teve a Europa-América de Lyon de Castro enquanto modelo industrial e comercial. De facto a grande inovação foi a criação de todo um modelo editorial e empresarial tendo por base o conceito do livro de bolso. Nada nesse processo era novo excepto a sua dimensão. Havia já várias editoras com gráfica própria, havia várias colecções e vários tipos de livros distribuídos fora do canal Livraria. Nunca, contudo, uma gráfica, a sua maquinaria, o tipo de papel, etc. tinham sido pensados em função de uma estratégia global de produto. Nunca antes a cadeia de distribuição tinha sido alargada a tantos pontos fora da habitual cadeia de distribuição dos livros. E aí, bem como nos sistemas de trabalho editorial (a tradução e revisão, sobretudo no que isso acarretava de bom e mau), a implantação de uma estratégia global foi efectivamente algo de inovador.

A Vampiro da Livros do Brasil e as suas seguidoras colecções de policial (da Minerva, da Bertrand/Ibis, da DH, etc.) nunca conseguiram ter a projecção presencial das ediçôes da Europa-América, e se estiveram próximas foi porque lucraram com o exemplo desta. Em termos de quantidade e meios, a única editora capaz de rivalizar com a Europa-América, mas que nunca acabou por fazê-lo pois optou por ocupar um segmento de qualidade bastante inferior, foi a Agência Portuguesa de Revistas/Empresa Nacional de Publicidade, editoras que surgem de embrião na empresa do Diário de Notícias e cuja história de fusões, vendas, mutação de nomes, e muito mais, daria um grande livro sobretudo pela influência social das suas publicações.

Foi da proliferação do policial de má qualidade (em boa parte causada pela sobre-exploração da fórmula) que derivou uma certa ideia de falta de qualidade associada ainda hoje à edição de bolso. A Europa-América, numa fase já tardia, caiu demasiado no logro da edição sem critério de qualidade editorial que mais ainda afundou a imagem do livro de bolso pois as traduções, por vezes verdadeiros crimes de lesa-conteúdo, já não garantiam pelo preço a compra da parte de um público mais educado e selectivo.

Pode dizer-se muito bem ou muito mal da Europa-América de Lyon de Castro, mas tem de se reconhecer a coragem deste em ter montado um pequeno império com base numa estratégia editorial, comercial, logística e industrial que lhe granjeou um pódio de entre todos os posteriores imitadores.

Só não digam que Lyon de Castro foi o introdutor do Livro de Bolso em Portugal porque não é verdade.

11/02/2012

Da incultura no meio editorial


Todos os anos se fala da crise na área da edição. Os editores do Eça e do Camilo trocavam com os autores cartas em que mencionavam essa crise.

Vivemos uma crise cultural de grande dimensão desde que foi possível perceber o que é uma crise cultural. Nunca conseguiremos sair dessa crise enquanto não se conseguirem combater eficazmente dois flagelos inteiramente ligados entre si: o afastamento das pessoas relativamente à cultura, seja ela sob que forma for, e o desligamento da memória.

Na área editorial em Portugal a mesquinhez é rainha. Ao longo de séculos a incapacidade de um associativismo activo e eficaz é notória. Preferimos “lixar” o parceiro a ter sucesso em conjunto. Nunca se apresentou uma iniciativa de longo curso no sentido de angariar novos leitores. Preferimos continuar a lamentar-nos cada um para o seu lado.

A nossa memória é negativa: lembramos sempre a desfeita que o outro editor nos fez. O positivo é sempre subvalorizado. E essa memória negativa é a única que existe. Estamos num país onde não se preserva a memória de nada, em que a memória, a experiência e a sabedoria são temidas e desprezadas.

Na área editorial essa verdade é facilmente verificável. Com raras e gratas excepções, não se faz quase nada para preservar a memória da edição enquanto facto cultural.

Não quero aqui puxar a brasa à sardinha dos editores mas na maior parte dos países civilizados procura-se resgatar o passado das empresas editoriais. Há países onde há centros que se dedicam especificamente a essa tarefa, outros em que as universidades adquirem ou vêm serem-lhes doados os arquivos das editoras históricas…

Se alguém quiser investigar a história ou importância cultural de uma casa editorial portuguesa corre o sério risco de nada encontrar de relevante. Digamos que eu queria estudar a importância da Typographia Rollandiana, provavelmente a primeira editora portuguesa a publicar literatura de massas (policial/fantástico-neo-gótico) entre finais do primeiro quartel do século XIX e os começos do último quartel. Se eu quisesse saber quem foi o editor responsável por essa política que revolucionou a edição em Portugal e vulgarizou a leitura junto de segmentos de público que habitualmente não lia, como poderei fazê-lo se nada sobre senão os livros que nada informam sobre esta questão? Nada há, nada sobra.

E se eu aponto este exemplo posso dar outros de editoras marcantes durante o século XX português. Em boa verdade haverá não mais do que 4 pessoas a trabalhar seriamente a História da Edição em Portugal mas as fontes e os documentos escasseiam ou pura e simplesmente não existem.

Mas se esta memória histórica está essencialmente perdida. Se todos os anos morrem pessoas com um manancial de informação que nunca mais se poderá recuperar, pessoas ligadas às grandes casas de edição do século transacto, a perda de memória atinge níveis muito mais preocupantes ainda a um nível mais primário.

Da mesma forma como os adolescentes parecem cada vez mais gerontofóbicos e as frases como “morte aos velhos” e as atitudes de desrespeito se multiplicam (o Bioy Casares, no seu «Diário da Guerra aos Porcos» antecipava essa realidade que só tende a aumentar com um país envelhecido em que terão de ser os poucos mais novos a cuidar dos muitos mais velhos), da mesma forma como os netos já não ouvem as histórias dos avós e os tratam por tu. Da mesma forma como qualquer transmissão de uma experiência que alguém tente junto das novas gerações é entendida como mais um ensinamento (com toda a carga negativa de gerações educadas com os país e vizinhos a dizerem “Vais para a escola. não é? Coitadinho, mas lá tem de ser”). Da mesma forma hoje em dia as empresas de edição trabalham cada vez mais repetindo sucessivas vezes os erros do passado.

Não se aprende em Portugal, não se evolui pelo acumular de experiências, repetem-se constantemente os erros mais básicos, não se respeita quem sabe, quem tem história, não se funciona hierarquicamente salvo quando estas hierarquias são tirânicas.

E porque é que tudo isto é importante? Porque esta crise vai levar a uma reestruturação do mercado, ao seu redimensionamento e à sua reinvenção. E essa nova edição só será bem sucedida se conhecer o passado. Caso contrário repetirá ciclicamente e de forma auto-destrutiva, os erros do passado.

É necessária a partilha de informação e experiências entre os editores. É necessário ouvir e investigar o passado porque os edifícios sem alicerces desabam em muito pouco tempo.

Eu estou nesta área há 13 anos e neste tempo vi repetirem-se situações com as mais diversas editoras e com a própria estrutura do mercado que não fazem sentido. Da DIG à Sodilivros vão pouco mais de 11 anos mas há coisas piores, erros cometidos por uns que são repetidos por outros com meses de intervalo.

Assim a indústria da Edição não vai conseguir reinventar-se. Vai manter-se em crise e vai continuar a ser a principal responsável - ao lado de toda uma cultura de imediatismo que leva a que a questão do momento tenha uma duração de impacto idêntica ao tempo de permanência visual de um artigo numa página do Facebook – pelo afastamento dos leitores. Sim, colpa nostra.

É necessário, agora mais do que nunca, que o associativismo trabalhe e proteja a memória do sector (seja independentemente, seja por via de parcerias com terceiros). É necessário formar os profissionais do sector, transmitir e compartilhar experiências. Meditar de forma prática uma reinvenção exequível do sector e trabalhar contra a sua extinção.

O nosso sector não tem nada de novo em termos de fundo há anos. Mesmo a edição digital é uma variante apenas ligeiramente diferente da edição física. Com ligeiras actualizações, o trabalho editorial que se fazia nos séculos passados é essencialmente o mesmo que fazemos hoje. Mudou-se o ritmo, como em quase tudo, mas no essencial estamos perante processos muito próximos. A perspectiva histórica aliada à análise de resultados das políticas e acções, estratégias e opções tomadas no passado, é ela que nos abrirá caminho para o futuro.

Temos de ser rigorosos e isentos nessa análise por forma a não repercutirmos o erro. Se não sabemos, devemos calar-nos ou investigar. Está na hora da edição em Portugal ser uma coisa séria, respeitável e respeitosa em relação ao resto e a si mesma. Mesmo integrados em grupos editoriais com propósitos meramente financeiros, os editores têm de resgatar o seu papel de influência social sobre os leitores e sobre a sua profissão. Deveríamos tê-lo feito em épocas em que teria sido mais fácil mas não podemos atrasar muito mais a construção do futuro da edição no nosso país.

Hugo Xavier
(que não usa o Acordo Ortográfico meramente porque sabe que um brasileiro sabe perceber o que há de comum entre "colectivo" e "coletivo" mas já não consegue perceber o que são "peúgas" e quanto a isso o AO de nada vale)